Só eu estou trabalhando nessa cidade. No ponto de ônibus, só eu. Neste prédio vazio, só eu. Nas ruas vazias, só eu. Bebel está em Maceió, Marcelino em Buenos Aires, Andréa na praia, Índigo se preparando pra mudar de São Paulo, os outros devem estar por aí. Em janeiro, estaremos todos juntos de novo. Mas à meia-noite deste último dia estarei sozinha lembrando de tudo de bom que me aconteceu neste ano que vai deixar saudade. Um ano em que eu voltei a enxergar como menina, que eu ganhei prêmios, concursos, novos amigos, novos leitores. Um ano (depois de muitos) que não faltou dinheiro nem saúde. Passarei lembrando das noites deliciosas na Mercearia. Aquela com o Ignácio de Loyolla Brandão, aquela outra com Guillermo Arriaga. Lembrarei de São Francisco Xavier e do Festival da Mantiqueira, da oficina, do almoço com Nelson Motta. Lembrarei do almoço na casa do Roniwalter, na casa do Joca, da festa na casa do Diego de Godoy, das centenas de fotografias que eu tirei, dos livros que li (Sandor Marai, Lourenço Maturelli e Daniel Galera são os que me vêm à mente. Mas tem mais. Tem Rasif, A maldição da moleira, etc etc). Colocarei meu pijaminha e ficarei curtindo a alegria de se concluir um romance e já estar com outro engatilhado, de ter uma filha maravilhosa, de ter pai e mãe vivos… Dormirei no sofá e acordarei à meia-noite assustada com a barulhada dos fogos. Desligarei a tevê e irei pro quarto rezando pra não chover. Eu estou naquele maldito plantão que vocês conhecem. Se chover, que seja pouco e que não cause nenhum estrago. Daqui a pouco eu vou pra casa. Antes, passarei no supermercado e comprarei coisinhas pra minha ceia: salmão defumado pra fazer uns canapés com cream cheese (quantos canapés come uma pessoa sozinha?), uma coxa de pato e um potinho de caviar. Por que não? Este ano merece. E não me venham com queda de barraco. Feliz 2009 pra todo mundo!
Arquivo de Dezembro, 2008
EU, SÓ EU, EU SÓ
31 Dezembro, 2008PUFFFF
29 Dezembro, 2008Na internet as coisas são assim. Um dia você quer ouvir as fitas que gravou e postou no blog e o site acabou. As fitinhas que eu gostava tanto, que fiz com todo capricho e pensei que durariam para sempre, evaporaram-se. Esse blog também pode desaparecer de uma hora pra outra. É difícil lidar com tamanha instabilidade. O chão se move, senhores.
OFERTÓRIO
27 Dezembro, 2008Mais do que o bico do meu seio
eu te dei meus versos
onde os próprios seios se inspiram
e se tornam rosas e breves
como versos de menina.
NATAL NA BEBEL
25 Dezembro, 2008
Bebelzinha fez um peru de-li-ci-o-so




Michel Laub tentou passar incógnito

Mayumi e Rodrigo, que nos deram o prazer da companhia

Ivana, comporte-se

Ai que cansaço…
A FELICIDADE NÃO SE COMPRA
23 Dezembro, 2008
Um belíssimo filme de Natal. Acabou de passar na net. Eu não conhecia. O filme é de 1946, direção de Frank Kapra, com James Stewart e Donna Reed nos papéis principais. Beleza pura para embalar seu jingle bell.

