Esqueçam tudo que vocês leram do Michel até agora. Aquele escritor terno que escrevia belas memórias de adolescentes apaixonados flagrados no primeiro susto com a dura e cruel realidade da vida, morreu. O gato diz adeus (seu romance recém-saído do forno) é um livro adulto, enigmático, sobre as relações pornográficas, promíscuas e doentias de um triângulo amoroso formado por um escritor quarentão, uma atriz biruta e um aluno do tal professor, a quem o professor entrega sua mulher. A coisa é complicada, metalinguística. A história é narrada pela voz de cada um, além de inserções de “reportagens” sobre o livro, “entrevistas” com o autor, etc. No final, a título de explicação, Michel coloca umas notas que só conseguem confundir ainda mais (onde a referência a Amós Oz? Será que foi uma piada? Com Michel a gente nunca sabe)
Eu que nunca tive paciência para esses romances escritos como um quebra-cabeça – frase de Andreia, personagem que surge quase no fim do livro, que eu assino embaixo. Resisti a princípio. Fui arrastada.
Se ler livro de amigo já é difícil (você passa um tempo imenso tentando esquecer a voz do amigo, tentando não reconhecer episódios, ligar fulano a cicrano. Acreditem, é uma bosta), imagina esse que é um verdadeiro puzzle.
Tive que ler duas vezes.
O livro é bom. Sério. Eu só me assustei porque não estava preparada. Não pelo tema, mas pela escolha estética, pelo rigor formal tão asséptico, cirúrgico, cerebral. Juro que não vou fazer comparações com o Michel antigo nem chorar sobre o leite derramado, até porque esse já é outro livro… A verdade é que, do meio pro fim, a história te pega e você se vê tomado por um frenesi incontrolável para destrinchar aquele imbroglio.
O livro é muito bom. Sério. Coisa de profissa. A ruptura é que foi muito radical. Fico torcendo pra que o “novo” Michel não abandone o “velho” e caminhe com ele de mãos dadas daqui pra frente. Mas isso é tarefa pra uma vida inteira. Não vamos apressar o rapaz.
Bravo, Michelet!




























