Arquivo de Fevereiro, 2008

XEQUE-MATE

29 Fevereiro, 2008

Quem me vê com esta coroa na cabeça e este manto cravejado de brilhantes sobre as costas é incapaz de me imaginar nua embaixo do corpo de Felipe, este mesmo que se ajoelha à minha frente e me jura fidelidade como um súdito qualquer. À noite, nos aposentos reais, ele sempre expressa um certo nervosismo ao me ver de pernas abertas. Eu entendo. Não deve ser fácil comer uma rainha.

(conto publicado no meu livro Ao homem que não me quis)

LABAREDA

27 Fevereiro, 2008

- Eu estava com medo que você não viesse.
- Nem se o céu desabasse sobre minha cabeça eu deixaria de vir ao teu encontro. Você sabe que não durmo sem teus beijos.
- E eu não vivo sem teu amor.
- A madre anda desconfiada. Ela tem nos vigiado às escondidas.
- Que vigie. Que entre aqui neste quarto e deite nesta cama pra saber o que é o verdadeiro amor.
- Você não tem medo que Deus nos castigue?
- E por que Ele nos castigaria se todo amor emana d’Ele? O amor é maior do que as circunstâncias. Ele escapa às prisões, subverte leis, proibições e passa incorruptível pelo tempo. Mesmo depois de corroída pelos vermes, minha carne arderá como labareda celebrando o nosso amor. Juro-te.

GILDA

26 Fevereiro, 2008

Nunca houve mulher como Gilda. Ruim como a peste. Seu prazer era atazanar a vida de quem estivesse ao redor. Na hora de escolher a profissão, foi ser manicure. Sangrava as clientes de propósito só para vê-las pulando na cadeira. Um dia foi chamada para fazer o pé de Damião. Achou o pé do rapaz tão lindo, tão macio, que não teve coragem de feri-lo. Pela manhã, ao vê-lo nu sobre a cama, comentou como se fosse sem querer: sabe que eu pensei que seu pinto fosse maior?

 

(publicado no meu livro Ao homem que não me quis, ed. Ediouro)

EXIBIDÍSSIMA

25 Fevereiro, 2008

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Desde pequena queria ser artista de televisão. Fui uma criança muito “saliente”. Por isso, se quer me ver à vontade, é só colocar um microfone na minha mão que eu deito e rolo. Adorei a entrevista. Aquela sou eu. Se você perdeu, tem reprise na 5a. feira, às 20h. Ou na internet

Vonwegen Mutter

21 Fevereiro, 2008

Esse é o nome que meu conto Mãe, o cacete terá na Alemanha. A Rosvitha Friesen Blume, professora da universidade de Santa Catarina, está organizando uma antologia de escritoras brasileiras na Alemanha. Aliás, o conto já foi traduzido por uma aluna do curso de tradução literária que ela ministrou na Universidade de Leipzig em 2006. Chique, né?

Em português, ele está na antologia 25 Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (ed. Record), organizada pelo Luiz Ruffato.

E por falar em chiquê:

Domingo, dia 24, vai ao ar minha entrevista para o programa Entrelinhas. TV Cultura, 21 h.

SOLVI – Viva o Alê!

21 Fevereiro, 2008

A Revista Exame acaba de publicar os 25 projetos tecnológicos brasileiros que mais se destacaram em 2007, tendo em vista a consciência ambiental e a sustentabilidade.
 

A lista de 25 inovações selecionadas após as etapas iniciais de triagem representa um grupo de idéias provadas, originais e que estão gerando benefícios de negócio significativos para suas organizações.

E por que eu estou falando isso?
Porque o SOLVI, projeto desenvolvido pelo Alê, meu genro querido, também conhecido como Alexandre Ferrari, engenheiro ambiental que cuida de boa parte do lixo de São Paulo, figura entre os 25 melhores do BRASIL!!!

