Por mais que o passado seja hoje tão-somente um retrato na parede e, muitas vezes, ainda doa, ninguém há de negar que ele é sempre bonitinho.
Ninguém pendura feias recordações na parede. As que vão para moldura é porque merecem. Os quintais da infância, a primeira professorinha, a primeira vez que entramos no mar, o primeiro vôo de avião é sempre mais bonito do que os que vieram depois. As aves que lá gorjeiam não gorjeiam nunca mais.
Mas será que tudo era mesmo assim tão lindo? Quebra a cara quem volta pra conferir. Uma vez, passando pela casa onde morei na infância, vi uma placa: aluga-se. Parei o carro e desci arrastando a Bebel pela mão (ela era pequenininha). “Você vai conhecer a casa onde a mamãe morava quando era do seu tamanho”.
Que infeliz idéia. Conforme fui entrando, o castelo encantado foi desabando, tornando-se uma casa como outra qualquer. Pior, em péssimo estado. Paredes descascadas, tacos soltos, fios dependurados, torneiras quebradas. No quintal, aquele mesmo que a Bebel tanto me ouvira falar, só havia entulhos e mato. Cadê as árvores, as flores, os passarinhos? Era esse o quintal da mamãe? Pobrezinha. Mil vezes o play ground cimentado do prédio onde morávamos. Pelo menos tinha escorregador.
Voltei pro carro sem chão nem teto. Foi-se a minha casa da infância. Eu estava desabrigada.
O melhor a fazer é deixar o passado trancado a sete chaves e nunca mais abrir para que ele continue mais que perfeito. O tempo beatifica o tempo. Faz tudo virar outra coisa, santinho dourado que se carrega na carteira.
Se bem me lembro das aulas de português, o pretérito perfeito é aquele que muitas vezes nem acabou de acabar. Já o mais que perfeito doera, não dói mais. “Eu vivi” foi ontem. “Eu vivera” foi na outra encarnação. O que “eu amei” até que dá pra encarar, mas o que “eu amara” é melhor deixar quieto.
O jeito é seguir viagem lembrando sempre que o passado, por mais passado que seja, nos espera mais a frente, quando encostaremos a cabeça no futuro do pretérito e desfiaremos nosso rosário: eu teria sido tão feliz se… tudo teria dado tão certo se…
(crônica publicada na Revista da Folha em 2004)
27 Julho, 2010 ás 10:44 pm |
De meu passado, dos tempos de menino infante sem infância, há algum tempo eu diria: “Que bom que meu passado passou”. Hoje, agora que escrevo e sei que posso escrever, até isso mudou. Hoje eu digo: “Que bom que meu passado passou e eu me lembro pra contar”. (sorrio).
Muito bom, Ivana Linda! Impossível ler e não comentar. Abraço do Jefhcardoso!
27 Julho, 2010 ás 5:56 pm |
Emocionante…
27 Julho, 2010 ás 12:10 pm |
Nossa, isso é uma verdade universal que pouca gente gosta de conhecer. Ficam maculando lembranças, destruindo memórias para tentar inutilmente resgatar alguma brisa do passado que nunca nunca vai voltar.
Linda crônica, Ivana!