Arquivo de Julho, 2011

MÚLTIPLA ESCOLHA

28 Julho, 2011

Clara e eu tínhamos a mesma idade e dávamos aula na mesma escola quando nos conhecemos. Uma escola gigantesca, milhares de alunos. Nos esfalfávamos de uma sala para outra, atrás do minguado salário. Giz, gritaria, aluno pra fora da sala, montanhas de prova para corrigir.
Assim que cheguei ao colégio tornamo-nos amigas. Parecíamos as únicas sobreviventes naquele mundo de gente à espera da aposentadoria, da pizza do domingo à noite, da morte. A turma da pizzaria, como os chamávamos. Nós duas, ao contrário, não entregávamos os pontos. Aos fins de semana campeávamos esperançosas pelas estepes solitárias da segunda maior metrópole do planeta. Quinhentas pessoas por metro quadrado e nós sem ninguém”. Mas entre a pizzaria e a ronda solitária, sempre escolhíamos a alternativa b de batom, beijo, boca vazia; já entre os problemáticos lobos que encontrávamos e os pacatos colegas de serviço, marcávamos a alternativa a de amor, aflição, ansiedade. Não me lembro quando me percebi apaixonada por Clara, mas a constatação deste fato deu-se sem susto. Na minha vida a paixão sempre irrompe de golfada e não costumo impedir-lhe o fluxo. Abro as comportas e deixo encher as cisternas. O difícil é fechar as torneiras depois da inundação, mas entre a seca e a inundação, a resposta correta é a alternativa c de casos complicadíssimos.
Certa manhã deixei um bilhete na caixa de correspondência de Clara:
“Acho que nossa relação dá o maior pé. Te quero. Assinale a alternativa correta:
a) esqueça essa história.
b) me esqueça.
c) I love you too.
d) deixa rolar, o que tiver que ser será.”
Temi que minha declaração pudesse chocá-la, mas não, ela sorriu ruborizada e foi tomar café. Ao toque do segundo sinal saí correndo e entrei na primeira sala que encontrei aberta. Dei a melhor aula que já se teve notícia no sistema solar: os desertos floriam, as geleiras pegavam fogo, os oceanos estavam de novos cristalinos. A devastação terminara.
Ao final do período, quando fui guardar o avental no armário, vi ali um minúsculo papelucho que rapidamente coloquei dentro da bolsa. Eu o leria em casa, depois da vodca.
Resposta absolutamente certa. No dia seguinte, enviei-lhe a questão número dois:
“Venha jantar comigo esta noite. Tomaremos vinho e morreremos de rir falando da vida alheia. Assinale a alternativa correta:
a) convite aceito, às oito estarei chegando.
b) Hoje não posso, talvez outro dia.
c) Não quero.
d) Deixa rolar, o que tiver que ser será”.
Para minha alegria, a resposta estava certa de novo. No dia seguinte enviei-lhe a terceira.
Assinale a alternativa correta:
a) Isto é um sonho e já vai passar.
b) Isto não é um sonho, mas já vai passar.
c) Isto não vai passar.
d) Deixa rolar o que tiver que ser será.
Não erra uma, a danada!
Estávamos na mesa de um bar quando rabisquei a próxima:
“Comprei um cd da Cássia Eller para ouvirmos juntas. Assinale a alternativa correta:
a) Excelente idéia, pode pedir a conta.
b) Não posso, tenho de acordar às sete.
c) Detesto a Cássia Eller.
d) Deixa rolar o que tiver que ser será”.
Resposta absolutamente certa. Celebrávamos antecipadamente a colheita que teríamos no equinócio da primavera, quando o eixo da terra estiver enfim rolado até o limite máximo de aproximação com o sol; os frutos seriam saborosíssimos tínhamos certeza. Nunca tive aluna tão aplicada em vinte anos de magistério.
Hoje, depois de tanto tempo, eu lhe passo a questão de número oitocentos e vinte e seis num guardanapo de papel:
“Assinale a alternativa correta:
a) atum
b) muzzarela
c) gorgonzola com catupiry
d) deixa rolar, o que tiver que ser será”.

(conto publicado no meu livro Histórias da Mulher do Fim do Século)

A GRANDE HONRA DA DESONRA DE J. M. COETZEE

24 Julho, 2011

Coetzee publicou Desonra em 99 mas só agora eu tive a felicidade de ler. No Brasil, esta publicação (bem como de outros prêmios Nobel) faz parte da comemoração dos 25 anos da Cia. das Letras e a edição (capa dura e coisa e tal) é um primor.

