Crônica publicada na revista Globo Rural que está nas bancas
No final da década de 50, quando o Brasil começava a querer virar gente grande e os centros urbanos atraíam as populações do interior, meu pai e boa parte dos meus tios abandonaram os cafezais, o gado, os porcos, as galinhas, a enxada, o trator, as sementes e foram pra capital acreditando que lá estava a máquina de fazer dinheiro. Uns se deram bem, outros nem tanto. Muitos ficaram em São Paulo para sempre. Outros, como meus pais, depois de um tempo preferiram voltar para o interior e curtir o fim da vida com mais tranqüilidade.
Eu tinha sete anos quando saí de Araçatuba e me mudei pra capital. Na escola, eu fazia o possível para não parecer caipira mas tudo me denunciava: o sotaque, o vocabulário (na minha casa se tomava “café” no meio da tarde. Na casa das minhas amigas se tomava “lanche”), os hábitos (ninguém aqui almoçava às onze e meia nem jantava às sete da noite), as roupas (os vestidos das meninas paulistanas não eram feitos pela própria mãe). Estou longe da Noroeste há mais de cinqüenta anos e ainda sou tida como alguém que “veio do interior”. A gente não perde isso nunca.
Meus avós maternos moravam em Lins, os paternos, em Araçatuba. Eu vivia entre as duas cidades. Todos tinham sítios, chácaras, fazendas. Nem sei quantas vezes perguntei para o meu pai a diferença entre cada um. Ele me explicava: sítio é até tantos alqueires, chácara de tanto a tanto, fazenda é a maior de todas.
A lembrança mais remota da minha infância é de uma fazenda em Lins, onde morei por volta dos quatro anos. Eu me lembro do vastíssimo horizonte, do sol quente torrando a pele, do sangue que saía do nariz por causa disso, das cadeiras no terraço no final da tarde, do grito lancinante da minha mãe ao dar de cara com uma cobra deitada sobre a sua cama.
O vô Zico, que morava em Lins, tinha uma chácara onde criava cavalos de corrida. A Brasa tinha um ponto de interrogação no meio da testa e chegou a ganhar várias corridas em Guaiçara. No fogão a lenha, a vó Iracema fazia maravilhas como nunca comi igual. Tudo na banha de porco. Naquela época não fazia mal nenhum.
À tardinha, depois do banho, eu e minhas primas íamos esperar a janta na calçada ao som da Ave-Maria que tocava no alto-falante da igreja.
De Lins, fomos para Araçatuba. Lá, o vô Bento tinha um sítio cheio de amoreiras. Eu adorava passar amora nos lábios pra fazer de conta que era batom. A vó Odila estava sempre na rede, chupando laranja, com o ventilador na cara, morta de calor. Era raro o dia em que eu não fosse para o sítio de alguém. Mataburros, porteiras e cercas de arame farpado faziam parte do meu cotidiano.
Em São Paulo, tudo mudou. Muito de vez em quando aparecia uma festa junina no sítio de alguma amiga. Mas os sítios daqui não eram como os de lá. Eles eram gramados, com piscina, lajotas no piso, sem uma sujeirinha no chão. Tudo verdinho e florido. Nada a ver com a rusticidade dos sítios que eu conhecia. Ah, e conheci mais uma categoria: a casa de campo.
Por sorte, depois de um tempo, meu pai comprou uma chácara em Caucaia do Alto e a família tinha de novo onde se reunir para festas juninas, churrascos e comilanças em geral. A única diferença era a temperatura, em Caucaia faz um frio de doer. Mas a alegria de estar com o pé na terra esquentava nossos corações.