Arquivo de Abril, 2010

PRETÉRITO IMPERFEITO

30 Abril, 2010

bastasse
fizesse
quisesse
amasse

Os verbos do pretérito
imperfeito
são verbos doces e mansos
Colocam à distância o passado.
Não tão perto que ainda doa
nem tão longe que se esqueça.

***

Agradeço comovida as manifestações candentes deixadas neste blog pelas crônicas que tenho publicado. Quando retomei o assunto foi simplesmente como curiosidade histórica. Estou pasma de saber que elas ainda mobilizam muita gente e conservam seu vigor. Bom fim de semana! Semana que vem tem mais.

MADALENA ARREPENDIDA

28 Abril, 2010

Não sei o que você sente quando escuta alguém dizendo: “eu não me arrependo de nada que fiz”. Eu fico com um baita complexo de inferioridade. Pra piorar, essa frase sempre precede outras do tipo: “só me arrependo do que não fiz”, ou “eu faria tudo de novo”.
Não dão inveja essas pessoas que só tomaram decisões acertadas na vida, fizeram sempre as melhores escolhas, andaram sempre pelo caminho das pedras?
Por acaso é feio reconhecer as nossas cabeçadas do passado? Qual o problema de olhar pra trás e, lembrando certos episódios, dizer: isto eu não faria jamais.
Aí tem sempre alguém que diz: “mas tudo valeu como experiência”. OK, tudo vale como experiência, mas nem todas as experiências valem a pena.
Vai me dizer que todo mundo casou com a pessoa certa, escolheu a profissão certa, ganha o salário que merece, leva a vida do jeito que gostaria que a vida fosse?
Não que eu seja uma Madalena arrependida, mas é longa a lista das coisas das quais eu me arrependo e que não faria de novo, never!
Paguei muita conta pra vagabundo, beijei boca de quem não devia, me entreguei de corpo e alma a quem não merecia, confiei meus segredos a quem não soube guardá-los, desisti antes da hora, fiquei além do tempo, acreditei em cada bobagem, não aceitei aquele buquê de flores.
No campo profissional, então, foi um desacerto atrás do outro. Nunca ganhei o pão com alegria. O trabalho, pra mim, foi sempre sacrifício. A literatura, paixão da minha vida inteira, não me sustenta (por enquanto).
Por isso tudo, me falta coragem pra posar de bacana e dizer que tudo valeu a pena porque a alma não era pequena (arghhhh).
Até porque, muitas das escolhas que fazemos são feitas quando ainda nem sabemos direito quem somos. É difícil acertar com tanta antecedência. Quando sacamos qual é a nossa, já era.
Por sorte, as coisas sempre têm conserto. Se não é possível trocar de embarcação, o rumo do trajeto pode ser mudado a qualquer instante. O leme está sob nosso comando.
Na minha opinião, reconhecer os erros do passado, longe de ser uma vergonha, é a única garantia de um futuro feliz.

ALGUÉM PARA AMAR NO FIM DE SEMANA

27 Abril, 2010

Meu amigo Luiz Roberto Guedes, grande poeta, prosador, tradutor e muito mais, lança amanhã (na Livraria da Vila da Alameda Lorena) seu livro Alguém para amar no fim de semana, ed. Annablume.

Todo mundo lá! O Guedes merece e o livro dele vai te deliciar, tenho certeza.

A BAILARINA FANTASMA

27 Abril, 2010

Socorro Acioli é uma escritora cearense, antiga frequentadora deste blog, que se tornou minha amiga sem que quase nunca tenhamos nos encontrado (uma vez, salvo engano).

No dia 14 de maio, Socorro virá a São Paulo lançar dois livros: A Bailarina Fantasma e Inventário de Segredos na Livraria da Vila da Fradique Coutinho, a partir das 18h30 e está chamando os amigos. Lançamento fora da cidade da gente, eu sei bem. Dá um medo danado. Todos lá dia 14 pra recepcionar a cearense.