Alguns dados pra você saber do que se trata:
tempo da pesquisa: 1/7/2006 – 1/10/2007
Proposta: oferecer equipamento para evaporar o lixiviado de aterros sanitários de pequeno e médio porte, através de tratamento térmico por evaporação. O biogás gerado no aterro pela decomposição biológica dos resíduos orgânicos ali dispostos é usado como combustível para o tratamento térmico.
A quem ela satisfaz? uso próprio da empresa que atende municipalidades proprietárias de aterros sanitários de pequeno a médio porte (entre 50 e 100 t/dia).
Que outras propostas existem no mercado? Há sistemas de tratamento de lixiviado no mercado, mas todos apresentam complexidade técnica e operacional e elevado custo de implantação e operação.
Por que esta proposta é única? Sistema compacto, capaz de evaporar 800 l/h de lixiviado, simples de operar, utiliza como combustível o gás gerado no aterro sanitário, diminuindo custos operacionais e gerando alto impacto no público-alvo.
Porque esta proposta é difícil de ser replicada? Exige a implantação de uma rede de captação do biogás e tal conhecimento não é comum no Brasil. É necessário que o aterro tenha um volume de resíduos que permita a geração da quantidade de gás necessária à evaporação do lixiviado.
Qual é o principal “insight” desta inovação? Realizar um tratamento eficaz e simples do lixiviado, com reduzidos custos, com o potencial de universalizar uma solução que hoje inexiste para aterros de pequeno e médio porte.

Se você quiser saber quais são os outros 24, o endereço é esse aqui:

O IPOD DO HOUSE

17 Fevereiro, 2008

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Como se precisasse, o cara tem um puta bom gosto musical. Não falo das músicas dos episódios (ótimas também), mas das que ele ouve no Ipod. Quero todas. Já baixei essa (ele ”tocando” o começo dessa música na escrivaninha é memorável). Ontem procurei Hava Nagila (desse mesmo episódio) mas não encontrei nenhuma versão legal. Pedi socorro à Marília, minha filha postiça, que falou que vai me mandar um CD com esse e outros klezmer que eu adoro. Ah, também tem uma do Pavarotti. Você lembra de mais alguma?

COMO É QUE É???

17 Fevereiro, 2008

A confiar nas notícias que vinham de Berlim, o José Padilha e sua Tropa teriam que voltar ao Brasil no fundo do porão de um navio cargueiro, tal a vergonha e fracasso do filme em Berlim. De repente, não mais que de repente, vejo que os caras venceram o Festival!!! Acho que os representantes da imprensa brasileira presentes ao evento dormiram em algum pedaço do filme, pois não se passa assim, sem mais nem menos, num passe de mágica, do vexame total ao Urso de Ouro, concordam??? E se fosse ao Oscar, faturava também.

Aliás, acho que esses dois foram separados na maternidade. Tudo bem, no jardim de infância:

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José Padilha                             Ronaldo Bressane 

HÁ 50 ANOS

17 Fevereiro, 2008

Dentro da minha obsessão por datas passadas, uma sessão que nunca deixo de ler no jornal é a tal Há 50 anos. Até porque, agora começa a ficar interessante. Como eu me mudei para São Paulo em 57, tudo que vem daqui pra frente faz parte das minhas lembranças de infância. Hoje, por exemplo, eles anunciam que em 17 de fevereiro de 1958 chegava a São Paulo o Cacareco. O famoso hipopótamo (que foi o “vereador” mais votado nas eleições daquele ano) veio do Rio pra SP num caminhão como parte dos festejos de inauguração do zoólogico da Água Funda. Eu fui ver o Cacareco! Passeião de domingo. A família inteira na Kombi rumo ao zoólogico.

Ao lado dessa “importante” notícia tem outra, que eu só vim a valorizar muito depois. “Morreu ontem o pintor José Pancetti”. Eu adoro o Pancetti. Pacote fechado: a obra e a tumultuada pessoa. Por isso, quando o Marcelo Moutinho pediu para que eu escrevesse um conto sobre um pintor para a antologia Contos sobre Tela (ed. Pinakotheke) que ele organizou, eu gritei na hora: o Pancetti é meu. Publico aqui o conto que saiu no livro. Minha homenagem aos 50 anos da morte de um cara que soube como ninguém transformar angústia e tormento em lindas paisagens.

