A SORDIDEZ DAS PEQUENAS COISAS

Escrevo essas mal traçadas linhas às 6 e meia da manhã. Perdi o sono mas ganhei um livro. Que bela troca!
Passei a noite com Alessandro Garcia e seu maravilhoso livro de contos, A sordidez das pequenas coisas, publicado pela Não Editora. Sim, senhores, mais um gaúcho na praça pra carrear nossos leitores e prêmios pro sul do país.
Este é o primeiro livro de contos de Alessandro, embora ele escreva como veterano e dos bons.
É incrível a força do primeiro livro de contos de um autor quando ele é do ramo. Eu diria que todos os contos que ele escreverá pelo resto da vida estão dentro deste primeiro. Até hoje eu ainda não esgotei os contos que esbocei no Histórias da mulher do fim do século. Os contos vêm com uma força incontrolável que depois, com o passar do tempo, ele vai modulando. E o jorro de Alessandro é avassalador e nos faz cair de quatro aos seus pés. Uma linguagem densa, requintada porém sem afetação. Literatura do mais alto nível. Literatura de quem lê muito e lê bem. E ele só tem 31 anos!
Como o próprio nome diz, sua temática são as coisas pequenas da vida, do cotidiano, que ele transforma em matéria indizível e inefável (quase que pra rimar).
Seu conto Antes da noite chegar, onde ele fala de um escritor frente à página em branco, deveria ser leitura obrigatória em todas as oficinas literárias do país. É genial.
Ainda no assunto escrita e escritor, no conto Um tio ele fala de um escritor no velório de um tio e das coisas/cenas que se passam na sua cabeça, onde os sentimentos são guiados pela mão do escritor. “Não chora porque não imagina que cena virá em seguida ao choro” e por aí vai. Um primor.
No conto Epifania ele diz: “Em casa de Samara existe uma janela para se tomar decisões importantes. Sempre que é necessário entrar em acordos cruciais, definir de que forma serão feitos tais ou quais procedimentos, se toma o rumo do quarto que Samara divide com sua irmã Nanci. Daí, o ritual pede que se debrucem sobre o batente da janela como quem vai somente olhar a rua e comentar como andar gordos os vizinhos da frente e que estranho é o modo daquele sujeito pardo …”.
No conto Revolução ele conta a história de uma mulher que vai aumentando devagar a tonalidade do batom para que a chefe não perceba, pois na firma onde trabalha só é permitido batom rosa clarinho. Todo dia um tonzinho mais forte até chegar ao vermelho da paixão. E da demissão, claro. Simples e maravilhoso assim.
Mas chega de ficar fazendo citações. Compre você o seu exemplar, ou encomende à Não Editora, e divirta-se por conta própria.

São 7h10 da matina e o despertador toca sem saber que eu já acordei faz tempo. Daqui a pouco botarei o pé na rua com a firme vontade de comprar uma Olivetti Lettera pra retomar os contos que deixei guardados no meu primeiro livro.

ATUALIZAÇÃO URGENTE! Fui ao blog do Alessandro pra deixar lá um recadinho e vi que o lançamento do livro é HOJE em São Paulo, no B_arco. Que barato… Estarei lá.

2 Respostas para “A SORDIDEZ DAS PEQUENAS COISAS”

  1. Alessandro Garcia Diz:

    Sem palavras, Ivana. As tuas já foram as mais lindas. Muito obrigado.

  2. Samir Diz:

    Oi Ivana,

    Como editor, Imensamente feliz aqui por teres gostado do livro! Fizemos um vídeo de divulgação, um book trailer bem bacana, que talvez aches interessante (mando o link: http://www.youtube.com/watch?v=XrMnr1waAkA )

    Abraços,
    Samir

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