Ainda era noite quando meu pai pegava o caminhão e passava pelos açougues da cidade catando ossos. Ele mesmo ajeitava a carga e só voltava pra casa com a carroceria lotada. Uma montanha de ossos sujos de sangue com pedaços de carne pendurada, ossos recém desossados. De boi. De vaca. Com uma pá, ele colocava os ossos na autoclave e aquilo fervia o dia inteiro. Um fedor dos diabos. Depois da fervura, o caldo grosso e amarronzado era despejado em enormes latões que ficavam a céu aberto para esfriar. Meu pai me levantava no colo para ver a gordura ficando espessa, tomando consistência. Com a carroceria lotada de latões, ele vinha pra São Paulo vender o sebo a uma fábrica de sabonete. O sabonete das estrelas. Lá de longe, quando eu via as estrelas esfregando o sabonete como se fosse coisa muito linda, eu dava risada sozinha. Só eu e meu pai sabíamos o segredo: o sabonete das estrelas era feito de osso sujo de sangue e tinha um fedor desgraçado. De boi. De vaca.
(este conto faz parte do meu livro Ao homem que não me quis, publicado em 2005 pela ed. Agir)