Aqui você tem o book trailer do livro da Bailarina.

IZAKAYA ISSA

26 Abril, 2010

E depois de ver um filmaço (Os famosos e os duendes da morte), eu e a Andrea del Fuego fomos ao Izakaya Issa, um boteco japonês sobre o qual eu andava lendo maravilhas ultimamente. Creia, NADA que foi dito até hoje sobre as delícias do tal boteco chega AOS PÉS da realidade. O lugar é delicioso, aconchegante, parece a casa da gente. pra começar, atrás do balcão só tem mulheres! “Aqui os homens estão todos na cozinha”. Três simpaticíssimas e talentosas deusas que fazem petiscos inacreditáveis. Voltarei lá um milhão de vezes (o preço é super justo!!!) pra provar o cardápio inteiro. Eu não te aconselho a ir lá pra jantar propriamente (se bem que tem inúmeros pratos, sushis, sashimis, etc). O grande barato do Izakaya são os petiscos. Vai por mim. Você não vai se arrepender.

Rua Barão de Iguape, 89 – Liberdade Fone: 3208.8819 / 7677.4910

aberto de 2a. a 2a. das 18h30 às 23h30

Ah, como elas estão ficando muito famosas (tem muitos globais por lá), é sempre bom telefonar antes e reservar. Você pode comer nas casinhas individuais ou no balcão, que tem a graça de poder ver as meninas trabalhando.

antes de mais nada, o momento da entrega da focaccia (eu não resisti e levei um pedaço pra Andrea experimentar)

a primeira entrada, beringela assada estava tão maravilhosa (delicadíssima!) que não deu tempo de fotografar

esse é um dos fortes da casa: bolinho de polvo. Não dá pra falar a que mundos esses bolinhos te levam.

Essa “pizza japonesa” tem o sabor mais surpreendente que me foi dado degustar. Eles usam muito esse peixe ralado por cima. Umas tirinhas transparentes que não param de tremer.

Margarida, a grande mestra

Harumi (ou Takai)

Margarida, Harumi e Takai

chazinho pra fazer naninha feliz feliz.

quando eu pensei que íamos embora, a Andrea manda eu tirar a máquina da bolsa de novo porque ela precisa de um favor meu: “aproveitando a enorme audiência do seu blog, gostaria de ver se um dos seus leitores não teria o emblema da Nigéria para trocar comigo. Só me falta essa para eu completar meu álbum!”, disse ela quase aos prantos.

Portanto, o recado está dado. Se alguém tiver o emblema da Nigéria, faça minha amiga feliz e entre em contato com Andrea.


OS FAMOSOS E OS DUENDES DA MORTE

26 Abril, 2010

Quando o Joca e o Bressane disseram que Os famosos e os duendes da morte era o melhor filme brasileiro já feito em todos os tempos, eu achei que era exagero. Afinal, mais um filme gaúcho sobre adolescentes, etc etc. Mas fui porque confio pra caramba nesses caras e não descarto nada que eles recomendem (mesmo que seja para dizer que eles estavam loucos depois). Mas desta vez eles estavam certíssimos. Eles e o Brasil inteiro. Cinema lotado. Fila de espera. O filme (o primeiro longa de Esmir Filho, o menino que fez o Tapa na Pantera)  ganhou o Festival do Rio de 2009 e de lá pra cá os elogios têm sido fartos e merecidos.

A história é baseada no livro homônimo de Ismael Caneppele e conta o tedioso cotidiano de um adolescente numa cidadezinha no fundo do fundo do Rio Grande do Sul. A fotografia do Mauro Pinheiro Jr. é aterradora, assim como o som, os atores, a história, tudo. É SENSACIONAL. Não deixe de ver

sessão única às 18h na sala 4 do Shopping Frei Caneca; e às 13h na Reserva Cultural.

