Arquivo de Fevereiro, 2009

AQUI SE FAZ, AQUI SE PAGA

26 Fevereiro, 2009

Ele não tinha esse direito. Não depois de tudo que vivemos juntos. Um dia namora comigo, me leva ao cinema, jura eterno amor, no outro diz que não quer mais saber de mim? E as promessas, os beijos, as juras de amor? Não, isso não se faz. Não se brinca assim com uma mulher. Um belo dia ele toca a campainha, senta-se a minha frente e me diz que guardaria ternas recordações do tempo em que estivemos juntos, mas agora estava tudo terminado.
- Quem você pensa que eu sou pra ser deixada assim? – perguntei.
- Assim como? – ele respondeu sem entender.
- Assim, sem essa nem aquela, de repente. Um belo dia você acorda e resolve terminar um namoro que ia tão bem?
Quando ele se pôs a dar explicações com aquela cara de asno, eu virei bicho. Peguei um vasinho de violetas que estava ao meu alcance e acertei-lhe em cheio na testa. Ele ficou branco de susto. Fiquei parada, esperando. Achei que ele fosse voltar atrás, pedir desculpas, mas só o que fez foi levantar, sacudir a roupa e sair batendo a porta. Resolvi dar um tempo. Com certeza isso passa, ele cai em si e tudo volta ao normal. Esperei dois dias e fui a sua casa. Tempo suficiente pra esfriar a cabeça e botar as idéias no lugar. Levei um maço de flores do campo e um pacote de marzipã, ele não resistiria. Ao me ver na porta, ele me mandou entrar, friamente. Colocou os pacotes sobre a mesinha sem nem abrir. Até aí tudo bem. Mas quando ele disse que não sabia o que eu estava fazendo ali, eu pirei. Esse cara me faz vir até aqui, gastar um dinheirão com presentes e diz que não sabe o que vim fazer? Ele pensa que é só chegar, namorar, jantar fora, dizer que me ama e depois se mandar? Como se não bastasse, ainda teve a cara de pau de me dizer que namoro é coisa que se termina todo dia. Aí eu perdi a cabeça. Joguei os marzipãs no chão e pisotiei feito cabrita. As perinhas e maçãzinhas viraram uma pasta furtacor grudada no carpete pra nunca mais sair. Quando ele me apontou a porta da rua, saí feito um rojão. Quem esse cara pensa que é pra me expulsar assim da casa dele? Um dia namora, beija, leva pra jantar fora, no outro me enxota feito cachorro? Essa vai ter troco. Dois dias, três e nada. Fui de novo a casa dele. Ele abriu a janelinha e de lá mesmo perguntou o que eu queria. Estranhei a falta de modos, mas me controlei:
- Nós precisamos conversar.
Conforme ele foi berrando que nós não tínhamos nada pra conversar e que eu sumisse da sua vida, eu comecei a chutar a porta desesperada. Quem ele pensa que eu sou pra falar comigo desse jeito? Seu estúpido, grosseirão. Ontem mesmo era meu namorado, ia ao cinema comigo, jurava eterno amor, hoje quer chamar a polícia para me prender? Eu não podia suportar isso. No jardim havia uma primavera florida, toda vermelha que eu arranquei com raiz e tudo. Quem disse que primavera não serve para matar um homem? Taquei a primavera na janela com toda força. A primavera não o matou. Ficou lá, enroscada na grade de proteção, mas eu machuquei minha mão inteira nos espinhos, virou um sangue só. Passei a mão suja de sangue na parede branca da casa pra que todo mundo soubesse que tipo de homem morava ali. Um homem capaz de fazer uma barbaridade dessa com uma mulher.