PAPAI NOEL EXISTE?
23 Dezembro, 2008
Mário acordou numa ressaca tão brava que era incapaz de saber quem era, onde estava, como viera parar naquele quarto.
“Acho que exagerei”, foi o primeiro pensamento lúcido que teve antes de sair correndo pelado pro banheiro para não cagar no carpete. No banheiro franziu os olhos ao se ver no espelho. O cabelo tava de dar medo. Qual a última lembrança que lhe vinha à mente? Onde estava antes de vir parar aqui? Espremeu um pouco de pasta que havia no armarinho e passou nos dentes. Acordar de porre sem saber onde está, arrepender-se previamente pelas bobagens que imagina ter feito é acontecimento rotineiro na vida de Mário. Passou uma água na cara, mijou, deu descarga e voltou pro quarto pronto para o pior. Sim. Havia uma mulher dormindo na cama de onde ele saíra há pouco. Sobre a cadeira, as roupas dele e dela amontoadas. De mansinho, chegou perto pra ver quem era. O braço tampava o rosto. O cabelo era preto, liso, cheio, não muito comprido. Do corpo via-se apenas parte da testa e o ombro nu. As mãos de unhas vermelhas, pousadas sobre o travesseiro, eram pequenas. Será a Mara? Não. O cabelo da Mara é mais claro. A Cilene? Não, a Cilene fez reflexo outro dia. A Deby tá viajando. Que porra de mulher é essa? Aproximou-se mais um pouco. Respirando ela está. E parece que dorme bem. Besteira grande eu não fiz. Intrigadíssimo, vestiu a cueca, calçou as meias, a calça, a camisa e cutucou-a com delicadeza.
- Oi.
Como a moça não se abalou, ele aumentou um tiquinho o volume da voz e colocou mais pressão nos dedos.
- Oi.
Ela abriu os olhos assustadinha, parecendo também não saber o que estava fazendo ali.
- Quem é você? – perguntou sentando-se na cama, tomando cuidado de cobrir os seios com o lençol.
- Meu nome é Mário. E o seu?
- O meu é Gisela. Eu te conheço?
- Acho que não.
- Como que a gente veio parar aqui?
- Eu imagino que foi como costuma ser. Eu te vi por aí, te achei bonitinha, nós conversamos um pouco, entramos num bar, eu pedi um uísque, você uma capirinha de vodca, eu perguntei se você tava a fim, você disse que estava e a gente veio.
- Será? – ela perguntou duvidando.
- Qual a sua última lembrança?
- Eu estava na cozinha da minha casa, a sala estava cheia de gente, as crianças faziam uma barulheira doida, entravam e saíam do quintal, eu estava fatiando o tender. Isso! Agora lembrei direitinho! Eu dava os retoques finais na ceia de Natal. Meu marido tava no banho. De repente, um dos meninos me disse: “mãe, o pai tá chamando”. Eu pensei: “pôxa, será que ele não vê que eu tô apurada?”. Fui ver o que ele queria.
- Isso mesmo! – disse Mário, lembrando-se também – Eu estava na minha casa. Visitas chegando. O sogro, o cunhado, meu irmão, os sobrinhos, a árvore cheia de presentes, o pernil. De repente eu fui à cozinha e vi minha mulher com as mãos sujas de gordura, fatiando o tender, berrando com as crianças. Peguei uma cerveja e fui pro banheiro. Abri o chuveiro e fiquei lá um tempão, bebendo cerveja sentado num banquinho dentro do box.
- E depois?
- Depois, nada. Não sei de mais nada.
- Que coisa maluca. Eu também não. Só lembro que fui ver o que ele queria. Enquanto subia a escada, pensava: se papai Noel existisse, eu pediria outro marido porque esse só me torra a paciência.
- Menina! Foi exatamente isso que eu pensei enquanto tomava minha cerveja no banheiro.
- Será que a gente é presente de papai Noel um para o outro? Será que foi ele quem nos trouxe aqui?
Mário espiou pela janela. Nenhum sinal de rena, trenó, nada. A Consolação estava a de sempre. Um pouco melhor por causa do feriado.
- Você está com fome? – ele perguntou.
- Um pouquinho.
- Que tal se a gente fosse tomar café numa padaria?
- Ótima idéia. Eu adoro café da manhã de padaria. Faz um tempão que não tomo.
Gisela se vestiu no banheiro e apareceu pronta.
- Vamos?
Ao fim do café da manhã, a mulher e o homem se olharam enternecidos.
- Tenho que ir – ela disse com os olhos marejados.
Ele pegou as mãos dela como pássaros que fossem voar e falou com a voz embargada:
- Eu também.
Os dois foram andando em silêncio pela calçada até o estacionamento, onde entraram no mesmo fusca bege.