A PRIMEIRA FOCACCIA A GENTE NUNCA ESQUECE

25 Abril, 2010

Outro dia eu tentei fazer uma focaccia (adoro!) e ficou uma porcaria. Solou, um horror. Coloquei meu desapontamento no tweeter e a @te_chaves, gentilíssima, me mandou uma receita da Heloisa Bacelar. Esperei passar o trauma e hoje eu arrisquei. Morta de medo. Esse negócio de massa, fermento biológico, ver o bicho crescendo, não é a minha praia. Coloquei meu avental para ocasiões especiais e parti pro ataque, prestando muita atenção nos tempos de levedura, etc. Na receita da Te, a massa deve ser dividida em pequenos discos que devem ser levados ao forno numa assadeira untada. Minha ansiedade e falta de paciência para detalhes e preciosismos, me fez fazer uma focaccia só e levar pro forno. O resultado vocês verão aqui embaixo. Maravilhoso! Aproveitei e fotografei o almoço inteiro, que ficou UM COLOSSO como dizia minha avó.

a entrada veio de ontem à noite. Shitake refogado com nirá sobre um leito de mandiocas cozidas, derretendo na boca (sempre tenho mandioca cozida no freezer, elas são pau pra toda obra e quebram um galhão). Ficou dos deuses.

O prato principal: peguei um pedaço de maminha e fiz um rosbife do jeito que o Felipe Lindoso me ensinou. Ele faz com lagarto, mas com maminha ficou melhor ainda. Tempere a peça com sal, pimenta e mostarda (a minha era super pequena). Deixe tomar gosto por meia hora. Sele numa frigideira de todos os lado e leve ao forno bem quente por 15 minutinhos. De morrer de bom.

Vamos às fotos pra provar que eu não me gabo à toa.




o rosbifinho

o prato feito

close no prato

a focaccia com rosbife pra arreMATAR!!!

A DOR E A DELÍCIA DOS ANOS 80

24 Abril, 2010

Delícia de sabadão! Abro o jornal e dou de cara com uma resenha de quem leu o Alameda Santos com a delicadeza e o cuidado que eu queria que lessem. Marcelo Moutinho, hoje na Folha de São Paulo.

ROMANCE AUTOBIOGRÁFICO REVISITA DOR E DELÍCIA DOS ANOS 80

MARCELO MOUTINHO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Ivana Arruda Leite não cabe no escaninho redutor da “literatura feminina”.
As narrativas, embora quase sempre protagonizadas por mulheres, recusam o registro delicado e sentimental, nada têm da névoa cor-de-rosa que paira sobre a chamada “chick lit”. Os livros trazem uma figura feminina emancipada, livre, dona de si. Sexo frágil, sim, mas que não foge à luta.
“Alameda Santos” reitera essa marca. A trama é singela: na semana entre o Natal e o Réveillon, uma mulher com pouco mais de 30 anos senta-se diante do gravador e, à medida que esvazia garrafas de vinho ou uísque, relata os principais fatos de sua vida na temporada que passou. O rito se repete entre 1984 e 1992. Já no enredo, fica claro que, a exemplo de livros anteriores, o combustível da narrativa são os conflitos existenciais da protagonista. Agora, porém, a conjuntura brasileira aparece quase como uma segunda personagem.
O cenário cultural e político já se fazia presente em “Eu Te Darei o Céu” (2004), no qual Ivana redesenha os anos 60.
Em “Alameda Santos”, contudo, a conexão entre o drama individual e o contexto histórico é mais sensível, matizado. À instabilidade emocional da personagem correspondem os sobressaltos do país numa época de intensas mudanças.
Inflação, Diretas, morte de Tancredo, Aids, impeachment de Collor, tudo é comentado nas gravações, enquanto a narradora dá o testemunho de alegrias e, sobretudo, dores eminentemente pessoais. Divorciada, infeliz no emprego, envolvida com um homem casado e bissexual, sua insatisfação não encontra abrigo.
O texto é pouco adjetivado, mais tributário do conteúdo que da forma e consegue reproduzir com êxito a informalidade da linguagem oral. Em alguns momentos, entretanto, a lembrança da narradora parece remota demais para quem viveu os episódios relatados apenas alguns meses antes.
É como se a reminiscência fosse de Ivana, não da heroína, numa pequena quebra do pacto ficcional entre autor e leitor. E não são poucas as correlações biográficas. A protagonista foi funcionária da Caixa, estudou sociologia, morou na alameda Santos, separou-se e tem uma filha, assim como Ivana, que também fazia gravações com relatos particulares.
Realidade ou fantasia, importa é o que as fitas sugerem: a tentativa, por parte da personagem, de decodificar suas experiências, organizar a turbulência íntima, dando um molde, ainda que tênue, ao caos interno. Uma busca incessante, não raro frustrada, e que talvez seja a de todo escritor na eterna peleja com as palavras.
MARCELO MOUTINHO é autor de “Somos Todos Iguais Nesta Noite” (Rocco)

