Eu não sou escritora de pesquisa. Falou em pesquisa eu saio correndo. Pesquisa pra mim acabou na universidade. Hoje minha matéria prima é a imaginação. Tem escritor que para escrever um livro que se passa num hotel na região da Luz até se mudaria pra lá pra ter uma vivência que o aproximasse dos seus personagens; outros iriam pra lá de moleskin em punho e encheriam páginas e páginas com anotações; outros entrevistariam moradores da região, etc. Eu escrevo meus livros do meu quarto, sentada no meu computador, olhando o universo que crio pela janela da imaginação. Mas um dia eu me invoquei e falei: eu vou até lá. Peguei o ônibus Estação da Luz, desci na Praça Princesa Isabel, olhei a estátua do Duque de Caxias por onde a Renata passa tantas vezes, lembrei de como eu achava essa estátua imensa quando era criança e de como ela continua imensa até hoje (coloquei isso no livro), fui até a rua Helvétia, olhei à esquerda, vi um muro alto tomando um quarteirão, pensei: aqui deve ser um colégio. E assim ficou. Nunca fui lá conferir. Virei à direita e fui andando apressada. Era uma manhã de sol. As putas estavam no lugar de sempre, os bêbados e mendigos, idem. Os policiais faziam a ronda garantindo que eu não corria grande perigo. Mesmo assim eu estava desconfortável, aflita. Passei por muitos hotéis e pensões e pensei: tudo bem, é um desses. Segui adiante. Os sacos de lixo tomavam as calçadas, o caminhão logo passaria pra pegá-los. Os mendigos e os cachorros disputavam o pouco de útil que ainda restava ali (isso também acabou indo pro livro). Na próxima esquina, virei de novo à direita, fui até a avenida Rio Branco e entrei no primeiro Pinheiros que passou. Vinte minutos cronometrados foi o que durou a única pesquisa para fins literários que fiz na vida.
8 Junho, 2009 às 9:19 am |
Adoro pesquisa universitária. Mas se o assunto é imaginação também ficaria com a minha em vez de investigar ao vivo. Agarraria-me às lembranças e a uma boa “googlada” no assunto.