Putz, que dia corrido, ufa! Compromisso em São Paulo é fogo. Pra dar uma palestra em Sto. André eu saí de casa às 14h20 e cheguei na Livraria da Vila pro lançamento do Cadão às 19h30, sendo que a palestra foi só de uma hora e meia. O resto passei num trânsito infernal. Enfim, cheguei no Cadão morta de cansaço e de fome, peguei meu autógrafo, dei meu beijinho e vim embora correndo pra casa. Nem pude esperar a galera que deve ter pintado por lá e depois ido pra Merça, etc etc. Não só porque amanhã pego cedo no batente como também porque pelos próximos sete dias EU ESTOU DE PLANTÃO. Rezem por mim. Rezem pra que aquelas oitocentas famílias desabrigadas do Capão Redondo não precisem dos meus préstimos, principalmente no meio da madrugada.
De manhã eu queria ter comentado a coluna do Marcelo Coelho hoje na Folha. Saliento três parágrafos que merecem destaque. Diz ele:
“QUALQUER ESCRITOR moderno, imagino, tem dificuldades ao começar um texto de ficção. Que nome dar ao personagem principal? No arbítrio dessa escolha subjetiva -Gregório, Evaristo, Elizabeth- já está em curso uma operação suspeita. (…)
O notável, nesses inícios de romance, é a segurança subjetiva do narrador. Existe a certeza, com efeito, de estar puxando o leitor “pelo nariz”; estamos diante de alguém plenamente consciente de onde quer chegar, e tranquilo quanto ao fato de que iremos ler o romance até o fim. É bem diverso, acredito, o jogo proposto pela literatura moderna, e ainda que existam começos de grande impacto nos romances do século 20 (o da “Metamorfose” de Kafka, por exemplo), algo se perdeu na relação entre leitor e narrador. O ato aparentemente simples de “estabelecer” uma realidade (a cidadezinha de Verrières, os arredores do lago de Como) parece ter sido corroído em suas bases. O autor ficcional perdeu, digamos assim, sua “autoridade”. (…)
Cada acontecimento talvez tenha, nos dias de hoje, a violência surda de um suicídio: comparece como um baque, uma queda, um acontecimento negativo e brusco. O tempo das grandes mortes heroicas e das salvações extremas, que ocupou tantos romances, provavelmente passou.
Se eu não estivesse tão cansada, gostaria de me estender sobre o assunto. Na impossibilidade, deixo aqui um trecho da resenha que o Manuel da Costa Pinto escreveu sobre o meu Hotel Novo Mundo. Tenho certeza de que vocês farão o link que o cansaço e o sono me impedem de fazer:
Ivana Arruda Leite fez um relato ao mesmo tempo duro e singelo sobre a redescoberta de como “a vida pode ser simples”, de como comportamentos “desviantes” se incorporam à banalidade sem ambição -e de como o próprio romance (que já foi o mais corrosivo gênero literário) pode extrair beleza da banalidade.
- Por que tantas inquietações a respeito do romance?, você me pergunta e eu respondo. Porque encontrei agorinha mesmo o Samuel Leon, editor da Iluminuras, na Livraria da Vila e falei pra ele que assim que chegasse em casa eu lhe mandaria o Alameda Santos. Uma hora a gente tem que tomar coragem e mandar o livro embora, não tem jeito. Se eu não fizer isso hoje, amanhã estarei mexendo de novo e de novo e de novo. Chega. Rua. Vou clicar o enviar e seja o que Deus quiser.