UM CONTO INÉDITO

By doidivana

Esse conto, aqui bastante modificado, foi publicado no último número da Revista E, do SESC.

INVEJA

Minha imaginação suburbana não conseguia adivinhar o gosto das maravilhas que eu via nas gôndolas daquele supermercado de grã-finos. Era assim que eu queria que a vida fosse. Era essa a vida que eu sonhei pra mim. Mas quem disse que a vida é justa? Uns dão duro no trabalho enquanto outros lotam o carrinho de trufas, caviar, foie gras, escargot, salmão, hadock, galantines, carrés, vitelas, jamon, fondants, camarons, marron glacê. Você sabe o que é isso? Eu não.
Meu coração batia acelerado e as pernas tremiam um pouco. Demorei pra perceber que aquilo era inveja. Da mais cristalina e licorosa, como a vodka que o rapaz me deu para provar.
Sei bem o que é inveja. Tenho amigas ricas que estão muito bem de vida, conhecem a Europa, usam roupa de grife, carro importado. Minha irmã mesmo, quando casou, eu tive inveja da festa, do marido que ganha bem mais que o Cido, da filha que eu tanto queria. Só tive meninos. Dois. Mas por mais inveja que eu tivesse da Mirtes, do emprego da Mirtes, das viagens que ela faz, eu nunca quis ser a Mirtes. Deus me livre! Sempre fui satisfeita com a minha vida.
Agora não. Eu não queria nada daquilo que eu via nas prateleiras. Eu queria o que antecede a posse. Eu queria ser aquelas pessoas. Era como eu tivesse entendido que a minha vida era uma nódoa que precisava ser banida da face da terra pra que o mundo ficasse mais bonito, mais limpo. Eu queria poder passear por esse chão de mármore com meus sapatos de pelica sabendo que posso comprar o que quiser. E só por isso não compro nada.
Queria acordar um dia e pedir que o motorista me levasse a um desses supermercados de bairro. Quero ver como essas pessoas vivem. Ele me levaria ao bairro onde moro, pararia na porta do super onde faço minhas compras. A senhora quer que eu a acompanhe? Não, obrigada, eu vou sozinha. Acho que não corro perigo. Eu então arranharia meus sapatos de pelica no chão bruto de cimento, olharia as prateleiras quase vazias, os produtos desalinhados, as latas sujas, amassadas, verificaria os preços e perguntaria indignada: do que essa gente reclama?
Queria olhar minha vida como turista e exclamar: que paisagem mais exótica! Olhar as mulheres cansadas, suadas, nervosas, um filho no colo, outro no carrinho, cascudo na cabeça do mais velho que tem mania de abrir coisas que ela não pode comprar. Na fila do caixa, ela faz as contas de cabeça e tira metade do que pretendia levar. Depois chama o supervisor e esfrega o jornal na cara dele: não era isso que estava escrito no anúncio. Ele destrava a máquina registradora e deleta os trinta centavos da margarina.
Era nessas coisas que eu pensava quando caí desmaiada aos pés da mulher que eu queria ser. Acordei com um monte de gente me abanando e um segurança revirando minha bolsa atrás de documento. Eu não conseguia responder às perguntas que me faziam. Não lembrava meu nome, o endereço, o que estava fazendo ali. Quando melhorei, eles me deram um copo de água e se ofereceram para me levar até o ponto de ônibus. Agradeci e fui andando devagar, com a cabeça ainda zonza. Lá fora já era noite. As buzinas atordoavam meus ouvidos. O trânsito estava o inferno de sempre. O ventinho frio me fazia bem. Aos poucos fui lembrando do Cido, dos meninos, que devem estar sozinhos em casa. A essa hora o Cido já saiu pro trabalho. Durante a semana a gente mal se vê. Lembrei de tudo. Só não lembrei o que eu tinha ido fazer naquele supermercado de grã-fino.

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