Nem preciso falar que eu pirei com o livro. MARAVILHOSÉSIMO. É da época em que ele era menos experimental e escrevia historinhas bonitinhas (por bonitinhas eu quero dizer: com começo, meio e fim) sem insertos ensaísticos que virou sua marca. Não que eu tenho algo contra os tais insertos, mas é preciso estar familiarizado com o autor para degustá-los com prazer.

Eu mesma já deixei dois livros pela metade jurando nunca mais querer vê-los na frente: Diário de um ano ruim e Um homem lento, sendo que hoje, depois de Desonra, eu peguei o Diário… e sei que vou devorá-lo extasiada.

Lição número um: se você não curtiu algum livro do Coetzee saiba que o problema está em você, nunca nele. Saia, vá se distrair, aprenda mais coisas, leia mais livros, viva e volte a ele tempos depois. Repita este processo quantas vezes forem necessárias porque um dia a porta se abre e a iluminação acontece. Aí não tem nome o que você vai sentir.

Desonra conta a história de um professor cinquentão, garanhão, que se envolve com uma aluna e é processado por isso. Ele sai da cidade e vai ao encontro da filha que mora numa fazenda com quem ele tem enormes dificuldades de se relacionar. E por aí a história anda com muitos animais e sacrifícios de animais pelo meio, com a situação pós-apartheid da África do Sul, etc etc etc Enfim, um livro lindo mas desencantado como tudo de Coetzee. Desencantado mas de um humanismo comovente.

Ele honra e ama desesperadamente esse homem/mulher em quem ele não acredita nem aposta um vintém.

Diário de um ano ruim são anotações dele (?) mescladas com ficção.

Ao falar sobre a vida de escritor, ele diz coisas como:

“mas eu duvido que consiga pô-la [uma história que ele está imaginando] no papel. Ultimamente, esboçar histórias parece ter se transformado num substitutivo de escrever histórias”

Num outro trecho, ele coloca uma citação de G. G. Marques sobre inspiração:

“eu não concebo a inspiração como um estado de graça nem como um sopro divino mas sim como uma reconciliação com o tema às custas de tenacidade e domínio… o autor atiça o tema e o tema atiça o autor… todos os obstáculos caem por terra, todos os conflitos desaparecem, nos acontecem coisas que nunca sonhamos e então não existe nada na vida melhor do que escrever”.

Olha o que ele escreve sobre J. S. Bach:

“A melhor prova que temos de que a vida é boa e, portanto, de que talvez possa existir afinal um Deus, que tem nosso bem-estar no coração, é que para cada um de nós, no dia em que nascemos, vem a música de Joahann Sebastian Bach. Ela vem como um presente, não ouvida, não merecida, grátis”.

É de morrer de lindo, não é?

A última citação é sobre os dois grandes romancistas russos:

“E fica-se grato à Rússia também, à Mãe Rússia, por colocar diante de nós com uma certeza tão inquestionável o padrão ao qual todo romancista sério deve aspirar, mesmo sem a menor chance de chegar lá: o padrão do mestre Tolstói de um lado e o do mestre Dostoiévski do outro. Com o exemplo deles somos artistas melhores; e com melhores não quero dizer mais hábeis, mas eticamente melhores. Eles aniquilam nossas pretensões mais impuras; eles esclarecem nossa visão, eles fortalecem nosso braço”.

Chega. Vão ler Coetzee. É só o que posso lhes desejar. Mas comecem do começo: Desonra, Infância, Verão, Juventude e por aí vai.

COMO CURAR UM FANÁTICO

22 Julho, 2011

Ouvi no Saia Justa a Mônica Valdwogel falando desse livro do meu amado Amós Oz e fui atrás. São três conferências que ele fez no Fórum de Literatura da Universidade de Tubingen, na Alemanha, em 2002. Por amor à causa e à humanidade, “ficharei” aqui cada uma das paletras esperando que, os que possam, corram às livrarias e comprem o livro e os que não possam tirem proveito das palavras deste servo do Senhor. Perdoem-me a exacerbação mas é exatamente o que eu penso dele.

Primeira palestra:

Caçar um bando de fanáticos nas montanhas do Afeganistão é uma coisa. Lutar contra o fanatismo é outra coisa. Temo não ter uma ideia específica sobre como apanhar fanáticos nas montanhas, mas posso fazer uma ou duas reflexões sobre a natureza do fanatismo e as maneiras de, se não curá-lo, pelo menos de contê-lo

Muito frequentemente o fanático só consegue contar até um, dois é um número muito grande para ele.

