VISITAS DOMINICAIS

Aos domingos, os padres nos expunham à visitação pública. Após a missa das dez, as almas caridosas da cidade escolhiam alguns de nós para passar o dia fora. Eu era o mais disputado. Talvez pelos cabelos loiros, talvez pelos olhos azuis, talvez por ser tão aplicado nos estudos, talvez por saber me comportar na casa de estranhos. Nunca fiz feio na casa de ninguém.
Os padres viam na educação de meninos carentes um investimento promissor. Um ou outro acabava ficando na congregação. Os internos não tinham do que reclamar. A comida era de primeira, os lençóis limpinhos e as nossas roupas estavam sempre em ordem: a camisa branca, a calça de brim, o agasalho, o sapato de verniz e o boné com o emblema do Internato. Nenhum de nós tinha vida tão boa até chegar lá.
As vagas eram disputadíssimas. Não havia família pobre da cidade que não quisesse ter seus filhos educados pelos jesuítas.
No começo do ano, os alunos ricos se incumbiam do material escolar dos internos. Até lápis de cor nós tínhamos.
Às seis da manhã, nos reuníamos na capela no maior silêncio. Só o que se ouvia eram os roncos das nossas barrigas famintas. O jejum era obrigatório e absoluto. Os que tinham pecados esperavam o capelão no confessionário. O meu era sempre o mesmo: fugi da aula de religião e me escondi na biblioteca. Não que eu não gostasse das aulas de religião, mas nada se comparava ao prazer de ficar entre aqueles milhares de livros que tanto me encantavam. Eu achava que naquelas páginas com lindos desenhos dourados estava escrita a história do mundo. Nem o futebol me dava tanto prazer.
Minha família pouco me visitava, mas eu não sentia falta de nada, nem de ninguém. Era como se soubesse que longe dali minha vida seria muito diferente. Nunca mais eu teria tanta proteção.
Uma das casas em que eu mais gostava de ir era na da dona Mirtes. Ela tinha um piano de cauda na sala e me deixava ficar tocando o dia inteiro. Sentada ao meu lado, punha a mão no queixo e dizia: você tem muito ouvido pra música.
Já na casa da dona Aurora o domingo não era tão divertido. Ela era professora de matemática e passava o dia me tomando a tabuada. Dona Rosa me levava ao cinema. Eu adorava filmes de caubói. Na volta, os meninos me faziam contar o filme não sei quantas vezes. Antes de dormir, eu rezava para que o próximo domingo fosse tão bom quanto aquele.
Os garotos da minha turma tornaram-se pais de família exemplares, homens trabalhadores, profissionais muito bem-sucedidos. Só eu virei ninguém. Logo eu, o mais bonito, o mais educado, o mais estudioso, o que passava horas na biblioteca e tocava piano de ouvido.
Passei a vida esperando visitas. Primeiro no internato, depois na Penitenciária do Estado e por fim neste leito de hospital, onde espero a visita da morte. Rezo para que ela chegue num domingo bem bonito e me encontre dormindo.

(conto publicado na antologia Visitas, ed. Barracuda, 2003)

5 Respostas para “VISITAS DOMINICAIS”

  1. Solange Lima Regis Diz:

    Efetivamente, linda a aventura,antes,de linguagem,em que se entra,na leitura de seus textos narrativos.Artista,subverte mesmo o que se poderia chamar de previsibilidade,com referência ao ponto de vista,diálogos,tempo,enfim,todos os elementos do discurso.
    Adquiri ontem AO HOMEM NÃO ME QUIS e eis-me aqui na fruição do “quero mais”…
    Estou ensaiando fazer um blog para expor vagidos poéticos meus,guardados em gaveta.Como começar?
    Abraço.

  2. Debora Diz:

    Triste e real…mas lindo como tudo o que você escreve.

  3. Heloisa Diz:

    Querida escritora, acho melhor você se preparar, pois se este país tiver visão e noção, serão muitas as teses leiteanas. Leite bom, integral, sorvido gota a gota, nenhuma derramada.
    Ontem a noite tive um sonho, era negra, e militante numa causa por direitos sociais, afinal, historicamente a abolição foi hoje à tarde. (fico sonhando a noite inteira, as vidas que não sou, preciso de psiquiatra pra ontem) Gostei do bandidinho loiro, fiquei me perguntando qual seria o enquadramento, me peguei achando que deve ser 171, pois até no aspecto criminal o preconceito se entranha na mente de quem acha que não tem preconceito, é preciso coragem para se olhar no espelho e questionar “por que é que eu penso assim? Estou falando estas coisas pra você ver um pouco das problemáticas que os seus temas abordam e o que despertam na mente crítica. Te adoro! Beijo.

  4. Fabíola Diz:

    Lindo e triste, Ivana.

  5. Leandro Siqueira Diz:

    Tão triste… e definitivamente humano.

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