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JOSÉ, MEU AMOR MARINHEIRO

Conheci o homem da minha vida tarde demais. Tem coisa que acontece com a gente que só pode ser castigo.
Foi Amílcar, meu marido, quem sugeriu que eu fosse passar uns tempos em Campos do Jordão.
Vai descansar na casa da Nicinha, vai te fazer bem.
Ele se vira muito bem sem mim, aliás, até melhor quando não estou. Chega tarde da jogatina, chama os amigos para beber sem ninguém pra aborrecê-los.
Estes últimos anos da doença de papai me consumiram. Quando ele já não podia mais morar sozinho, trouxe-o para uma casa ao lado da minha (o Amílcar nunca permitiu que ele morasse conosco) e passei cinco anos cuidando da minha casa e da dele. Era eu quem fazia as compras, a comida, lavava a roupa, até que no dia 3 de dezembro de 1949 encontrei-o olhando para o teto de boca aberta.
Por volta das sete horas dei-lhe a sopa e fui preparar a janta do Amílcar. Não sei a que horas meu pai morreu, não sei se chamou por mim, por alguém, suas últimas palavras não ouvi.
Ao ver meu abatimento, Amílcar chegou a se irritar:
- Seu pai só te dava trabalho.
- Mas era meu pai – tive de explicar – e mesmo doente, sempre me deu mais atenção que você.
Foi aí que ele sugeriu que eu fosse passar uns dias na casa de minha irmã. Fazia tempo que não nos víamos. No enterro de papai, ela mandou um telegrama. O marido, as crianças…
No dia 11 de dezembro, um domingo, Amílcar me levou à rodoviária e eu embarquei para Campos de Jordão.
A casa de Nicinha é uma casa simples, no bairro de Abissínia. A rua é arborizada, como quase todas da cidade. Na frente, um jardim com hortênsias numa profusão de lilases, do rosa claro ao roxo profundo, umas miudinhas, outras parecendo um repolho.
Na manhã seguinte a minha chegada encontrei em uma praça um homem sentado num banquinho, pintando um quadro num cavalete. Me aproximei devagar sem saber se podia, se devia. Será que minha presença incomoda?
- Boa tarde – ele respondeu com certa gentileza.
- Posso ver? – perguntei ainda de costas para a tela.
- Claro – ele disse com orgulho.
Era uma paisagem. A exata que se avistava do lugar onde estávamos. A alameda, as árvores, as montanhas. Tudo muito longe, muito amplo.
- Está pronto?
- Que nada, ainda falta muita coisa.
- Não parece.
- Você gosta de pintura?
- Muito. Mas nunca vi um pintor de perto.
- Pode sentar – ele disse apontando o banco de cimento.
As palavras saíam como pedras de sua boca. Mesmo assim, havia naquele rosto anguloso com barba por fazer um convite irrecusável. Via-se que a delicadeza era mantida a duras penas por trás daqueles olhos atormentados.
- Qual é o seu nome? – perguntei.
- José. E o seu?

