Arquivo de Setembro, 2007

A MULHER DO FIM DO SÉCULO

27 Setembro, 2007

Este conto eu escrevi em 1997, depois de ouvir essa música. Ele foi publicado no meu livro Histórias da mulher do fim do século, esgotado.

A MULHER DO FIM DO SÉCULO

Tenho três amigos e sou apaixonada por um deles, justamente o que acha que eu gosto dos três igualmente. Os outros fazem uma certa confusão. O primeiro acha que minha paixão oscila entre os dois, que não ele, por isso morre de ciúme de ambos; o segundo julga que sou tão apaixonada por ele quanto pelo que sou de verdade e isso o envaidece mais ainda. Dentre os três, só um é ciumento. Os outros me entregariam de bom grado ao primeiro que aparecesse. Tal confusão em relação aos meus sentimentos é natural. Tudo em mim é tão misturado que fica difícil separar o ouro do cascalho na bateia que sobe do fundo do rio abarrotada de porcaria.
Na sexta-feira da paixão convidei os três para jantar comigo, mas só dois vieram. O terceiro foi viajar com mulher e filhos. De vez em quando promovo esses encontros. Gostos de vê-los juntos. Eles se suportam com alguma dificuldade.
Se me pedissem para dizer como tudo se passou, eu não saberia, tal a bruma que me envolve em certas circunstâncias. Só sei que, depois que eles se foram, eu sonhei a noite inteira com aquele que não veio. No sonho, ele colocava malas e pacotes no porta-malas do carro e me chamava para ir embora. Eu queria ficar mais, estava tão bom, eu estava me divertindo tanto, mas ele insistia: venha. Obediente, sentei-me no banco de trás e fomos embora. Eu, ele, a mulher e os filhos.
Quando aquele por quem sou apaixonada de verdade confirmou a presença, eu fiquei tão ansiosa que comecei os preparativos com antecedência exagerada. A primeira providência foi gravar uma fita para ouvirmos. Começava com Elvis cantando Love me tender, depois, Suppose. Suppose a primavera sem pássaros, suppose uma manhã sem o brilho do sol, suppose viver sem esperança, suppose a vida sem seu amor. Impossible. This is my way, dear. No meio de Are you lonesome tonight? Elvis teve um ataque de riso e não conseguiu cantar mais nada. A orquestra seguiu em frente sozinha. Além da fita, preparei aqueles sanduichinhos de pepino que você comia na infância. Pão de forma sem casca cortado em quatro, com uma única rodela de pepino entre as fatias umedecidas com maionese. Nada mais. Os sanduíches devem ser feitos na véspera e embrulhados individualmente em papel alumínio. Sirva-os bem geladinhos.
Às sete da noite comecei os aperitivos sozinha. Passava das oito quando chegou o primeiro. Sozinhos na sala, nos esforçávamos para inventar assunto. Ele ligou dizendo que tá vindo, falei justificando o atraso do que ainda não chegara. Você gostou da fita. Só lamentou não entender as letras, meu inglês só vai até o I love you. Apesar de o meu não ir muito além, traduzi umas frases de Suppose for you. Suppose a primavera sem pássaros, suppose uma manhã sem o brilho do sol, suppose viver sem esperança, suppose a vida sem seu amor. Impossible. Você disse que Elvis te dava saudade da Califórnia, onde você nunca esteve. Vivemos todos in América. A primeira calça Lee, o boot solado, o rock’n roll, lembranças que trazemos do começo do fim do século. Sou de 51, baby, trago na barriga o desastre das cervejas que tomei. Ele chegou com duas horas de atraso. Eu já estava bêbada e brava. Tive que devolver umas fitas na locadora. Quando servi os sanduíches de pepino, você não acreditou: como você foi lembrar disso? Ele tinha me contado há tanto tempo. Suppose uma mulher que ame tanto um cara que não esquece nenhum detalhe das histórias que ele conta. Às duas da manhã, quando você ameaçou ir embora, eu servi o bobó de camarão. Você gostou tanto que eu chorei de emoção. Se eu fosse seu marido pesaria 180 quilos. É o melhor bobó que comi em toda a minha vida, ele comentou. Isso tá parecendo como amor para chocolate, você disse. Como água para chocolate, ele corrigiu.
Bobó não é prato difícil de fazer. Estando a mandioca cozida e picada até que é rápido. A ansiedade era tanta que comecei a prepará-lo às onze da manhã. Na verdade comecei há quatro anos atrás, quando nos conhecemos e você disse que nunca havia comido bobó de camarão. Suppose uma mulher que viva para satisfazer os desejos do cara que ela ama. Você pediu a receita. Frite cebola e alho numa panela de ferro com azeite de dendê. Quando tudo ficar dourado, jogue pimentão verde, vermelho e tomate picados. Sal e pimenta sem exagero. Mexa tudo com colher de pau. O perfume do refogado me dá saudade da Bahia, onde nunca estive. Junte então a mandioca cozida, quase desmanchando, e um maço de cheiro verde. Por fim, os camarões e o leite de coco. O coentro que esqueci na geladeira ficará lá para sempre. Mexa devagar até que o líquido se evapore e o bobó vire uma pasta amarela e cheirosa. Ao meio-dia tampei a panela e desliguei o fogo. Suppose uma mulher que ame tanto o carinha dela que passe o dia ao redor do fogão fazendo comida pra ele. Elvis morreu de rir quando viu a cena.
A certa altura vocês repartiram a mesma dúvida: como eu podia ser amiga daquele que não veio? Como eu conseguia me relacionar com alguém tão frio e insensível? Não há contato possível entre vocês. Talvez ele seja mesmo frio e insensível, mas não mente pra mim nem fica querendo bancar o engraçadinho pra me seduzir. Já vocês dois, vivem me fazendo de boba, brincando com meus sentimentos, falei chorando mais um pouco.
Devidamente alimentados, vocês foram embora juntos, um para cada lado. Ele me pediu que não fizesse um daqueles escândalos que costumo fazer quando as pessoas dizem que vão embora da minha casa: escondo a chave da porta, ameaço suicídio, falo impropérios vergonhosos. Amanhã o porre passa e fica tudo bem. Ele mora aqui perto, num instante chegou em casa. Na marginal, entre uma ponte e outra, você deve ter pensado: uma mulher que faz um bobó como esse, merece ser feliz. Sem forças pra encarar a escada que me levaria ao quarto, capotei na sala mesmo, sobre o tapete, com a cara enfiada embaixo da mesinha de centro. Por sorte o terceiro veio me buscar e me levou pra longe.

