Arquivo de Agosto, 2007

SONETO DE DESANIVERSÁRIO

31 Agosto, 2007

Trinta mulheres me habitam
trinta dores somadas
trinta paixões
trinta anos, tantas mortes.

De maio a maio
passou-me a pressa dos vinte
resta alcançar agora
a calma dos anos seguintes.

O véu que cobre a vida
e embala a morte 
Já chega ao meio da catedral.

De cansaço não faria o que já fiz.
A vida passou-me trinta vezes
mas em nenhuma eu fui feliz.

maio de 1981

OS IMPERIAIS

28 Agosto, 2007

Nós, os imperiais, sabemos
adestrar macacos
fabricar magias
inventar feitiços
iludir platéias
tirar coelhos do cu
e sumir quando é preciso.
Nós sabemos
montar e desmontar gente
jogar álcool na ferida dos outros
fritar corações
e reescrever tudo que já lemos.
Nós, os imperiais, sabemos
fingir que temos dor
sem nunca ter sabido
o que é o amor

OCO

27 Agosto, 2007

De tudo que passou
só restou esse terreno baldio,
esse vazio,
pois a saudade aperta
mas não ocupa espaço.

DEZEMBRO

26 Agosto, 2007

Este menino nuzinho
de braços abertos
pra estrela
pra vida
pro tempo,
saberia ele que é Deus?

FORNO

25 Agosto, 2007

 Minha avó hoje apareceu-me
na máscara branca e oca do forno da cozinha.
- Vovó, perguntei, o que fazer com os sonhos,
buracos brancos e ocos que trago dentro de mim?
- Leia as instruções, minha netinha.
: assar/cozer.

SOL POENTE

24 Agosto, 2007

Já não serei tão bela
nem te darei sorrisos.
Serei grave, solene.
Esperar por ti
me fez quase
oriental.

OI, JOÃO

22 Agosto, 2007

Eu sei que email deve ser uma coisa breve por isso não farei rodeios. São 23:40, estou chegando em casa, nem tirei a roupa ainda, e vim direto pro computador porque preciso muito te falar uma coisa. Acabei de ver seu filme, Santiago. Fiquei inclusive para o papo que você gentilmente se dignou a bater com aquele bando de babacas. Juro que não entendi a reação da platéia. Eu já estava me preparando pra pular na cadeira, levantar, berrar, bater os pés no chão, assobiar, gritar Bravo quando olho ao redor e vejo pessoas aplaudindo sem vontade, como se fosse um filme qualquer. Nem em pé elas ficaram! Talvez (prefiro pensar assim) seja por conta do impacto, que foi tão grande que grudou o público na cadeira. Afinal, as pessoas (eu inclusive) estavam lá desde as 18h. Se elas aguentaram uma hora na fila, mais uma na sala de espera é porque gostam de você, são suas fãs. Mas enfim, essa é outra história que fica para uma outra vez. Como eu disse, vou falar rapidinho por que email foi feito para comunicações rápidas. Serei breve, portanto. Desde que eu me entendo por gente, sempre que eu compro um livro, ou entro num cinema para ver um fime, eu penso: ”é esse”. É esse o livro, ou o filme, que vai me salvar, que vai me dar a resposta, que vai me dizer qual é o sentido da vida, do mundo e da minha vida no mundo. O livro eu ainda não achei, mas quanto ao filme, posso dizer que pra mim chega. Depois de Santiago, juro que nunca mais entro num cinema enquanto eu for viva. Não que este seja o melhor filme de todos os tempos. Há de haver outros melhores. Mas pra mim deu. Seu filme me deu tudo que eu buscava desde que entrei num cinema pela primeira vez, e lá se vão mais de 50 anos. Eu poderia falar das muitas cenas que me encantaram (a maravilhosa dança das mãos, por exemplo) das muitas camadas de significado, da maneira como você se crucifica e se redime ao final, mas seria totalmente desnecessário porque você, melhor do que ninguém, sabe o filme que fez. Até porque, email foi feito pra gente falar só o essencial. Talvez a identificação tenha se dado por eu ser escritora do tipo que adora se esconder na primeira pessoa. Se eu já sou conhecida como Ivana, a Terrível, imagina quem não serei daqui pra frente.  

Só mais uma coisinha, rapidinho: nem se você fizer outros filmes, eu também não vou ver, pois não me contento com menos, e mais é impossível. Santiago c’est moi. João c’est moi. O Santiago por trás do Santiago e o João por trás do João também c’est moi.

Pra terminar, uma última coisa rapidinho: continue cuidando da Piauí, essa revista maravilhosa, e esqueça essa história de cinema. Por favor. Nós (eu e você) não aguentaríamos.

Um beijo dessa fã que te adora

Ivana

P.S.: vou publicar esse email no meu blog.

D’ESCRITURAS

20 Agosto, 2007

Sinceramente, eu não entendo como tem escritor que fala que quando senta pra escrever já está com o livro pronto na cabeça. Antigamente eu escrevia assim. Via alguma coisa na rua, escutava uma frase no ônibus ou no supermercado, ia pra casa e fazia brotar dali uma história. Era só sentar e escrever. Hoje eu acho cada vez menos graça nesse processo. Eu não sou uma contadora de histórias. Sou escritora. E embora todo escritor seja um contador de histórias, nem todo contador de histórias é escritor – o que não tira o mérito de nenhum dos dois.

Hoje pra mim, o tesão é fazer fazendo. É na feitura que o processo se dá. Esse é o grande barato: deixar o texto se fazer. Travar com ele um embate permanente pra ver quem é o mais forte. Dois seres distintos em meticulosa negociação. Às vezes sou eu quem tomo as rédeas e o obrigo a andar na linha; às vezes é ele e aí (ai de mim!) sou levada para lugares que me assustam muito, aonde eu jamais iria por vontade própria. 

Se não for assim, qual é a graça?

Eu e meu texto caminhamos o tempo todo tentando passar a perna um no outro (é lindo de se ver), até chegarmos ao ponto final. 

É o paraíso. E como diz André Sant’Anna, o paraíso é bem bacana.

Pena que dura tão pouco.   

SEIXO

19 Agosto, 2007

O tempo rolou sobre minha pele
dando-me a lisura da pedra,
o macio do rio que não quer chegar
e o pastoso do barro
que nunca foi pisado.

LILÁS

18 Agosto, 2007

Dentro do tronco da paineira
há uma flor roxo/vermelha
escondida.
Perfume guardado
segredo cravado no anel
que o sapo esconde na boca.
Ouro em pó
tesão matinal
sangue na buceta.
Mistérios verdes que entram pela raiz
e batem no topo da cabeça.