COMO CURAR UM FANÁTICO

Ouvi no Saia Justa a Mônica Valdwogel falando desse livro do meu amado Amós Oz e fui atrás. São três conferências que ele fez no Fórum de Literatura da Universidade de Tubingen, na Alemanha, em 2002. Por amor à causa e à humanidade, “ficharei” aqui cada uma das paletras esperando que, os que possam, corram às livrarias e comprem o livro e os que não possam tirem proveito das palavras deste servo do Senhor. Perdoem-me a exacerbação mas é exatamente o que eu penso dele.

Primeira palestra:

Caçar um bando de fanáticos nas montanhas do Afeganistão é uma coisa. Lutar contra o fanatismo é outra coisa. Temo não ter uma ideia específica sobre como apanhar fanáticos nas montanhas, mas posso fazer uma ou duas reflexões sobre a natureza do fanatismo e as maneiras de, se não curá-lo, pelo menos de contê-lo

Muito frequentemente o fanático só consegue contar até um, dois é um número muito grande para ele.

Amós conta um caso que aconteceu com seu grande amigo e romancista israelense Sammy Michael. Certa vez Sammy entrou num táxi e pegou um motorista que afirmava com veemência que era urgente que os judeus matassem todos os árabes. Com calma, ele perguntou ao motorista: “e quem você acha que deveria matar todos os árabes?”. O homem respondeu: “O que você quer dizer com isso? Nós! Os judeus israelenses! Temos a obrigação!”. Continuou o escritor: “Mas quem exatamente você pensa que deveria levar a cabo essa tarefa? A polícia? O exército? Os bombeiros? As equipes médicas?”. O motorista coçou a cabeça e disse: “Acho q deveria ser dividido por igual entre todos nós, cada um de nós deveria matar alguns deles”. Sammy então disse: “Suponha que você esteja designado para matar um certo quarteirão residencial de uma cidade e bata em todas as portas perguntando: por acaso você é árabe? Se a resposta for sim, atira nele. Logo você chega ao fim do quarteirão e pretende ir para casa depois de cumprida a missão mas você ouve o choro de uma criança no quarto andar de um prédio. Você volta lá para matá-la?”. Ao que o motorista respondeu: “Sabe, você é um homem muito cruel”. Tenho muita esperança de que injetando um pouco de imaginação  nas pessoas pode ajudá-las, talvez, a reduzir o fanatismo.

Talvez o pior aspecto da globalização seja a infantilização da espécie humana: “o jardim de infância global”, cheio de brinquedinhos e maquininhas, balas e pirulitos.

Creio que a essência do fanatismo reside no desejo de forçar as outras pessoas  a mudarem. O fanático é uma pessoa bastante generosa. É um grande altruísta. Frequentemente o fanático está mais interessado em você do que nele próprio. Ele quer salvar a sua alma, quer redimi-lo, quer libertá-lo do pecado, do erro, do fumo, da sua fé da sua falta de fé, quer melhorar seus hábitos alimentares ou curá-lo de seus hábitos de bebida ou de voto. Ele está sempre atirando no seu pescoço porque o ama de verdade, ou apertando sua garganta, caso você prove ser irrecuperável. Bin Laden essencialmente os ama. O 11 de setembro foi um empreendimento de amor. Ele o fez para o bem de vocês, ele quer mudá-los, redimi-los. Com muita frequencia, senhoras e senhores, tudo isso começa na família. O fanatismo, creio, começa em casa.

Essencialmente, a batalha entre os judeus israelenses e os árabes palestinos não é uma guerra religiosa, embora os fanáticos de ambos os lados estejam tentando ferozmente transformá-la nisso. É, essencialmente, nada além de um conflito territorial relativo à questão dolorosa: “de quem é a terra?”.Não é uma guerra religiosa, não uma guerra de culturas, não uma discordância entre duas tradições, mas simplesmente uma disputa de território em relação à questão sobre a quem pertence este lar. E acredito que ela pode ser resolvida.

Um verso do poeta israelense Yehuda Amichai: “onde temos razão não podem crescer flores”

Senso de humor é a grande cura.

Quanto mais você tem razão, mais engraçado fica.

Vocês podem contrair facilmente fanatismo, mesmo quando estiverem tentando derrotá-lo ou combatê-lo.

A avó de Amós Oz descrevia dessa forma a diferença entre judeus e cristãos:  Vamos esperar a vinda do Messias. Se ele disser: “Oi, é muito bom revê-los”, os católicos estavam certos e os judeus lhes devem desculpas. Se ele disser: “Muito prazer em conhecê-los”, os judeus estavam certos e os cristão devem desculpar-se. Entre o dia de hoje e este momento apenas viva e deixe viver.

21 de janeiro de 2002

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Uma resposta to “COMO CURAR UM FANÁTICO”

  1. Isabel Says:

    Acabei de assitir ao Saia Justa e a Moniva Waldvogel voltou a mencionar o livro citado. Achei ótimo o seu fichamento que logo me esclareceu à respeito dos aspectos básicos do livro. Obrigada, Ah, e não posso deixar de comentar: que espetáculo a avó do Amós Oz… rsrs… Genial a reflexão dela!
    Obrigada mais uma vez. Abç, Isabel.

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