Dentro da minha obsessão por datas passadas, uma sessão que nunca deixo de ler no jornal é a tal Há 50 anos. Até porque, agora começa a ficar interessante. Como eu me mudei para São Paulo em 57, tudo que vem daqui pra frente faz parte das minhas lembranças de infância. Hoje, por exemplo, eles anunciam que em 17 de fevereiro de 1958 chegava a São Paulo o Cacareco. O famoso hipopótamo (que foi o “vereador” mais votado nas eleições daquele ano) veio do Rio pra SP num caminhão como parte dos festejos de inauguração do zoólogico da Água Funda. Eu fui ver o Cacareco! Passeião de domingo. A família inteira na Kombi rumo ao zoólogico.
Ao lado dessa “importante” notícia tem outra, que eu só vim a valorizar muito depois. “Morreu ontem o pintor José Pancetti”. Eu adoro o Pancetti. Pacote fechado: a obra e a tumultuada pessoa. Por isso, quando o Marcelo Moutinho pediu para que eu escrevesse um conto sobre um pintor para a antologia Contos sobre Tela (ed. Pinakotheke) que ele organizou, eu gritei na hora: o Pancetti é meu. Publico aqui o conto que saiu no livro. Minha homenagem aos 50 anos da morte de um cara que soube como ninguém transformar angústia e tormento em lindas paisagens.

JOSÉ, MEU AMOR MARINHEIRO
Conheci o homem da minha vida tarde demais. Tem coisa que acontece com a gente que só pode ser castigo.
Foi Amílcar, meu marido, quem sugeriu que eu fosse passar uns tempos em Campos do Jordão.
Vai descansar na casa da Nicinha, vai te fazer bem.
Ele se vira muito bem sem mim, aliás, até melhor quando não estou. Chega tarde da jogatina, chama os amigos para beber sem ninguém pra aborrecê-los.
Estes últimos anos da doença de papai me consumiram. Quando ele já não podia mais morar sozinho, trouxe-o para uma casa ao lado da minha (o Amílcar nunca permitiu que ele morasse conosco) e passei cinco anos cuidando da minha casa e da dele. Era eu quem fazia as compras, a comida, lavava a roupa, até que no dia 3 de dezembro de 1949 encontrei-o olhando para o teto de boca aberta.
Por volta das sete horas dei-lhe a sopa e fui preparar a janta do Amílcar. Não sei a que horas meu pai morreu, não sei se chamou por mim, por alguém, suas últimas palavras não ouvi.
Ao ver meu abatimento, Amílcar chegou a se irritar:
- Seu pai só te dava trabalho.
- Mas era meu pai – tive de explicar – e mesmo doente, sempre me deu mais atenção que você.
Foi aí que ele sugeriu que eu fosse passar uns dias na casa de minha irmã. Fazia tempo que não nos víamos. No enterro de papai, ela mandou um telegrama. O marido, as crianças…
No dia 11 de dezembro, um domingo, Amílcar me levou à rodoviária e eu embarquei para Campos de Jordão.
A casa de Nicinha é uma casa simples, no bairro de Abissínia. A rua é arborizada, como quase todas da cidade. Na frente, um jardim com hortênsias numa profusão de lilases, do rosa claro ao roxo profundo, umas miudinhas, outras parecendo um repolho.
Na manhã seguinte a minha chegada encontrei em uma praça um homem sentado num banquinho, pintando um quadro num cavalete. Me aproximei devagar sem saber se podia, se devia. Será que minha presença incomoda?
- Boa tarde – ele respondeu com certa gentileza.
- Posso ver? – perguntei ainda de costas para a tela.
- Claro – ele disse com orgulho.
Era uma paisagem. A exata que se avistava do lugar onde estávamos. A alameda, as árvores, as montanhas. Tudo muito longe, muito amplo.
- Está pronto?
- Que nada, ainda falta muita coisa.
- Não parece.
- Você gosta de pintura?
- Muito. Mas nunca vi um pintor de perto.
- Pode sentar – ele disse apontando o banco de cimento.
As palavras saíam como pedras de sua boca. Mesmo assim, havia naquele rosto anguloso com barba por fazer um convite irrecusável. Via-se que a delicadeza era mantida a duras penas por trás daqueles olhos atormentados.