Amós conta um caso que aconteceu com seu grande amigo e romancista israelense Sammy Michael. Certa vez Sammy entrou num táxi e pegou um motorista que afirmava com veemência que era urgente que os judeus matassem todos os árabes. Com calma, ele perguntou ao motorista: “e quem você acha que deveria matar todos os árabes?”. O homem respondeu: “O que você quer dizer com isso? Nós! Os judeus israelenses! Temos a obrigação!”. Continuou o escritor: “Mas quem exatamente você pensa que deveria levar a cabo essa tarefa? A polícia? O exército? Os bombeiros? As equipes médicas?”. O motorista coçou a cabeça e disse: “Acho q deveria ser dividido por igual entre todos nós, cada um de nós deveria matar alguns deles”. Sammy então disse: “Suponha que você esteja designado para matar um certo quarteirão residencial de uma cidade e bata em todas as portas perguntando: por acaso você é árabe? Se a resposta for sim, atira nele. Logo você chega ao fim do quarteirão e pretende ir para casa depois de cumprida a missão mas você ouve o choro de uma criança no quarto andar de um prédio. Você volta lá para matá-la?”. Ao que o motorista respondeu: “Sabe, você é um homem muito cruel”. Tenho muita esperança de que injetando um pouco de imaginação  nas pessoas pode ajudá-las, talvez, a reduzir o fanatismo.

Talvez o pior aspecto da globalização seja a infantilização da espécie humana: “o jardim de infância global”, cheio de brinquedinhos e maquininhas, balas e pirulitos.

Creio que a essência do fanatismo reside no desejo de forçar as outras pessoas  a mudarem. O fanático é uma pessoa bastante generosa. É um grande altruísta. Frequentemente o fanático está mais interessado em você do que nele próprio. Ele quer salvar a sua alma, quer redimi-lo, quer libertá-lo do pecado, do erro, do fumo, da sua fé da sua falta de fé, quer melhorar seus hábitos alimentares ou curá-lo de seus hábitos de bebida ou de voto. Ele está sempre atirando no seu pescoço porque o ama de verdade, ou apertando sua garganta, caso você prove ser irrecuperável. Bin Laden essencialmente os ama. O 11 de setembro foi um empreendimento de amor. Ele o fez para o bem de vocês, ele quer mudá-los, redimi-los. Com muita frequencia, senhoras e senhores, tudo isso começa na família. O fanatismo, creio, começa em casa.

Essencialmente, a batalha entre os judeus israelenses e os árabes palestinos não é uma guerra religiosa, embora os fanáticos de ambos os lados estejam tentando ferozmente transformá-la nisso. É, essencialmente, nada além de um conflito territorial relativo à questão dolorosa: “de quem é a terra?”.Não é uma guerra religiosa, não uma guerra de culturas, não uma discordância entre duas tradições, mas simplesmente uma disputa de território em relação à questão sobre a quem pertence este lar. E acredito que ela pode ser resolvida.

Um verso do poeta israelense Yehuda Amichai: “onde temos razão não podem crescer flores”

Senso de humor é a grande cura.

Quanto mais você tem razão, mais engraçado fica.

Vocês podem contrair facilmente fanatismo, mesmo quando estiverem tentando derrotá-lo ou combatê-lo.

A avó de Amós Oz descrevia dessa forma a diferença entre judeus e cristãos:  Vamos esperar a vinda do Messias. Se ele disser: “Oi, é muito bom revê-los”, os católicos estavam certos e os judeus lhes devem desculpas. Se ele disser: “Muito prazer em conhecê-los”, os judeus estavam certos e os cristão devem desculpar-se. Entre o dia de hoje e este momento apenas viva e deixe viver.

21 de janeiro de 2002

OS BEBÊS DE THOMAS BALMÈS

21 Julho, 2011

O documentarista francês Thomas Balmès filmou quatro crianças (da Namíbia, Mongólia, Japão e Estados Unidos) por um ano e registrou no doc “Bebês”. Eu vi o do bebê da Mongólia e PIREI. Tire 15 minutos do seu dia pra ver essa joia rara.

Todos estão no youtube. Divirta-se!

(dica do Alex Anunciato, no facebook)

ÓPERA EM QUADRINHOS

20 Julho, 2011

Eu, que adoro ópera mas nunca sei o suficiente sobre o assunto, achei SENSACIONAL: ainda este mês chega às livrarias a coleção Ópera em Quadrinhos que a editora Scipione está lançando!!!! O primeiro volume é Aída, de Guiseppe Verdi. Depois virão A Flauta Mágica, de Mozart, e O guarani, de Carlos Gomes.

A adaptação e o roteiro de Aída em HQ são de Rosana Rios, autora premiada de mais de cem livros de literatura infantil, juvenil e fantástica e roteirista de TV e quadrinhos. As artes são assinadas por Klayton Luz.

Depois desses 3 eu quero ver outros 30 sendo lançados!

A maneira mais fácil de fazer uma pessoa (principalmente criança) se apaixonar por ópera é contar-lhe a historinha. E as histórias operísticas são sensacionais.

