O NAMORO DOS SANTINHOS

Lencinho de cambraia com bordado chinês, rendinha, aquela delicadeza. Ponto sombra escondendo a linha pelo avesso, ponto paris dobrando as bordas por dentro. Miosótis, baba de moça, quindim, algodão doce. É isto que me vêm à mente quando me masturbo no banheiro. Água escorrendo morna pelo corpo, jorro na campina dos carneirinhos que não se contam.
Recostada nos ladrilhos, penso com meus parafusos frouxos: que peça me pregou a vida! Me deitei com tantos homens, fui tão fácil e à toa, mas o amor verdadeiro chegou-me com um santo. Décio é quase um santo, destes que não se pode tocar. Ele prefere satisfazer seu desejo de forma mais singela: pintando, bordando, ouvindo música, cozinhando, sem nunca entrar no molhado, no abrupto, no destemperado. Com Décio, o amor é todo castidade. Torta de camarão, pastelão de palmito, suflê de queijo, molho de manjericão. Fico imaginando no que Décio pensa enquanto come as delícias que prepara. Por onde anda seu pensamento quando vê televisão e fuma um cigarro atrás do outro? Com quem sonha quando dorme e dá tantos pulos na cama? Por que demora tanto no banho? Talvez Décio não seja tão santo quanto imagino. Talvez o amor não se desmanche no toque.
Uma buceta bem apertadinha e peluda com rendinha na beirada, aquele calor, aquele cheiro. Uma boca bem quente chupando meu pau, baba de moça, quindim, algodão doce. É isto que me vêm à mente quando me masturbo no banheiro. Água escorrendo morna pelo corpo, jorro de porra espirrando no azulejo.
Recostado nos ladrilhos, penso com meus parafusos frouxos: que peça me pregou a vida! Meti tanto a vida toda, pus no cu da cidade inteira, mas o amor verdadeiro chegou-me com uma santa. Luzia prefere satisfazer seu desejo de forma mais singela: ouvindo música, cozinhando, sem nunca entrar no molhado, no abrupto, no destemperado. Com Luzia, o amor é todo castidade. Torta de camarão, pastelão de palmito, suflê de queijo, molho de manjericão. Fico imaginando no que Luzia pensa quando come as delícias que prepara. Por onde anda seu pensamento enquanto vê televisão e fuma um cigarro atrás do outro? Com quem sonha quando dorme e dá tantos pulos na cama? Por que demora tanto no banho? Talvez Luzia não seja tão santa quanto imagino. Talvez o amor não se desmanche no toque.

(conto do meu livro Falo de Mulher)

2 Respostas para “O NAMORO DOS SANTINHOS”

  1. érica Diz:

    nossa! vou comprar este livro – adoro todos os contos poéticos que você postou aqui, mas este…nossa!

  2. André Perez Diz:

    Maravilhoso!

Deixar um comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s


Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 72 other followers