Arquivo de Julho, 2010

AVACALHAÇÃO

29 Julho, 2010

artigo de ELIANE CANTANHÊDE, hoje na Folha de São Paulo

BRASÍLIA – De Lula, sobre a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, que já recebeu 99 chibatadas e foi condenada a ser apedrejada até a morte por adultério: “Eu, sinceramente, não acho que nenhuma mulher deveria ser apedrejada por conta de… ter, sabe, traição”.
Só faltava achar que deveria…
E isso significa que ele vá atender à campanha na internet para interceder pela vida de Sakineh?
Resposta: “Um presidente da República não pode ficar na internet atendendo tudo que alguém pede de outro país. Veja, eu pedi pela francesa (…) e pelos americanos que estão lá, pedi para a Indonésia por um brasileiro, pedi para a Síria por quatro. Mas é preciso cuidado, porque as pessoas têm leis, as pessoas têm regras, as pessoas, sabe… Se começam a desobedecer as leis deles para atender o pedido de presidentes, vira uma avacalhação”.
Então, entrar na contramão internacional e se meter com o regime Ahmadinejad num acordo que ninguém levou a sério, pode. Mas voltar para a mão certa e interceder a favor de uma pobre coitada ameaçada de uma morte medonha, “vira esculhambação”?
A declaração de Lula poderia ter sido só um escorregão, não fosse o precedente. Ele já desqualificou os manifestantes iranianos que denunciavam ao mundo fraudes na eleição de Ahmadinejad como “chororô de torcida de time perdedor”, sem considerar que eles julgam sumariamente e matam os opositores sem dó nem piedade.
E no caso de Cuba? Não bastasse Lula às gargalhadas com os irmãos Castro no dia da morte do dissidente Orlando Zapata por greve de fome, depois ele comparou os que resistem à ditadura cubana a criminosos comuns no Brasil. Logo ele, que já foi perseguido por uma ditadura, teve amigos e companheiros presos, mortos e desaparecidos.
Nada disso combina com a emocionante biografia de Lula, muito menos com o Brasil que ele e todos nós queremos construir.

COLA

27 Julho, 2010

Lápis preto número dois
seguindo a trilha do desenho
que se esconde por baixo do papel de seda.

Gosto da ideia do destino
como algo assim:
previamente traçado.

Embora duvide um pouco.

CUIDADO COM OS PRETÉRITOS

26 Julho, 2010

Por mais que o passado seja hoje tão-somente um retrato na parede e, muitas vezes, ainda doa, ninguém há de negar que ele é sempre bonitinho.
Ninguém pendura feias recordações na parede. As que vão para moldura é porque merecem. Os quintais da infância, a primeira professorinha, a primeira vez que entramos no mar, o primeiro vôo de avião é sempre mais bonito do que os que vieram depois. As aves que lá gorjeiam não gorjeiam nunca mais.
Mas será que tudo era mesmo assim tão lindo? Quebra a cara quem volta pra conferir. Uma vez, passando pela casa onde morei na infância, vi uma placa: aluga-se. Parei o carro e desci arrastando a Bebel pela mão (ela era pequenininha). “Você vai conhecer a casa onde a mamãe morava quando era do seu tamanho”.
Que infeliz idéia. Conforme fui entrando, o castelo encantado foi desabando, tornando-se uma casa como outra qualquer. Pior, em péssimo estado. Paredes descascadas, tacos soltos, fios dependurados, torneiras quebradas. No quintal, aquele mesmo que a Bebel tanto me ouvira falar, só havia entulhos e mato. Cadê as árvores, as flores, os passarinhos? Era esse o quintal da mamãe? Pobrezinha. Mil vezes o play ground cimentado do prédio onde morávamos. Pelo menos tinha escorregador.
Voltei pro carro sem chão nem teto. Foi-se a minha casa da infância. Eu estava desabrigada.
O melhor a fazer é deixar o passado trancado a sete chaves e nunca mais abrir para que ele continue mais que perfeito. O tempo beatifica o tempo. Faz tudo virar outra coisa, santinho dourado que se carrega na carteira.
Se bem me lembro das aulas de português, o pretérito perfeito é aquele que muitas vezes nem acabou de acabar. Já o mais que perfeito doera, não dói mais. “Eu vivi” foi ontem. “Eu vivera” foi na outra encarnação. O que “eu amei” até que dá pra encarar, mas o que “eu amara” é melhor deixar quieto.
O jeito é seguir viagem lembrando sempre que o passado, por mais passado que seja, nos espera mais a frente, quando encostaremos a cabeça no futuro do pretérito e desfiaremos nosso rosário: eu teria sido tão feliz se… tudo teria dado tão certo se…

(crônica publicada na Revista da Folha em 2004)