(conto publicado no meu livro “Histórias da mulher do fim do século”, esgotado)

A MAIS FALSA DAS ARTES

24 Fevereiro, 2009

Esse carnaval eu passei vendo filmes do Oscar, acompanhando a premiação com meus amigos Marcelino, Adrienne e Marquinhos na minha tv gigantesca que nos fez sentir na platéia do Kodak, e assistindo ópera em DVD, que, aliás, tem fortes semelhanças com desfile de escola de samba.
Das que eu não conhecia, a que eu mais gostei foi Adriana Lecouvreur, de Francesco Ciléa, numa encenação de 1989 no Scala de Milão. Eu nunca tinha ouvido falar no autor nem na tal Adriana (o gostoso do começo da paixão é justamente o que tem nela de desconhecido. Há tanto por ser descoberto!). Essa ópera foi escrita no finalzinho do século XIX mas a história se passa na França, em 1740. Nem os cantores eu conhecia (Mirella Freni, Peter Dvorsky, etc).
Se toda arte é o exercício de dar credibilidade ao falso, e a ópera é a mais falsa das artes, essa ópera está na lista das dez mais. Até porque a personagem principal é uma cantora de ópera que, às vezes, dá as costas para a platéia e canta para o cenário ao fundo, onde se vê uma platéia pintada (metalinguagem em 1898).
No universo operístico, realidade é uma palavra pra ser esquecida definitivamente. Você pode delirar à vontade e quanto mais, melhor.
A escolha dos atores, por exemplo, se dá com base na voz. Em princípio, qualquer ator pode interpretar qualquer personagem de qualquer idade e sexo. São muitas as óperas em que o papel masculino deve obrigatoriamente ser interpretado por uma mulher (exigência após o fim dos castratti). Então você vê a Stephanie Blythe de terno, ou a Sena Jurinac de farda e acredita piamente que elas são Orfeu e Fidélio, respectivamente. O mesmo acontece quando gordas matronas fazem papel de jovens princesas ou virgens donzelas. Ninguém da platéia ousa duvidar da castidade nem da juventude delas. Às vezes, num par romântico, o homem tem idade para ser filho da mulher e isso não faz a menor diferença. E pensar que outro dia, na Folha de SP, alguém escrevia que o Bruno Gagliasso está velho para fazer papel de mocinho. Faça-me o favor… Ópera neles.
Outra coisa deliciosa é quando alguém pensa alto. Na própria Adriana, a amante está ao lado da mulher cantando em altos brados: “Oh, Deus, será que conto ou não para ela que estive com o marido dela ontem à noite” e a outra não escuta nada. É sensacional! E como gritam os moribundos. O cara levou um tiro, está nos suspiros finais e canta uma ária de dez minutos num fôlego de fazer inveja a um moleque.
Os cenários também são escandalosamente falsos. Nada ali quer parecer “de verdade”. As árvores, as montanhas, os castelos são a representação da representação de árvores, montanhas e castelos.
Por minha breve pesquisa, as óperas em DVD, podem ser de dois tipos:
1. teatro filmado. Uma equipe filma diretamente a representação do palco, ao vivo. Essa é a que eu mais gosto. Só conhecer os teatros do mundo inteiro já vale a pena. Geralmente estes cenários são clássicos, românticos ou rococós, sempre com muito exagero. Mas também têm montagens moderníssimas num palco clean, figurino cubista e balé contemporâneo (eu tenho uma versão de La Traviata que é assim. De babar).
2. Um filme mesmo, feito numa locação externa, num castelo de verdade, com lago de verdade, etc… Esse é o que eu menos gosto justamente pelo grau de realidade que ele insere. Pasmem, fica totalmente falso!
E como é diferente o tempo da ópera. Um suspiro pode durar vinte minutos e a decisão de uma vida, um segundo. E o que é melhor: sem nenhuma justificativa. A ópera prescinde qualquer explicação lógica. Pelo menos essa lógica que nos é tão cara. Acontece aquilo que tem de acontecer. Dane-se a lógica. Estamos falando de destino.
Eu ficaria horas falando sobre ópera, mas paro por aqui. Se eu te deixei com um grãozinho de vontade de espiar uma ópera, nem que seja pelo buraco da fechadura, já me dou por feliz.
Aliás, assim como a Índia, a ópera também está na ordem do dia, ou no zeitgeist (o espírito do tempo), como querem os intelectuais. Nunca se falou tanto em ópera. A sessão do cine Bombril que eu fui outro dia estava lotadésima, você acredita? (dia 8 de março tem a próxima) E os fascículos da coleção Tesouros da Ópera continuam saindo.

