MINHA TIA, NA SALA, DE CAMISOLA

Sempre que entro num desses botecos eu me lembro da minha tia. “Um dia, todos prestaremos conta dos nossos atos. Se não é aqui, é com Deus”. Esse uísque falsificado em copo de requeijão, eu me insinuando pro escroto de bigodinho que daqui a pouco vai se aproximar e me levar pro motel ali da esquina. O puto vai querer trepar sem camisinha, tenho cara de quem topa qualquer parada. Depois vai me deixar na calçada, toda babada, onde mastigarei um chiclé pra tirar esse gosto horrível da boca e ajeitarei a calcinha à espera do próximo cliente. Mas pra falar a verdade, o julgamento de Deus não me preocupa. O que me dá medo mesmo é a cara da minha tia, que vai estar na sala, de camisola, quando eu chegar em casa pela manhã.

(conto publicado na revista PS_SP, 2002 – modificado)

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2 Respostas to “MINHA TIA, NA SALA, DE CAMISOLA”

  1. Mayara Says:

    Você sabe que eu sempre adoro quando você posta contos, né?
    Só pra verbalizar, obrigada. :)

  2. Selma Peres Says:

    Adorei, querida! Também morei com tia e a sensação de vigília parental logo na aurora me angustiava sempre!
    Beijo, Ivana!
    Solicito, por gentileza, uma visita sua: cartasdesaforadas.blogspot.com

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