É a terceira vez que eu recebo essa graça. Só que nas outras duas vezes eu sonhei com o Hugh Laurie, o ator, em situações de festas, etc. Dessa vez não. Eu sonhei com o House. E não foi à toa. No segundo episódio da 6a. temporada (que estreia aqui em outubro) o House tá fazendo terapia. Seriamente. É comovente vê-lo enfrentando a própria dor, tendo que lidar com a infelicidade, sabendo que só o que nos compete é acostumar-se com ela e seguir em frente da melhor maneira que for possível (isso é meu, tá gente?). Eu sei que a terapia do House acabou revolvendo meus entulhos e esta noite eu sonhei que ele fazia parte do meu grupo de amigos e vivia comigo pra cima e pra baixo pelos bares da vida, bebendo, conversando, rindo. Eu me lembro do Marcelino, do Joca, da Adrienne mas tinha muito mais gente. Eu o amava muito. Ele também gostava de mim, da minha companhia, mas como amiga e não como mulher. Não me queria pra ele, o que era motivo de grande sofrimento pra mim. Sofrimento numas. Eu sabia que era assim e tocava a vida sendo feliz só por estar ao lado dele. Pra mim, bastava. Eu fazia sacrifícios enormes por ele, andava quilômetros a pé para encontrá-lo, levava presentes, procurava ele pelos bares, ficava muito além do tempo que queria, bebia muito além do que devia só para estar com ele. Teve um dia em que ele e a Adrienne tinham uma reunião num hospital. Eu fui no carro deles até um trecho e desci. A gente se despediu prometendo se encontrar dali a duas horas. Eu comecei a andar na rua, absorta nos meus pensamentos. Quando procurei pelo carro deles pra dar mais um adeusinho, eles já tinham desaparecido. Eu continuei a andar, era noite, eu tava sozinha na rua, com medo por estar ali, e pensei: um dia ele vai ter saudade do meu amor. Um dia o meu amor por ele vai passar mas o dele por mim não vai passar nunca. Ele vai se lembrar pra sempre do tempo em que foi amado por mim e vai sentir muita falta desse amor, ao passo que eu não vou sentir a menor falta dele. Acordei, anotei tudo direitinho e passei pro computador. Eu tinha acabado de sonhar o último parágrafo do meu novo livro.
Arquivo de Setembro, 2009
EU SONHEI COM O HOUSE
30 Setembro, 2009RABADA PRA BEL E PRO JOCA – PARTE 1
27 Setembro, 2009Há um tempo atrás, a Bel falou que nunca tinha comido rabada. Eu disse que a minha, modéstia à parte, era a melhor de São Paulo e falei que depois do casamento eu faria uma rabada pra ela. Ontem, sábadão, foi o grande dia.

Nonata, minha fiel secretária, me ajudou na infraentrutura.


o primeiro a chegar foi o Edinho


Andréa del Fuego e André de Toledo Sader, su marido

que veio ressabiado. “Eu não como rabada”


papo de fotógrafo

Marcelino Freire


André, mestre de Kung Fu, professor da Bebel.

Rodrigo Lacerda, Clara, a filhota, e Mayumi


Xinho, que nunca tinha vindo na minha casa

e que me trouxe esse presente: shampoo, condicionador e luva do Hotel Novo Mundo


Bel e Joca foram os últimos a chegar, pra não variar.

Rodrigo, Clara, Michel Laub



Joca, Xico Sá

Bel, Índigo, Luís


Joana e Bel conversam sorridentes

Lá vem a Ivana com essa câmera



Alguém trouxe esse uiscão, sugado até a última gota


A rabada tá pronta. Atacar!



André comeu que se lambuzou. “Adorei!”.