Deixo aqui este conto de 2005 com meu mais profundo agradecimento a todos vocês que me fazem companhia e me aturam o ano inteiro. Que seu Natal seja pleno de alegria, saúde, paz, amor, grana, sucesso, cerveja, etc etc etc. Um beijo enorme.
MOJO BOOKS
22 Dezembro, 2008A Mojo Books é uma editora 100% digital. A proposta é que as pessoas contem uma história inspirada em um disco. A pergunta é: ”se música fosse literatura, que história contaria?”. O livro que a pessoa faz fica no site. Você faz um cadastro super simples e se atira na prateleira. Marcelino Freire e Andrea del Fuego estão lá. A história do Marcelino chama É só isso o meu baião, com base no disco de João Gilberto e Stan Getz, e a da Andrea chama Blade Runner, com base no disco do Vangelis. Ler na tela do computador é sempre chato, mas as histórias (além de muito legais) são no tamanho certo. Livros e discos pra todos os gostos. De grátis.
ESPERANDO BABÁ
22 Dezembro, 2008
minha nova obsessione, só interrompida quando alguém muito querido vem me visitar

Aí o cenário muda (a misturinha é aquela da Neide, que ela me deu um montão)

O Babá (vulgo, Odimar) me é mui caro

Nuestra amistad dura 24 anos

Éramos piu giovanes naquela época

João Pedro, su hijo, nem pensava em existir

E o Babá jamais poderia imaginar que seu filho, um dia, teria uma banda de rock.
PRECONCEITO
22 Dezembro, 2008“Uma vez, muitos anos atrás, escrevi que o preconceito contra os políticos era primo-irmão do absurdo e inaceitável preconceito contra negros, judeus e nordestinos. Hoje sou obrigado a pedir desculpas a negros, nordestinos e judeus pela comparação.” (Clóvis Rossi, ontem na Folha)
FAIXA PRETA
20 Dezembro, 2008
O Marcos é um excelente otorrinolaringologista, casado com minha prima Neide, nutricionista e cozinheira cinco estrelas, consultora gastronômica e dona do melhor blog de gastronomia da net. Neste sábado, o Marcos fez exame para faixa-preta em aikido e nos convidou. Porrada pura. Eu só conhecia kung fu, que a Bebel pratica. Perto do aikido, o kung fu parece balé clássico. Tudo bem, balé contemporâneo.

a turma dos graduandos


A coisa mais linda é a calça/saia que os faixas-pretas usam. Demais!

Marcos e Neide

Aikido e Kung fu.

Mas o melhor veio depois. Terminado o exame a Neide estava nos esperando na porta do céu com pães caseiros, manteiga com sal da Austrália, etc etc etc


uma misturinha indiana indescritível (tem receita no blog dela)

Mônica e Carlos, amigos de longa data da Neide. Ela, jornalista, ele, agrônomo

Tinha suco de ibisco, umbuzada e muito cerveja

As duas irmãs, Neide e Suzana

salada de arroz negro pra você comer na folha de endívia

Olhem isso: picles de mini-mini abóboras. Dessas coisas que só a Neide encontra e faz. Dá pra imaginar o tamanho delas pelo palito do aperitivo

O bolo tinha um lutador de aikido em cima

Como eu queria uma cozinha dessa

manja a classe dos apetrechos da madame

O perfume do pernil no forno enlouquecia a todos

Marcos e um colega (Boliviano? Chileno?) que também virou faixa-preta



Suzana e Darly

faixas-pretinhas

O mestre do aikido fazendo discurso antes de abrir a champanhe

O Mestre e suas discípulas (todas perigosíssimas)

O mestre também entende de sashimi. Fez um de salmão delicioso

Pobre pernil. Foi covardemente trucidado por um bando de famintos desesperados.