OS MALAQUIAS

23 Julho, 2010

Passa da meia-noite eu já estava deitada mas levantei e liguei o computador pra registrar minhas impressões sobre Os Malaquias, romance da minha querida amiga Andréa del Fuego que acabei de ler nesse instante. As ideias que me vêm são tão gasosas e fugidias (já tô no clima) que se dormisse acordaria sem elas.
Livro de amigo é um problemão. A gente morre de medo de não gostar. Se for o caso, o que fazer? Calar-se e tocar a vida pra frente. Ele entende e te perdoa. Fica pra próxima. A vida é assim mesmo. Mas quando o amigo é muito amigo ele espera uma resposta. Nem que seja pra dizer: não gostei, parei no meio ou coisa do gênero. Bebe-se uma cerveja e toca-se pra frente do mesmo jeito. A Andrea é do segundo tipo. Daí o medo. Eu teria que falar alguma coisa. Ora, minha querida, nada mais fácil que falar desse maravilhoso romance que você entrega aos seus privilegiados leitores.

A prosa da Andréa é muito diferente da minha. De outro feitio. E ela sabe que tem coisa que eu gosto, tem coisa que eu não gosto. Mas Os  Malaquias é a “prosa da Andréa” no seu esplendor, no seu apogeu, na sua maturidade “roseana”. Andrea é lá das Minas e se bandeou totalmente pros Guimarães Malaquias na forma e no conteúdo.
Eu achei um livro dificílimo de ler.

(um pequeno parênteses: meus amigos agora deram pra esfolar o couro do leitor. Primeiro o Joca, agora a Andrea)

Dificílimo porque é uma prosa rebuscada, poética, cheia de imagens que te obrigam a reconstruir o livro nos vazios que ela vai deixando. Sim, se querem um rótulo, é literatura fantástica. Agora, imagine somar realismo mágico com uma linguagem cheia de volutas e labirintos de entontecer. Não é pra qualquer um. Eu passei dois dias suando e sangrando pelos vales, montanhas e mares que só existem na geografia enlouquecida dessa escritora que se revela como escritora singularíssima no meio da mesmice da literatura contemporânea brasileira, onde, aliás, me incluo.
Andrea é original na forma e no conteúdo. Quem hoje em dia ousa escrever um romance que não se passa num grande centro com personagens urbanóides, psicóticos, violentos e angustiados? O cenário da Andrea é outro. Assim como o tempo. Ela lida com o tempo circular dos mitos e dos contos de fada. Os personagens são de outro tamanho: muito menores (Antonio, o anão é deslumbrante) e/ou muito maiores (Geraldina é do tamanho de uma lagoa e ilumina uma cidade inteira). A voz é outra, o cheiro é outro, as estranhezas e sustos são de outra natureza. E olhe que são muitos.
Longe de mim estragar o impacto do livro mas prepare-se porque no vôo da imaginação da Andréa não tem cinto de segurança que te prenda à cadeira. Você voa com ela mundo acima ou abaixo.

Viva a Andréa del Fuego!
Corra comprar Os Malaquias e divirta-se com uma das experiências literárias mais surpreendentes da sua vida.

QUER ME VER?

22 Julho, 2010

Estava eu num domingo à tarde tomando cerveja na casa do meu amigo João Batista (lembram dele?) quando toca o celular. Eu atendo. Eu sempre atendo. “Quer me ver?”, foi a pergunta do outro lado. Voz de homem. E não era um “quer me ver” docinho. Aquilo era praticamente uma intimação policial. “Quer me ver?” Céus… reconheci a voz. O cara desapareceu há um ano e agora, às 17:30 desse domingo maravilhoso, me liga e, sem nem perguntar se eu estava bem, o que eu andava fazendo, se eu tinha compromisso para logo mais, se eu ainda me lembrava dele, dispara a pergunta: quer me ver?
Eu ainda tentei entabular um papo decente: olha, estou na casa de um amigo, me liga amanhã, tudo bem com você? Mas quem disse que ele me ouvia? Ficava repetindo a pergunta feito um papagaio: “quer me ver?”. Alto lá, as coisas não são bem assim. O cowboy abre a porta, pára no meio do saloon, mostra o revólver na cartucheira, olha pra mocinha sentada a sua frente e dispara: quer subir na minha garupa, baby? Onde estamos?
Partindo do princípio de que sujeito é quem pratica a ação, me responda: quem ligou pra quem? Quem estava querendo ver quem? Logo, o sujeito da frase não era eu, mas ele. O correto seria dizer “eu quero te ver”, concordam? Mas não, ele preferiu jogar o abacaxi nas minhas mãos. Se eu fosse encontrá-lo é porque eu queria vê-lo.
Dizem que pretensão e água benta não fazem mal a ninguém, mas a pretensão masculina, muitas vezes, beira o ridículo. Sou até capaz de ver a cena: domingo à tarde, o cara sozinho em casa, festa de encerramento das Olimpíadas, copinho de cerveja na mão, por que não? Sim, claro! Abriu a agenda e ligou. O que de melhor eu teria para fazer numa tarde linda como aquela do que ir correndo ao seu encontro?
Pois a história não terminou aí. Às 9 da noite, ele ligou de novo. “Você ainda está na rua? Quer me ver?”. Aí eu desliguei sem nem responder.
Cá entre nós, mesmo se ele tivesse dito “tô morto de saudade, quero te ver” eu não iria. Nossos encontros não foram lá grande coisa, mas pelo menos ele teria passado para a história como alguém mais razoável.

