Ele não tinha esse direito. Não depois de tudo que vivemos juntos. Um dia namora comigo, me leva ao cinema, jura eterno amor, no outro diz que não quer mais saber de mim? E as promessas, os beijos, as juras de amor? Não, isso não se faz. Não se brinca assim com uma mulher. Um belo dia ele toca a campainha, senta-se a minha frente e me diz que guardaria ternas recordações do tempo em que estivemos juntos, mas agora estava tudo terminado.
- Quem você pensa que eu sou pra ser deixada assim? – perguntei.
- Assim como? – ele respondeu sem entender.
- Assim, sem essa nem aquela, de repente. Um belo dia você acorda e resolve terminar um namoro que ia tão bem?
Quando ele se pôs a dar explicações com aquela cara de asno, eu virei bicho. Peguei um vasinho de violetas que estava ao meu alcance e acertei-lhe em cheio na testa. Ele ficou branco de susto. Fiquei parada, esperando. Achei que ele fosse voltar atrás, pedir desculpas, mas só o que fez foi levantar, sacudir a roupa e sair batendo a porta. Resolvi dar um tempo. Com certeza isso passa, ele cai em si e tudo volta ao normal. Esperei dois dias e fui a sua casa. Tempo suficiente pra esfriar a cabeça e botar as idéias no lugar. Levei um maço de flores do campo e um pacote de marzipã, ele não resistiria. Ao me ver na porta, ele me mandou entrar, friamente. Colocou os pacotes sobre a mesinha sem nem abrir. Até aí tudo bem. Mas quando ele disse que não sabia o que eu estava fazendo ali, eu pirei. Esse cara me faz vir até aqui, gastar um dinheirão com presentes e diz que não sabe o que vim fazer? Ele pensa que é só chegar, namorar, jantar fora, dizer que me ama e depois se mandar? Como se não bastasse, ainda teve a cara de pau de me dizer que namoro é coisa que se termina todo dia. Aí eu perdi a cabeça. Joguei os marzipãs no chão e pisotiei feito cabrita. As perinhas e maçãzinhas viraram uma pasta furtacor grudada no carpete pra nunca mais sair. Quando ele me apontou a porta da rua, saí feito um rojão. Quem esse cara pensa que é pra me expulsar assim da casa dele? Um dia namora, beija, leva pra jantar fora, no outro me enxota feito cachorro? Essa vai ter troco. Dois dias, três e nada. Fui de novo a casa dele. Ele abriu a janelinha e de lá mesmo perguntou o que eu queria. Estranhei a falta de modos, mas me controlei:
- Nós precisamos conversar.
Conforme ele foi berrando que nós não tínhamos nada pra conversar e que eu sumisse da sua vida, eu comecei a chutar a porta desesperada. Quem ele pensa que eu sou pra falar comigo desse jeito? Seu estúpido, grosseirão. Ontem mesmo era meu namorado, ia ao cinema comigo, jurava eterno amor, hoje quer chamar a polícia para me prender? Eu não podia suportar isso. No jardim havia uma primavera florida, toda vermelha que eu arranquei com raiz e tudo. Quem disse que primavera não serve para matar um homem? Taquei a primavera na janela com toda força. A primavera não o matou. Ficou lá, enroscada na grade de proteção, mas eu machuquei minha mão inteira nos espinhos, virou um sangue só. Passei a mão suja de sangue na parede branca da casa pra que todo mundo soubesse que tipo de homem morava ali. Um homem capaz de fazer uma barbaridade dessa com uma mulher.
(conto publicado no meu livro “Histórias da mulher do fim do século”, esgotado)