O Luís também tinha dito que não ia comer a rabada. Comer pouco, ele quis dizer. No final, a aclamação foi geral: “esta foi a melhor rabada que eu já comi”, era o que se ouvia por todos os cantos.
RABADA – PARTE 2 – DE COELHO E LOUCO TODOS NÓS TEMOS UM POUCO
27 Setembro, 2009A Joana chegou não sei de onde e trouxe essas orelhinhas. Como qualquer bobagem nos diverte…





que cada um usou como quis



Adrienne que chegou mais tarde. Por sorte, ainda tinha rabada









RABADA – PARTE 3 – CENAS DE UM CASAMENTO
27 Setembro, 2009
Já era noite quando entramos pra assistir o DVD do casamento que a Bel trouxe pra gente ver.



O discurso do padrinho





A platéia embevecida morria de saudade do casamento e pedia outro em breve. Andréa cochila pensando que ninguém tá vendo.

RABADA – PARTE 4 – O GRAN FINALE
27 Setembro, 2009





eu e Marcelino ensaiando uns passinhos no salão

a orelha reaparece

Joana, que se revelou grande DJ





E dá-lhe Nega Fulô, e dá-lhe Old Parr, e dá-lhe o que pintar. A animação foi crescendo

os carinhos também


Metade dos convidados tinha ido embora. Às 23h começou o baile



Por favor, senhor juiz, pare agora!