ALAMEDA SANTOS

Autora: Ivana Arruda Leite
Editora: Iluminuras
Quanto: R$ 38 (160 págs.)
Avaliação: bom

VIAGEM LITERÁRIA 2010

23 Abril, 2010

Lá vamos nós!


Que elencaço! Estou em ótima companhia.
Aguardem mais detalhes, aqui, em breve.

GRANA, BUFUNFA, L’ARGENT, MONEY

22 Abril, 2010

Um dia eu ainda vou ser rica o suficiente pra dizer que dinheiro não é importante na minha vida. Por enquanto, ele está em primeiríssimo lugar na minha lista de prioridades sócio-político-filosófico-existenciais. Pela falta que faz. Pelo que instaura de desejo sem realizar.
Vivo permanentemente frente a uma lista de múltipla escolha onde só uma resposta deve ser assinalada. Esta semana eu posso: a) ir ao cinema; b) comprar um cd; c) comprar um livro; d) ir à exposição do Picasso; e) pedir uma pizza. Mudam as alternativas, mas a angústia é sempre a mesma. Os prazeres têm de ser parcelados. Um de cada vez. Se aparece uma cárie, deixo o sapato pro outro mês. Se a geladeira pifa, esquece tudo.
E o pior é que eu fico me culpando por pecados que nem cometi!
Como alguém que não tem casa própria pode gostar tanto de restaurante japonês? Como alguém que não tem seguro saúde pode ter amigos tão maravilhosos, que saem tanto e bebem tanta cerveja? Como se não bastasse, são todos escritores e lançam um livro atrás do outro (o preço dos livros você sabe por onde anda).
O problema é que eu me acostumei ao bem bom que um dia pude ter. Meu salário sempre deu pra financiar minhas frescuras, mas, de um tempo pra cá, venho empobrecendo a olhos vistos. Hoje meus caraminguás mal chegam ao fim do mês. Como pagar o celular, a TV a cabo, a internet rapidinha, a assinatura do jornal? Como viver sem isso tudo?
Tudo bem, nos dias úteis eu até encaro a marmita numa boa, mas em algum momento eu preciso achar que a vida é bela. Esse momento é quando eu, o Joca, o Bressane e o Marcelino nos reunimos pra dar risada dessa desgraceira. Se o Xico Sá aparece, melhor.
Quando estou a fim de uma emoção mais forte, entro num desses supermercados chiquérrimos e fico passeando pela sessão de produtos importados. Não tem filme pornô que me excite mais. Na saída, pego uma caixa de sabão em pó, entro no carro que completará dez anos no mês que vem e vou pensando que talvez meu pai tenha razão: eu não tenho mesmo o menor juízo. Mas será que a culpa é só minha?

(crônica publicada na coluna Mulher, da FSP, em 2004)


Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 71 other followers