MEU GURI

19 Fevereiro, 2009

Então ficamos assim: eu mato a cobra e o Santiago Nazarian mostra o pau. É por essas e outras que adoro esse cara. Se o vasto terreno da literatura brasileira contemporânea tem sítios e subsítios, eu e o Santiago estamos no mesmo cercadinho. Não quanto à obra propriamente dita, mas no lugar que (não) nos deram, na maneira como (não) se relacionam conosco, na maneira como somos (des)tratados pelas editoras, na (pseudo) fama que nos atribuem. Duas “estrelas” que vivem com a bunda na sarjeta. Graças ao bom Deus, parece que esse carma está terminando (toc toc toc). Nós dois sabemos como é duro viver na ambiguidade omeletiana de ser e não ser. Vai lá ver como ele escreve bacana e tem as idéias no lugar.

PRÊMIO SP DE LITERATURA

17 Fevereiro, 2009
Estão abertas as inscrições para o concurso Prêmio São Paulo de Literatura,  da Secretaria de Estado da Cultura, aquele prêmio que dá um caminhão de dinheiro (duzentos mil reais) para o melhor romance de autor veterano e para o melhor romance de autor estreante de 2008. As regras estão todas no edital no site da Secretaria.
Mas atenção: o prêmio é só para ROMANCE. E o autor estreante PODE TER LIVROS escritos em outros gêneros. 
Para concorrer, o autor ou o editor devem fazer inscrição no portal da Secretaria até 30 de março. Os finalistas do Prêmio serão anunciados no Festival da Mantiqueira, entre 29, 30 e 31 de maio, na cidade de São  Francisco Xavier.

LITERATURA ERÓTICA

16 Fevereiro, 2009

Não se esqueça: HOJE, terça-feira, 17.02, às 20h o João Silvério Trevisan e eu te esperamos para um papo sobre literatura e erotismo no SESC Pinheiros. Rua Paes Leme, 195. Pertinho do Largo da Batata. Não falte!

Atualização: o nome da palestra é Erotismo, das margens ao coração humano.

DIÁRIO DE DEBUTANTE???

14 Fevereiro, 2009

Os novatos têm de se concentrar na leitura, em aprender a elaborar uma escrita de qualidade. Sair por aí exibindo-se e achando que assim vai se afirmar não funciona.” E acrescenta que não considera literatura a produção blogueira. “São diários, como os diários de debutantes que havia antigamente” – Milton Hatoum, hoje na Folha de São Paulo.

Pô, Milton, diários, tudo bem. Blog é um bloco de anotações que a gente abre todo dia e escreve as bobagens que viu, que está pensando, que descobriu e que acha “importantíssimo” repartir com as pessoas. Um ponto de encontro, uma esquina onde falo com centenas de pessoas sem ter ninguém ao redor; o púlpito de onde faço meus sermões apaixonados; o tablado onde represento monólogos para espectadores ausentes; o palanque onde profiro discursos e defendo idéias que doze horas depois sou capaz de negar. Basicamente, isso aqui é um diário sim. Nada contra os diários. Mas o que me deixou chateada na sua entrevista (em meio a tantas coisas legais que você falou) foi a comparação com diário de debutantes. Pô, Milton, eu nunca debutei! 

Você está no Olimpo da literatura brasileira contemporânea e tem páginas e páginas da grande mídia aos seus pés. Mas nós, a massa de escritores brasileiros que querem ter seu trabalho lido, divulgado e reconhecido, vamos contar com quem?

Blog não é lugar pra fazer literatura. Ninguém pensa isso. Mas é o lugar para divulgá-la. Aqui eu falo das coisas que me acontecem, dos filmes que vejo, das minhas paixões por astros de TV (veja você, quanta bobagem) mas também (e principalmente) divulgo meu trabalho, meus livros, os eventos onde estarei presente.  A vida não é fácil, Milton, e o blog é um veículo democrático que nos permite botar a cara no mundo. 

O debutante é que me chateou, entende? Aí é que eu acho que teve uma pontinha de mordacidade da sua parte. Quer dizer que você nos vê (eu, o Marcelino Freire, o Joca Reiners Terron, o Ronaldo Bressane, o Mário Bortolotto, o Michel Laub, o Fabrício Carpinejar, a Andréa Del Fuego, a Índigo, o Antonio Prata, o Daniel Galera, o Daniel Pelizari, o Emílio Fraia, o Xico Sá, o Douglas Diegues, o Ademir Assunção, o Cláudio Daniel, o Nelson de Oliveira, o Marcelo Rubens Paiva, o Santiago Nazarian e tantos outros) como menininhas deitadas na cama com as perninhas pra cima e o lápis na boca pensando com quem dançaremos a valsa logo mais? Pô, sacanagem. Retire o adjetivo e eu te perdoo. Caso contrário, dá aqui o  mindinho. Ou eu não comprarei seu livro novo. De contos, veja você! – um gênero tão caro às debutantes.