Às 3 da matina, a última leva foi embora. Hoje eu amanheci um bagaço. Meu fígado dói inclemente. Talvez porque eu já não esteja na idade de beber 15 (eu disse quinze!) horas seguidas. Ademain que eu vou repousar.
A BOTTARGA DE GAROPABA (SC)
25 Setembro, 2009Recebi este comentário do Christian Katopodis, que produz e comercializa a maravilhosa bottarga Lefkas, de Santa Catarina, agradecendo a citação, dando o endereço do site e oferecendo desconto aos leitores do Doidivana. Êi-lo:
Cara Ivana:
Tudo Bem?
Estive visitando o seu blog e queria agradecer a atenção que tem nos dado, em promover o conhecimento a novos gourmands á respeito da iguaria que produzimos com tanto amor em Garopaba, SC.
No mais, aproveito para comunicar que as Bottargas DiMuggine Inteiras envoltas em Parafina Alimentícia (finalizadas segundo o querido Chef Alex Atala) já estão prontas.
Pesam em media 180gr e seu preço em torno de R$144,00.
O preço normal grama varejo é R$ 0,80 centavos.
Para vc e seus leitores estarei fazendo um preço diferenciado em – 10%
O único requerimento é que o gourmand mencione no contato com a Lefkas de que foi indicação sua.
Por ser uma reserva especial e totalmente limitada não esta disponível em empórios, supermercados e delicatessens. E é um super presente especial para quem aprecia coisa finas.
Maravilhosas receitas podem ser obtidas em nosso site neste link
No mais, a partir de agora vou estar visitando seu Blog com freqüência.
Abçs e muito sucesso!
Christian
TITILA
24 Setembro, 2009Titila andava ao redor do telefone sem conseguir se decidir. Ligo ou não ligo? Ia à cozinha, tomava café, bebia água, tomava outro café, fumava, sentava, levantava, punha um disco, tirava o disco, ligava a tevê, fazia exercícios de relaxamento. Relaxava mas não decidia. Continuava sem saber o que fazer. Cada vez que tirava o fone do gancho, vacilava. É melhor não ligar. Desligava. Na tevê, as pessoas diziam: liga, liga, mas ela não obedecia. Ao meio dia enfiou um sanduíche na boca tentando ler os pensamentos do cachorro. Esperava um sinal que decidisse por ela. Ao ouvir a campainha, pensou: se for criança pedindo esmola, devo ligar. Não era, esqueço essa história. Mesmo assim, levantou o fone do gancho e discou. Chamando. Coração disparado. Chamando. Chamando. Atendeu. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado. Desligou imediatamente. Coração querendo sair pela boca. As mãos tremiam. Mais um café, mais um cigarro. Cinco minutos depois, de novo a dúvida. Chamando. Terceiro toque. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado. Desligou. Falar o quê? Ensaiou mil vezes. Oi, aqui é a Titila, estou com saudade, quando der me liga, um beijo. Ou será melhor um abraço? Oi Genaro, aqui é a Titila, por que você não ligou mais, seu filho da puta? Estou precisando urgentemente falar com você. Ambulância berrando desesperada, estou morrendo na maca. Não, não tem nada urgente. Genaro, espero até as dez da noite, se você não ligar, eu me mato. Depois da morte relaxou, foi à cozinha, serviu-se de uma dose de vodca e sentou-se ao lado do telefone. E se eu ficasse bêbada? Genarinho querido, pô, qual é? Sua vodca ainda está aqui, pela metade, como eu. Vodca pela metade, copo pela metade, vida pela metade. Agora vai. Terceiro toque. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado. Oi Genaro, antes de me matar resolvi beber um pouco da vodca que você deixou na geladeira e achei melhor te dar mais uma chance. Te adoro. Um beijo enorme. Me liga. Pronto, o que está feito, está feito. Morta de arrependimento, perguntou à virgem da correntinha: o que será de mim? Buscou resposta no cachorro, mas ele continuava mudo, lendo os lábios das pessoas na televisão muda. O mundo mudo esperando uma decisão. Foi a vodca. Vodca só me faz fazer besteira. O que eu tinha de beber numa hora dessa? Guardou a garrafa e fez um café. Ele não pode ouvir esse recado. Preciso fazer alguma coisa. Calçou os sapatos e pegou a bolsa. Com a bolsa no ombro e a chave do carro na mão, recapitulou: vou à casa dele, peço ao porteiro para entrar e arranco essa maldita fita da secretária. O porteiro não vai me deixar entrar. Ele nunca me viu. Genaro nunca me levou a sua casa. Jogou a bolsa no chão e sentou-se ao lado do telefone. Decidiu deixar um segundo recado pedindo desculpas pelo primeiro. Chamando. Terceiro toque. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado. Genaro, aqui é a Titila, eu te deixei um recado há dez minutos, mas nem sei o que falei, só sei que falei o que não devia, esquece e me perdoa, tá? Bateu o telefone. Mais sossegada, voltou para a vodca. No terceiro gole se arrependeu. Como sou idiota. Agora é que ele não me liga nunca mais. É melhor falar a verdade. Terceiro toque. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado. Genaro aqui é a Titila. Olha, eu te deixei um recado. Um não, dois, mas acabei me embananando. Na verdade eu só queria dizer que estou com saudade, mas sou super atrapalhada nessas coisas, você sabe. Gostaria de te ver. Um beijo. Agora ficou legal. Guardo a vodca e tomo um café, quem sabe um banho, aumento o som da tevê e pronto. Titila tentava ordenar o que fizera: no primeiro eu falei que estava tudo bem, no segundo eu falei que estava tudo mal. Eu falei te adoro? Afinal, quantos recados deixei? É melhor começar de novo, com calma. Mais um pouco de vodca. Chamando. