Eu sei que email deve ser uma coisa breve por isso não farei rodeios. São 23:40, estou chegando em casa, nem tirei a roupa ainda, e vim direto pro computador porque preciso muito te falar uma coisa. Acabei de ver seu filme, Santiago. Fiquei inclusive para o papo que você gentilmente se dignou a bater com aquele bando de babacas. Juro que não entendi a reação da platéia. Eu já estava me preparando pra pular na cadeira, levantar, berrar, bater os pés no chão, assobiar, gritar Bravo quando olho ao redor e vejo pessoas aplaudindo sem vontade, como se fosse um filme qualquer. Nem em pé elas ficaram! Talvez (prefiro pensar assim) seja por conta do impacto, que foi tão grande que grudou o público na cadeira. Afinal, as pessoas (eu inclusive) estavam lá desde as 18h. Se elas aguentaram uma hora na fila, mais uma na sala de espera é porque gostam de você, são suas fãs. Mas enfim, essa é outra história que fica para uma outra vez. Como eu disse, vou falar rapidinho por que email foi feito para comunicações rápidas. Serei breve, portanto. Desde que eu me entendo por gente, sempre que eu compro um livro, ou entro num cinema para ver um fime, eu penso: ”é esse”. É esse o livro, ou o filme, que vai me salvar, que vai me dar a resposta, que vai me dizer qual é o sentido da vida, do mundo e da minha vida no mundo. O livro eu ainda não achei, mas quanto ao filme, posso dizer que pra mim chega. Depois de Santiago, juro que nunca mais entro num cinema enquanto eu for viva. Não que este seja o melhor filme de todos os tempos. Há de haver outros melhores. Mas pra mim deu. Seu filme me deu tudo que eu buscava desde que entrei num cinema pela primeira vez, e lá se vão mais de 50 anos. Eu poderia falar das muitas cenas que me encantaram (a maravilhosa dança das mãos, por exemplo) das muitas camadas de significado, da maneira como você se crucifica e se redime ao final, mas seria totalmente desnecessário porque você, melhor do que ninguém, sabe o filme que fez. Até porque, email foi feito pra gente falar só o essencial. Talvez a identificação tenha se dado por eu ser escritora do tipo que adora se esconder na primeira pessoa. Se eu já sou conhecida como Ivana, a Terrível, imagina quem não serei daqui pra frente.
Só mais uma coisinha, rapidinho: nem se você fizer outros filmes, eu também não vou ver, pois não me contento com menos, e mais é impossível. Santiago c’est moi. João c’est moi. O Santiago por trás do Santiago e o João por trás do João também c’est moi.
Pra terminar, uma última coisa rapidinho: continue cuidando da Piauí, essa revista maravilhosa, e esqueça essa história de cinema. Por favor. Nós (eu e você) não aguentaríamos.
Um beijo dessa fã que te adora
Ivana
P.S.: vou publicar esse email no meu blog.