É incrível a pressão que as pessoas fazem pra você andar na linha. Na linha delas, evidentemente. Na linha que elas decidiram que é a mais reta. E o louco é que vivemos numa época onde a individualidade é super valorizada. “Seja você mesmo” é o lema de todas as bandeiras. Só quem chega perto, lê o que está escrito embaixo, em letras miudinhas: e prepara-se para a porrada.
Como tenho medalha de ouro na categoria nado contra a correnteza, adoro pessoas que saem do script.
Você conhece um cara gay, pensa que ele é quase uma flor e, quando vê, ali está um homem de fazer inveja a Bruce Willis. Ou vice-versa, uma lésbica que, esta sim, é um miosótis.
Nada mais chato do que aquela pessoa que, depois de 5 minutos, você é capaz de adivinhar o que ela vai falar pelas próximas 2 horas. Um estereótipo ambulante. Se quero parecer intelectual, devo me comportar assim; se quero parecer maluca, assado; feminina, de um jeito; moderna, de outro.
Coitada da mulher que, como eu, acha que a paixão é um surto psicótico e dá graças a Deus por se ver livre desse mal. É vista como alguém que tem um parafuso a menos, ou um defeito a mais.
E a que não quer ter filhos, então? Esta é uma pedra entupindo o fluxo da vida. Pode crer, quem as condena são as que odeiam a maternidade. As pessoas odeiam quem não sofre como elas.
Se você não coloca o sexo entre as prioridades da sua vida e acha as peruas do Sex & City umas dementes, ninguém vai querer você por perto.
Além dos preconceitos grandões, que todo mundo condena e combate, existe um varejão de preconceitos menores que, nem por isso, incomodam menos.
Você já chorou ouvindo Ivan Lins? Você tem o disco de Natal da Simone? Você é fumante e não pretende parar? Você odeia escatologia, especialmente na literatura? Você acha o Pedro Cardoso o homem mais bonito da televisão? Coitada…
Em época de eleição, então, é um horror. É preciso muita coragem pra confessar o voto e agüentar o tranco.
O credo de cada um deveria ser ponto de partida para conversas, risadas e encontros imprevisíveis.
Viva a polifonia total de preferências e paladares!
(crônica publicada da Revista da Folha, em 2004)









































