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado. Genaro, aqui é a Titila, me desculpe a palhaçada, mas é que foi tudo tão legal entre a gente. Por que você sumiu? Tenho pensado muito em você. Estou tão sozinha… Desligou o telefone aos prantos. Que ridícula. Ele vai pensar que estou morrendo por causa dele. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado. Genaro, olha aqui, se quiser ligar, liga, se não quiser vá pra puta que pariu, não estou nem ai com você. Foda-se cara. Bateu o telefone. Como eu me odeio. Por que faço isso? Ela não conseguia mais levantar do sofá. Teria mandado Genaro à merda ou à puta que pariu? Ele não merece, foi tão bonzinho comigo. Aqui é 337.2479, após o sinal deixe seu recado que ligarei assim que for possível. Obrigado. Genaro, estou em casa, me liga. Caiu em sono profundo. Dormiu ali mesmo, com a perna esticada sobre a mesinha e a cabeça pendurada no vazio. Acordou à meia-noite, com o telefone tocando.
- Oi Titila, aqui é o Genaro, acabei de chegar e ouvi seu recado. Que bom que você ligou, precisamos nos ver.
Com um gosto horrível na boca e a cara toda babada, ela olhou pro cachorro. Na sala escura, a televisão muda brilhava feito um abajur.
(este conto serviu de roteiro pro Kinzinho fazer um curta que eu adoro e que foi tcc dele)
E A CONTENDA DO HOTEL CONTINUA
23 Setembro, 2009O senhor silvadinho2@yahoo.com.br
me enviou este comentário, que eu trago à luz por julgar que uma jóia desse quilate não poderia ficar oculta na escuridão dos comentários:
“Essa matéria que saiu no Jornal do Brasil onde a Sra. Ivana Arruda Leite justifica a escolha do nome Hotel Novo Mundo para seu livro é trágica!!È bom esclarecer que não é só Carlos Heitor Cony (imortal da Academia Brasileira de Letras) que possui uma obra ambientada no hotel. Autores de igual relevância, como Jô Soares ( em “ Quem Matou Getúlio Vargas”) e Garcia Roza (em “O Silêncio da Chuva) possuem romances ambientados no verdadeiro Hotel Novo Mundo! Nota-se claramente porque eles são escritores de maior destaque que esta senhora. Ou ela é hipócrita ao ponto de dizer que nunca notou o letreiro verde de vários metros de largura e altura de frente para a Baía de Guanabara e Pão de Açúcar(uma dos mais famosos cartões postais do Rio, mundialmente famoso), letreiro esse que está também ha 60 anos no mesmo lugar, e como o prédio é de esquina, está em frente também ao Palácio do Catete,que foi residência presidencial por décadas (sendo que as vias em frente ao hotel na orla da Paria do Flamengo são obrigatórias para quem vem da rodoviária, aeroporto Tom Jobim e aeroporto Santos Dumont para a Zona Sul da cidade, zona turística onde ficam também Copacabana e Ipanema) ou ela é muito ignorante mesmo!!!! Que escritora é essa??!!!! Meus Deus!!!!!! Me parece que esta escritora quis pegar carona no nome de um hotel construído na década de 40 que já abrigou presidentes, governadores, esportistas e artistas de renome. Só para citar nomes: Angélica e Clodovil ali residiram, Pelé e Lula foram hóspedes assíduos, bem como presidente Mário Soares de Portugal, Governadores Rosinha e Anthony Garotinho, Cauby Peixoto também morou no hotel… Brizola, Garrincha e tantos outros o frequentaram.Elencos inteiros da TV Manchete se hospedavam no hotel!”
Angélica, Clodovil, Clauby Peixoto e o elenco todo da Manchete! Que clientela!
Lamento informar ao senhor silvadinho que eu não só nunca passei na frente do Hotel Novo Mundo como nem desconfio onde ele fica. E não é hipocrisia. Moro em São Paulo e conheço pouquíssimo o Rio de Janeiro. Azar o meu. Sorte a sua que vive na cidade maravilhosa e pode olhar todos os dias para o Cristo Redentor, para o Pão de Açúcar e para a imensa placa verde do Hotel Novo Mundo.
Atualização: encerro aqui este assunto e comunico ao senhor sei lá das quantas (êi-lo aqui em grande estilo) que daqui pra frente, por melhor que seja o email, ele será deletado sumariamente.
MÃE, O CACETE
22 Setembro, 2009Mãe é uma cruz na minha vida. Nunca gostei da minha e duvido que as pessoas gostem tanto da sua quanto dizem. Quando eu estudava no colégio das freiras, elas falavam que era até pecado desgostar da mãe desse jeito. Mãe é coisa sagrada. Que eu rezasse pra mãe de Jesus pra ver se ela me ajudava. Rezei porra nenhuma. Não gosto da mãe de ninguém, nem da mãe de Jesus. Mãe é sinônimo de atraso, degradação. Mãe deforma a cabeça da gente. O mundo seria outro sem mães. Deus que se virasse pra fazer as pessoas nascerem de outro jeito. Repolhos, bromélias. Os filhos seriam todos órfãos, órfãos e felizes. Ele não precisou de mãe pra criar a humanidade. A mãe veio muito depois, por castigo.
A minha dava cada beliscão, batia de chinelo, puxava orelha, dava tapa na cara, cascudo com o nó dos dedos. Isso é coisa que se faça a uma filha? A única que ela teve!
