ANACRONISMO? SERÁ MESMO?

(Resenha de Reynaldo Damazio, hoje, no Guia da Folha)

O romance de Ivana Arruda Leite talvez chame mais a atenção pelas contradições que apresenta do que propriamente por aquilo que é narrado. A personagem central é uma mulher que chega aos 40 anos sem grandes objetivos, com muitas frustrações e incertezas, e que registra em fitas cassetes, sempre ao final do ano, entre 19984 e 1992, os acontecimentos que marcaram sua vida naquele período.

Cada depoimento é uma espécie de grito contra a solidão, uma tentativa de evitar ou adiar o suicídio, um desabafo comovido e engraçado sobre os desacertos de uma vida errante, entre bebedeiras, trepadas e “papos cabeça”.

É curioso como uma mulher com essa idade, num momento posterior à contracultura, aos movimentos feministas e de tantas mudanças políticas em seu próprio país, viva em função de relacionamentos amorosos confusos, em busca do amor ideal.

O contexto social está ali, mas a narrativa se rende à sujeição da personagem aos caprichos de um amante vagabundo, bêbado, egocêntrico, machista e que exploca descaradamente as mulheres. Parece anacronismo.

O texto delicado da autora, no entanto, salva a narrativa do melodrama ao fazer uma crônica cheia de autocríticas dessa ressaca existencial.

Gosto muito do Reynaldo, mas discordo do fato de ele achar curioso que “depois da contracultura e dos movimentos feministas” uma mulher ainda se atormente com relacionamentos do naipe que eu mostro no livro. Em que mundo você vive, querido poeta? Eu não paro de encontrar mulheres assim ATÉ HOJE. Fora isso, quem disse que os romances só podem contar histórias de mulheres bem resolvidas? Muito pelo contrário. Minhas personagens são, na sua imensa maioria, mulheres que ouviram cantar o galo, saíram correndo atrás mas vivem indo por caminhos tortos e dando com a cara no chão.

Apesar desse senão, gostei muito da resenha, claro.

9 Respostas para “ANACRONISMO? SERÁ MESMO?”

  1. Angel Diz:

    Olá Ivana,

    O que aconteceu comigo prova o contrário do que diz esse cara. Li a resenha do seu livro que saiu na Folha e logo fui comprá-lo. Que delícia! Também sou ex-FFLCH, mestre e tenho um filho. Acabo de completar 41 anos e sou casada, mas vivo angústias e algumas situações muito parecidas como as narradas no livro. Quando terminei o livro fiquei com aquela sensação de quero mais e me achando a pessoa mais “normal” do mundo!

    Obrigada! Um beijão pra você.

  2. Silvia Sato Diz:

    Oi Ivana, sabe, ainda não li esse seu livro, mas achei esse comentário na resenha ignorante.

    Eu trabalho em artes por exemplo com as questões de gênero, mas não aquela coisa de queimar sutiã, aquele movimento radical e ardente, porque não é assim que as coisas se processam na vida real, não é?

    Existe um longo processo para a sedimentação dessas mudanças.

    As mulheres estão ainda buscando o seu lugar e dizer que elas estão dominando o mundo e são agora vadias e os homens que são reprimidos me parece um discurso de um homem despeitado.

    É óbvio que estamos nos debatendo, estamos nos transformando. Na tradição patriarcal o que acontecia é que as mulheres existiam para produzir filhos e não conhecimento.

    E grande parte de nós ainda não é criada assim? A maioria dos artistas em museu não é homem, e os políticos?

    Ta, me passei, mas é que deu nervoso, me perdoa, hehe.

    Mas você, você é ótima!
    :)

  3. G. Diz:

    Ele não deve conhecer uma mulher.

  4. vera azevedo Diz:

    Queridas, entendo que vcs que ainda são moças, ainda pensem assim – eu pensava tb. mas agora, neste ano que completo 60 já estou com a cabeça velha (ou nova?) tipo Reynaldo – que é um absurdo que ainda existam mulheres que vivem indo por caminhos tortos e dando com a cara no chão. Nada contra a Ivana escrever sobre isso, mas achar normal viver isso, Pelamordedeus!

  5. Claudia Figueiredo Diz:

    Só um homem pra fazer uma critica como esta!!!!!! eles ainda não entendem nada.
    Seu livro é uma porrada prima me emocionei muito.
    Beijo grande.

  6. Cintia Barreto Diz:

    Concordo irrestritamente com a Ivana!

    O Brasil é enorme. O que dizer do mundo, então!? Há mulheres de todo tipo hoje ainda.
    A literatura da Ivana faz pensar em todas elas e as ajuda a viver!

    Beijão

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