Mal vejo a hora de pegar meu exemplar.

Parabéns aos envolvidos e, em especial, ao meu querido amigo Adilson Miguel, que trabalha na casa.

O SORRISO DA DANI ARRAIS

20 Julho, 2011

A Dani Arrais é aquela menina linda que vive por aqui, que eu adoro, e que eu juro que ainda vai acontecer MUITO nesta cidade e neste país. Ela e a Luiza Voll são duas maluquetes pra lá de criativas que vivem aprontando por aí. A novidade agora é o “Invente um Sorriso” que está em exposição no FILE – Electronic Language International Festival, no Conjunto Nacional, em uma das vitrines da Livraria Cultura – até o próximo dia 28 de julho, das 10h as 20h. Diz ela: “todo mundo que passar por ali será convidado a Inventar um sorriso e fazer parte da história do nosso projeto. Você inventa um sorriso, a gente fotografa, e as imagens aparecem em looping na vitrine. Tudo pra deixar o dia mais leve, divertido e feliz! As fotos tiradas ficarão lá em exposição e também vão aparecer no Flickr Invente um sorriso.  Esperamos vocês por lá! ♥”

Não é bacana? Eu vou passar lá uma hora dessa.

Aqui o vídeo delas assistindo a matéria, ontem, no Jornal Nacional!!!

CIDA MOREIRA NO RIO

19 Julho, 2011

Esse você não pode perder!!!! A maravilhosa Cida Moreira no Solar do Botafogo. Eu já vi e é de rolar na sarjeta de bom.

DULCORA

19 Julho, 2011

Nesta rua, em algum apartamento desta rua, em algum quarto deste apartamento, há uma mulher alisando os pêlos, gemendo de amor sozinha. Longe daqui, em alguma outra rua, em outro apartamento dessa mesma rua, em frente a um televisor, há um homem fumando calmamente. Sobre a mesinha, um drops de hortelã pela metade.

(conto publicado no Ao homem que não me quis)

LISBOA BY ADILSON MIGUEL

16 Julho, 2011

Meu querido amigo Adilson foi pra Lisboa e tirou essas fotos lindas. Aliás, o dia que ele se cansar de ser editor, fotógrafo é sua profissão.  Veja aqui

LANÇAMENTO MARCELINO

15 Julho, 2011

Ontem a festa foi animada. Barco lotado

Marcelino inovou e autografou ipads, ebooks e congêneres

Felipe Lindoso deu uma mãozinha pra explicar como a coisa funciona

Rolou

Índigo, uma das primeiras a chegar, levou seu autógrafo no papel mesmo

Elisa Nazarian

amiga de Marcelino de longa data

Fernando Pernambuco, que já foi aluno e hoje é amigo do autor

Felipe Lindoso e Maria José Silveira, minha colega de letras e “acadimia”

A sensacional Fabiana Cozza, que está de disco novo prestes a ser lançado

Fabi e Edson Cruz

Índigo e Andrea, numa linda foto de Fernando Pernambuco

Ismael Canepelle, o big autor de “Os famosos e os duendes da morte”, uma das espifânicas descobertas de Marcelino

Júlia, filha do Joca, que está passando férias em SP

a marca do meu batom na bochecha dela

Arruda filho e Eunice Arruda, mãe. Ambos poetas

El Santiago Nazarian

mais soltinhos

Juliana e a boneca que eu trouxe de Lisboa pra Valentina que está pra nascer

André Sant’Anna

a entrega da boneca

André e Ronaldo Bressane

Santiago e Canepelle

Ademir Assunção, que há tempos não aparecia por aqui

Nossos representantes no planalto

Joca tentando passar anônimo na fila de autógrafos

Ela, a musa

e os sapatinhos que eu adoro (“Ivana, você já fotografou mil vezes esse sapato”)

Marçal Aquino

atendendo a pedidos, chegou mais pertinho de Santiago

o casal às vésperas da chegada de Valentina

Adilson

o mapa de Santa Catarina no braço do Santiago

“eu fiz isso aqui de bicicleta”

Marcelino autografou iphone também

o que é a tecnologia, fala a verdade…

Joca, Júlia e amiguinha da Júlia

Depois fomos pro Genésio. Bebel, que estava treinando Kung Fu, nos encontrou lá

não sei porque mas ontem eu tava com mania de tirar sem flash. Uma porcaria

meninas escolhendo pizza

Marcelino eufórico depois da sessão de autógrafos. Mas foi embora rapidinho porque hoje tem lançamento em Garanhuns (PE)

Lulina apareceu para um beijo tardio

Ramon Mello, poeta e ator carioca que está encenado “Todos os cachorros são azuis” de Rodrigo Souza Leão

fim de festa


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