Eu queria uma mãe de quadrinho, dessas que trocam os filhos com cuidado, dão beijo na testa e fazem o nenê nanar, contam histórias, seguram na mão pra atravessar a rua, cortam as unhas do filho (a única vez que a minha fez isso, quase me arrancou a ponta do dedo). Dizem que existe. Mas eu? Que ficasse cagada, mijada e com a cara cheia de ranho até a hora que ela bem entendesse. Tinha mil coisas pra fazer antes de me socorrer. Tive que aprender tudo sozinha: que tomada dá choque, que faca corta, que osso de frango engasga (eu mesma enfiei o dedo na garganta e tirei o osso de lá quando isso aconteceu), que mulher menstrua, que homem velho gosta de abusar de criança. Ela tinha um namorado bem velho. Era seu patrão na fábrica de arame. Eu tive a pior mãe do mundo.
Quando saíamos juntas, ela me mandava correr:
- Eu vou embora e te largo aí.
Se eu chorava, ela me dava um safanão e me mandava calar a boca. Se eu gostava de um programa de televisão, ela mudava de canal. Se me via feliz, me mandava pro quarto.
- Vai rir na cama.
Minha mãe detestava me ver contente. Talvez por isso nunca me deu presente, nem no Natal nem no aniversário. Um dia me perguntou:
- Que dia mesmo você nasceu?
Dizia que não tinha dinheiro, mas pra ela não faltava nada: rouge, batom, pó de arroz, tinha de tudo na penteadeira dela. Até perfume francês. Na minha, só talco Gessy e uns toquinhos de batom que ela não usava mais.
Quando eu ficava doente, me tacava um comprimido na garganta e apertava o nariz pro comprimido descer logo. Me esquecia na cama com termômetro no braço. Eu que adivinhasse a febre, quando ainda nem sabia ler.
Nunca foi a minha escola, dizia que não tinha tempo a perder.
Pouco se lhe dava saber onde eu estava.
Na rua, as meninas diziam:
- Tenho que ir embora, minha mãe tá me esperando, minha mãe vai ficar brava, a janta tá pronta.
Eu só voltava pra casa porque não tinha mais ninguém pra brincar. Se eu sumisse ou morresse, acho que ela nem ia perceber.
Minha mãe era bonita, uma morena vaidosa, gostosa, diziam. Morenona de cair o queixo. O patrão vinha buscá-la todo dia num cadillac bordô. Ela ia trabalhar de salto alto, meia de seda, tailleur, blusa de tafetá, toda perfumada, penteada, de colar de pérolas, anel de brilhante e pulseira de bola.
Minha mãe e o patrão dela iam de carro pro trabalho.
Um dia ela chegou puta da vida dizendo que tinha sido despedida. A partir desse dia, a vida dela perdeu a graça. Desleixou, descuidou, ficou pior ainda.
Eu tinha 15 anos e tive que cuidar de tudo sozinha. Da casa e dela. Toda hora tava de cama. Até banho eu tinha que dar. Aposentou-se por invalidez.
Quando terminei o ginásio, fiz curso de auxiliar de enfermagem e entrei no Hospital das Clínicas. Acabei fazendo faculdade, hoje sou enfermeira-chefe.
Minha mãe ficou encravada na cama muito tempo até que um dia amanheceu morta. Finalmente eu estava órfã.
Dei todos os móveis do quarto dela, as roupas, e aluguei o quarto para um calouro da medicina: o Rui, 20 anos, recém-chegado à capital.
Os pais dele ficaram felizes ao saber que ele moraria na casa de uma senhora tão distinta.
Logo nos primeiros dias me engracei com ele. Chegou a minha vez, pensei. E vai ser com esse. Eu fazia comidinhas que ele gostava, jantava com ele, aparecia de camisola na sala, tomava banho de porta aberta, dormia de perna aberta com a porta aberta. Ele passava pelo corredor e me espiava com o rabo do olho. No frio, eu ia ver se ele estava coberto, dava beijo na testa, na boca, abraçava, deitava junto. Eu sei agradar um homem, sem nunca ter aprendido.
Ontem ele trouxe um amigo pra jantar.
- A senhora é mãe do Rui? – perguntou ao me ver na sala.
- Mãe, o cacete – respondi atordoada. Sou a mulher que dorme com ele, que faz a comida dele, que cuida da roupa dele, da casa dele.
- Praticamente uma mãe – o cínico completou.
- Deus me livre ser mãe do Rui. Mãe é a maior desgraça na vida de uma pessoa. É por causa das mães que tem tanta gente infeliz.
O moço ficou assustado e pediu desculpas. Quando ele foi embora, perguntei pro Rui se ele também me via como mãe, mas ele disse que não, nunca!
- Até porque, eu gosto muito da minha mãe – ele disse me beijando a boca com o ardor de sempre. Depois perguntou curioso: e pai, o que é um pai pra você?
Ontem fui procurada por uma aluna de Comunicações que perguntava se eu teria algum conto sobre relacionamento entre mães em filhas. Seu tcc é um curta sobre este tema e por sugestão do professor, Rubens Rewald (obrigada Rubens!), ela estava me procurando. Sugeri dois contos. Um é este que vocês acabaram de ler, publicado na antologia 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, ed. Record. Amanhã eu coloco o outro, Adélia, do Falo de Mulher, Ateliê editorial. Este último já foi tema de uma peça de teatro aqui em São Paulo. E por falar em curta, o tcc do meu sobrinho Kinzinho na faculdade de artes visuais foi um curta sensacional sobre um conto meu, Titila, do Histórias da mulher do fim do século, esgotado. Postarei todos aqui. Divirtam-se.
BIENAL DO RIO
19 Setembro, 2009Fui, falei, autografei, adorei e voltei. Café litérário lotado, felicidade total. Bate-papo quente e saboroso entre Marcelino Freire, Carola Saavedra e Ivana Arruda Leite, mediado por Clarisse Fukelman. Palmas pro grande Ítalo Moriconi, responsável pela curadoria do Café Literário. Quando saímos, entregamos o palco pro Marcelo Mirisola e Reinaldo Morais. O juiz da luta foi o Marcelo Moutinho. Deve ter sido arrasador.