Passei a manhã vendo José pintar, ouvindo-o contar da vida que levava antes de adoecer. Ele estava aqui para tratar dos pulmões. A tuberculose tirou-o do mar e o fez ancorar em Campos do Jordão. E ele morria de saudade dos amigos, das mulheres, dos bares, do samba, da Lapa, dos filhos, mas principalmente do mar.
- Se eu pudesse, passava a vida dentro do mar, no convés do Maria-Rosa.
- Seus quadros são mais calmos que você – comentei. Ele riu.
- A arte serve pra isso mesmo, mostrar o mundo de um jeito que a gente não consegue ver.
- Você pinta há muito tempo? Tem muitos quadros?
- Pinto. Já até ganhei medalha. Se você quiser, eu te mostro.
Ele mesmo anotou o endereço da pensão onde morava num papel que guardei na bolsa.
- É aqui pertinho.
Preferi não falar nada para Nicinha do pintor, do quadro, do encontro que marcamos.
A casa tinha dois andares. O quarto de José era no térreo.
- O último do corredor, à esquerda – indicou-me a dona da pensão.
José abriu a porta de camiseta e me mandou entrar. Era difícil andar ali, de tantas telas encostadas nos móveis, nas paredes, de tantos pincéis e tubos de tintas espalhados pelo chão, pela cama, tocos de cigarro por toda parte. Como um tuberculoso podia fumar tanto? O quarto cheirava mal. No quadro que havia visto pela manhã, notei uma diferença:
- Antes não havia tanto sol.
- Às vezes as nuvens se afastam e o sol aparece – ele disse olhando fundo nos meus olhos.
Em seguida, abriu o guarda-roupa e me ofereceu um copo de vinho. A garrafa estava lá dentro, pela metade. Nas mãos, um copo que ele bebia devagar. Eu aceitei.
- Só um pouquinho. Não sou de muito beber.
- Quero que você veja este aqui – e me mostrou uma tela que estava atrás de mim.
O retrato de um homem com largas entradas na testa, faces coradas e barba por fazer. Parecia ter bebido muito vinho. Vestia uma camisa azul de mangas compridas e gola fechada. Ao fundo, um vaso com hortênsias. O mais estranho é que o homem tinha um botão de rosa na boca. Seria de verdade? Estaria ele comendo a rosa? Fazendo pose para alguém? Uma brincadeira na frente do espelho? Ofertando a rosa pra mim? E o cabo? Não se vê o cabo. Ele engoliu? Cortou antes de colocá-la na boca?
- É você, não é?
Que pergunta idiota. Claro que era. O de fora me olhando exatamente como o de dentro. Só faltava a rosa na boca, que lhe entreguei num beijo de corpo inteiro.
Vivi com José, o marinheiro tuberculoso, os vinte dias mais felizes da minha vida.
Pela manhã, eu o acompanhava aos locais que ele escolhia para pintar. À tarde nos encontrávamos na pensão. Nicinha pouco me via, de tão ocupada que era com as crianças, com a lida da casa. Mas a dona da pensão, a comadre, as vizinhas fizeram questão de contar-lhe o que ela não tivera tempo para saber.
No dia 31 de dezembro minha irmã entrou aos berros no meu quarto, dizendo que eu tinha uma hora para sair dali.
- Você me deu uma facada nas costas. Fora daqui, sua vagabunda. E reze para o Amílcar não saber dessa sua sem-vergonhice com o tal pintor. Ele está tuberculoso, sabia?
Saí antes do prazo que ela me deu.
A caminho da rodoviária, passei na pensão para me despedir. Foi quando eu e José nos vimos pela última vez. Nos abraçamos e choramos os dois.
- Fica comigo – ele pediu.
- Não posso. Um dia quem sabe.
Juramos nos escrever. Deixei com ele uma correntinha de ouro que ganhei de minha mãe com um coraçãozinho pendurado.
Ele beijou o coração e me beijou. Depois me entregou uma madeirinha, a tampa de uma caixa de charuto, onde havia feito o meu retrato. Guardei na mala e parti.
À meia-noite, Amílcar brindou o ano que começava:
- Viva 1950!
- Viva! – respondi batendo minha taça na dele.

VÉU DE NOIVA

14 Fevereiro, 2008

Não dava mais pra adiar. A visão de Casemira turvara-se de tal modo que ela já não conseguia fazer nada sozinha. Se a nora ou o neto se dispusessem a acompanhá-la, ela saía de casa pra dar uma volta. Caso preferissem continuar dormindo ou vendo televisão, esperava a hora que alguém fizesse a pergunta que ela tanto esperava: quer dar uma volta?
Um dia Artur resolveu levar a mãe ao oftalmo.
- A operação é muito simples - explicou o médico. – Umas horinhas no hospital e pode voltar pra casa no mesmo dia. Sua visão vai melhorar cem por cento. A senhora vai ver tudo como antigamente.
Casemira voltou pra casa sonhando com esse dia. Até ao cinema ela ia poder ir sozinha! Ela adorava cinema. Tomar café expresso no Shopping, ver vitrines, ir à missa. Não só a visão, sua vida ia mudar da água pro vinho e ela distinguiria perfeitamente um do outro.
- E aí vó, o que que o médico falou? - o neto perguntou pulando no seu colo.
- Ele disse que vai tirar o Véu de Noiva dos meus olhos.
- Véu de Noiva?
- É. As Cataratas do Iguaçu. Foi lá que eu passei minha lua de mel. Ele falou que tudo vai ser como era antes.
- Chi, vó, acho que cê tá precisando de um neuro.