DONA DE CASA

26 Setembro, 2007

Tem dias que a poesia
já nasce pronta,
com nome, vírgula
e ponto final
(de vez em quando ganho este presente).

Mas em compensação
tem outros…

alho e cebola
se compra a vida inteira.

CONTUDO

25 Setembro, 2007

um dia
tudo em Deus estará contido:
a vida, o mundo
e seu estranho conteúdo.

ADORNO

25 Setembro, 2007

meu coração pulseira
ao ver o teu colar.

CORCOVA

24 Setembro, 2007

Dói-me esta barba roçando a pele,
amor dói.
Esta mão que me alisa e tenta me amansar
dói
dói
dói.

POEMETO CATALÃO

24 Setembro, 2007

Meu amigo Josep Domenech, poeta catalão e tradutor de inúmeros escritores brasileiros na Espanha, inclusive do meu Falo de Mulher, que lá virou Fa l’us de donna, traduziu esses versinhos:

IGUAL

Tothom un dia fa una poesia ja feta.
Tothom hi ha un dia que sent un gran dol
i es pensa que com aquest, en el món,
no n’hi ha hagut cap d’igual.

Com.

Tothom sempre es queixa del mateix.
Mal de queixal és tot igual.

e o ALÔ, ALÔ ficou assim:

SÍ, DIGUI

Perdona’m, et truco només perquè,
amb les presses, he sortit tan lleugera,
que he acabat descuidant-me dintre teu.

(depois eu mostro mais)

IGUAL

22 Setembro, 2007

Todo mundo um dia faz uma poesia já feita.
Todo mundo certo dia sofre uma grande dor
e pensa que como essa, no mundo,
nunca houve outra igual.

Qual.

É sempre a mesma a dor da gente.
Dor de dente é tudo igual.

EL CHOCLO

20 Setembro, 2007

Dolores colocou o vestido de cetim
pintou de carmesim os lábios carnudos
e entrou na escola de tango
num gesto grená.

Às três da tarde
voltou pra casa,
matou com sete facadas
o marido que dormia
(ele não tinha bigode)
e voltou para exercitar a lição número dois.

ANIL

19 Setembro, 2007

Montanha de roupas pra passar
e eu punhetando
sonhando acordada
no varal das recordações.

Alma estendida lá no céu
balançando…
balançando…

MAIS CRISTOVÃO

19 Setembro, 2007

*** 

Para o indivíduo, a literatura é poderosa. Para quem escreve, é quase como uma maldição. Depois que você entra na literatura, não sabe fazer quase mais nada. Você acaba sendo escrito por aquilo que escreve. A literatura passa a ser um processo progressivo a nos definir – o ato de escrever como um ato de autodefinição. Quando escrevemos, tornamo-nos personagens de nós mesmos.

No Rascunho tem uma entrevista com Cristovão Tezza que você não pode deixar de ler.


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