MULHER É TUDO IGUAL

13 Fevereiro, 2009

Eu e a Marieta Severo não temos tempo pra solidão. Ela foi casada com Chico Buarque, eu com João Teodoro. Ambos nos deram muito trabalho. Teodoro era alcoólatra e me batia na cara. Passei com ele os piores momentos da minha vida. Como se não bastasse, era meio veado, o cara. Vivia se enroscando com garotinhos por aí, depois os trazia pra casa e me apresentava como coleguinhas de trabalho. Ora, vê se eu sou boba. Punha os moleques pra dormir na minha cama, “ele não tem pra onde ir, coitado”, e dormia comigo no sofá da sala. No meio da noite, João sumia.
Quando bebia além da conta e se punha a fazer escândalo, eu lhe dizia: qualquer hora pego minha bolsa e vou embora sem nem me despedir. Ele não acreditava. “Mulher é tudo igual”, dizia.
Um dia eu estava na cozinha preparando o almoço quando João entrou e me viu despejar meio litro de azeite, dos bons, no copo do liquidificador. “Pra que tanto azeite?”, berrou. A receita é essa, molho pesto é assim mesmo, vai azeite pra burro. Não sei por que, meus olhos se encheram de lágrimas. Liguei o liquidificador na potência máxima e aquele barulho infernal, e aquele manjericão todo moendo lá dentro, e aquelas nozes sendo trituradas, e aquele verde virando pasta cheirosa, foi me dando uma coisa de novidade, de começar de novo, uma coragem, que eu fui ao quarto e peguei minha bolsa. O liquidificador ficou ligado. Depois disso arranjei tanta coisa pra fazer, pra me divertir, que nem tive tempo pra solidão. João Teodoro estava certo, mulher é tudo igual. Um dia vira tudo Marieta.

(este conto está no meu livro Falo de Mulher, ed. Ateliê)

25 ANOS SEM CORTAZAR

12 Fevereiro, 2009

julio_cortazar

Julio Cortazar nasceu em 26 de agosto de 1914, na Bélgica, e morreu em 12 de fevereiro de 1984, em Paris. O maior escritor da América Latina nasceu e morreu em solo europeu, embora sua literatura tenha raízes no mais fundo chão argentino.

JUANITA BANANA

12 Fevereiro, 2009

Essa e outras relíquias podem ser ouvidas no delicioso programa Ondas Latinas, apresentado pelo Zé Simão na rádio UOL, onde ele toca latinidades de todas as épocas e lugares. É imperdível. Do tango eletrônico à Chavela Vargas e Bievenito Grande, está tudo lá. O programa inédito vai ao ar toda quarta-feira às 21h, mas os anteriores ficam disponíveis pra você ouvir quando quiser. É só clicar, pegar as maracas e sair rumbando pela sala.

GUZIK E A VELHA APRESENTADORA

11 Fevereiro, 2009

guzik

Meu queridíssimo amigo Alberto Guzik estreia hoje o “Monólogo da Velha Apresentadora”, no Espaço dos Satyros, comemorando seus 60 anos de carreira. O texto é do Marcelo Mirisola, inspirado na Hebe Camargo e naquela bobagem que ela e umas socialites inventaram um tempo atrás, o tal do Cansei (lembram disso?). Pois é. A apresentadora, no caso, é uma antiga vedete do teatro de revista que passa a ser chantageada quando bandidos sequestram sua empregada.

Quero mandar daqui meu beijo e muita merda pro queridíssimo Guzik, dizer que estarei lá pra aplaudi-lo e que, quando eu crescer, quero ser como ele.

Espaço dos Satyros 1 – pça. Franklin Roosevelt, 214.  Qua. e qui.: 23h. Até 26/3. Ingr.: R$ 5 (moradores da pça. Roosevelt) e R$ 20.


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