Fui com Marcelino e chegamos cedo. A tempo de dar uma passada pelo hotel em que ele ia ficar. Eu declinei o convite porque só durmo fora de casa quando a precisão é muita, o que não era o caso.

No café chiquérrimo, nós falávamos baixinho pra fazer jus ao local.


O telefone do Marcelino não parava. Ele já está a mil na preparação da Balada Literária que acontece em novembro. Neste momento, Márcia Tiburi confirmava presença em uma das mesas.

Um hotelzinho modesto, à altura dos escritores que abriga.

Ao meio-dia fomos ao singelo restaurante.

Eu tracei uma feijoada e bebi cerveja. Queria estar preparada pra palestra: O prazer da literatura. Prazer da literatura pra mim é escritor de barriga cheia.

Marcelino foi mais frugal. Franguinho grelhado e algumas sobremesas

Foi dada a partida.


Casa lotada



Eu e Carola só no sapatinho

Ítalo Moriconi, Clarisse Fukelman e os escritores

Eu e Carola Saavedra

A linda e mui talentosa Ana Paula Maia pegou carona comigo e parou na casa dela. Tava cheia de Bienal.

Vim num voo cheio de estrelas. Aí vocês veem o Vesgo na frente, o Jorge Benjor (que estava sendo entrevistado pelo Pedro Alexandre Sanches) atrás e mais atrás ainda o time inteiro uniformizado do Botafogo. Pois é, estrela não faltava.

O avião balançava mas Pedro não largava o gravador. A matéria deve sair na Trip em breve.


Vesgo veio de óculos escuros, na primeira fila, de cara pra parede. Jorge Benjor, simpatia pura, não se escondeu de ninguém.
Aos que notaram que eu repeti o figurino no Letra Livre e na Bienal eu explico: o modelito foi repetido mas GARANTO que teve um banho no meio.