(crônica publicada na Revista da Folha, num longínquo 2004)

3 FINALISTAS DO PRÊMIO SÃO PAULO

20 Julho, 2010

Amanhã, Brisa Paim, Ivone C. Benedetti e eu, três finalistas do Prêmio São Paulo nos encontraremos na Livraria da Vila da Al. Lorena às 19h pra bater um papo com Cadão Volpato e quem mais aparecer. O tema é a voz feminina na literatura (écata) mas nós prometemos sair do script. Apareça!!!

OS MALAQUIAS

18 Julho, 2010

É com imensa alegria que anuncio aqui o lançamento do primeiro romance da minha queridíssima amiga Andrea del Fuego, Os Malaquias, pela ed. Língua geral. Todo mundo lá na 3a. feira. Liv. da Vila da Fradique Coutinho. Você nem pense em não ir!

REVISTA MENU

16 Julho, 2010

Pra me alegrar da mancada do programa, vejo que saiu aqui uma deliciosa reportagem comigo sobre comida, com uma foto tirada na cozinha da minha casa que eu adorei.

UNHAPPY HOUR

14 Julho, 2010

Na próxima 6a. feira estarei no Happy Hour, uma delícia de programa apresentado pela Astrid Fontenelle e o Fred Lessa de copiloto. Fiquei super feliz com o convite. Às 19h. Não perca!

Atualização: a produção do programa acabou de me ligar cancelando minha participação no programa. Disseram que, em função da liberação do casamento gay na Argentina, eles preferem levar quem tenha a ver com o tema. Eu fiquei me perguntando: quem disse  que eu não tenho a ver com o tema? Pô, agora que eu tinha avisado a família inteira. Sorry. Então ficamos assim: amanhã, quem tiver a ver com o tema assiste o programa.  O resto tá dispensado, certo?

MULHERES SUBTERRÂNEAS

13 Julho, 2010

Não é engraçada essa história de que, à medida que o tempo passa, nós vamos ficando cada vez mais parecidas com nossas mães?
Não sei se com os homens acontece o mesmo, se eles também vão ficando parecidos com o pai, mas nas mulheres este fenômeno é impressionante.
Com nossos filhos repetimos, em maior ou menor grau, a mãe que tivemos. Parece que o modelo se perpetua por osmose. Quando percebemos estamos sendo aquela mãe que abominávamos na adolescência.
Nós jurávamos que faríamos tudo diferente, qual o que, não dá pra fazer muito melhor do que elas fizeram.
Claro que o modelo sofre modificações e aperfeiçoamentos aqui e ali, mas o padrão é o mesmo.
Quantas vezes eu não me vi cobrando coisas da Bebel, dando bronca, implicando por bobagens exatamente como minha mãe fazia. Confesso que não fico muito encanada com isso, pois sei que ela se safa tão bem quanto eu me safava. Filho é um bicho muito esperto que vêm com manual de sobrevivência na ponta da língua. Mesmo assim não deixa de ser frustrante saber que minha filha mente pra mim como eu mentia pra minha mãe. Mesmo quando não é preciso.
Até fisicamente vamos nos assemelhando às mulheres que nos antecederam. Cada vez mais é o rosto da minha mãe, das minhas avós, das minhas tias que vejo refletido no espelho.
É como se dentro de nós houvesse camadas de mulheres subterrâneas que vão descamando com o passar do tempo. O andar da tia Nice, a fina ironia da tia Pequena, a tossinha chata da vó Iracema, a azia da vó Odila, o fervor religioso da Dirce vão se tornando visíveis pouco a pouco.
Talvez venha daí a esquisitice do rosto das mulheres que exageram na plástica ou no botox. A gente olha e não enxerga história alguma por trás. Elas parecem filhas de ninguém. Mulheres sintéticas que brotaram de algum repolho.
Quando eu me vejo tomando sopa de mandioquinha no jantar (religiosamente às 7 da noite) me dou conta que envelheci. Não havia nada que eu odiasse mais do que sopa de mandioquinha. E o pior (ou melhor) é que ainda escuto a voz da minha avó me dizendo: eu não falei que era uma delícia?


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