- Qual é o seu nome? – perguntei.
- José. E o seu?
Passei a manhã vendo José pintar, ouvindo-o contar da vida que levava antes de adoecer. Ele estava aqui para tratar dos pulmões. A tuberculose tirou-o do mar e o fez ancorar em Campos do Jordão. E ele morria de saudade dos amigos, das mulheres, dos bares, do samba, da Lapa, dos filhos, mas principalmente do mar.
- Se eu pudesse, passava a vida dentro do mar, no convés do Maria-Rosa.
- Seus quadros são mais calmos que você – comentei. Ele riu.
- A arte serve pra isso mesmo, mostrar o mundo de um jeito que a gente não consegue ver.
- Você pinta há muito tempo? Tem muitos quadros?
- Pinto. Já até ganhei medalha. Se você quiser, eu te mostro.
Ele mesmo anotou o endereço da pensão onde morava num papel que guardei na bolsa.
- É aqui pertinho.
Preferi não falar nada para Nicinha do pintor, do quadro, do encontro que marcamos.
A casa tinha dois andares. O quarto de José era no térreo.
- O último do corredor, à esquerda – indicou-me a dona da pensão.
José abriu a porta de camiseta e me mandou entrar. Era difícil andar ali, de tantas telas encostadas nos móveis, nas paredes, de tantos pincéis e tubos de tintas espalhados pelo chão, pela cama, tocos de cigarro por toda parte. Como um tuberculoso podia fumar tanto? O quarto cheirava mal. No quadro que havia visto pela manhã, notei uma diferença:
- Antes não havia tanto sol.
- Às vezes as nuvens se afastam e o sol aparece – ele disse olhando fundo nos meus olhos.
Em seguida, abriu o guarda-roupa e me ofereceu um copo de vinho. A garrafa estava lá dentro, pela metade. Nas mãos, um copo que ele bebia devagar. Eu aceitei.
- Só um pouquinho. Não sou de muito beber.
- Quero que você veja este aqui – e me mostrou uma tela que estava atrás de mim.
O retrato de um homem com largas entradas na testa, faces coradas e barba por fazer. Parecia ter bebido muito vinho. Vestia uma camisa azul de mangas compridas e gola fechada. Ao fundo, um vaso com hortênsias. O mais estranho é que o homem tinha um botão de rosa na boca. Seria de verdade? Estaria ele comendo a rosa? Fazendo pose para alguém? Uma brincadeira na frente do espelho? Ofertando a rosa pra mim? E o cabo? Não se vê o cabo. Ele engoliu? Cortou antes de colocá-la na boca?
- É você, não é?
Que pergunta idiota. Claro que era. O de fora me olhando exatamente como o de dentro. Só faltava a rosa na boca, que lhe entreguei num beijo de corpo inteiro.
Vivi com José, o marinheiro tuberculoso, os vinte dias mais felizes da minha vida.
Pela manhã, eu o acompanhava aos locais que ele escolhia para pintar. À tarde nos encontrávamos na pensão. Nicinha pouco me via, de tão ocupada que era com as crianças, com a lida da casa. Mas a dona da pensão, a comadre, as vizinhas fizeram questão de contar-lhe o que ela não tivera tempo para saber.
No dia 31 de dezembro minha irmã entrou aos berros no meu quarto, dizendo que eu tinha uma hora para sair dali.
- Você me deu uma facada nas costas. Fora daqui, sua vagabunda. E reze para o Amílcar não saber dessa sua sem-vergonhice com o tal pintor. Ele está tuberculoso, sabia?
Saí antes do prazo que ela me deu.
A caminho da rodoviária, passei na pensão para me despedir. Foi quando eu e José nos vimos pela última vez. Nos abraçamos e choramos os dois.
- Fica comigo – ele pediu.
- Não posso. Um dia quem sabe.
Juramos nos escrever. Deixei com ele uma correntinha de ouro que ganhei de minha mãe com um coraçãozinho pendurado.
Ele beijou o coração e me beijou. Depois me entregou uma madeirinha, a tampa de uma caixa de charuto, onde havia feito o meu retrato. Guardei na mala e parti.
À meia-noite, Amílcar brindou o ano que começava:
- Viva 1950!
- Viva! – respondi batendo minha taça na dele.