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O TAMANHO DE CADA LUGAR

11 Agosto, 2009

Crônica publicada na revista Globo Rural que está nas bancas

No final da década de 50, quando o Brasil começava a querer virar gente grande e os centros urbanos atraíam as populações do interior, meu pai e boa parte dos meus tios abandonaram os cafezais, o gado, os porcos, as galinhas, a enxada, o trator, as sementes e foram pra capital acreditando que lá estava a máquina de fazer dinheiro. Uns se deram bem, outros nem tanto. Muitos ficaram em São Paulo para sempre. Outros, como meus pais, depois de um tempo preferiram voltar para o interior e curtir o fim da vida com mais tranqüilidade.
Eu tinha sete anos quando saí de Araçatuba e me mudei pra capital. Na escola, eu fazia o possível para não parecer caipira mas tudo me denunciava: o sotaque, o vocabulário (na minha casa se tomava “café” no meio da tarde. Na casa das minhas amigas se tomava “lanche”), os hábitos (ninguém aqui almoçava às onze e meia nem jantava às sete da noite), as roupas (os vestidos das meninas paulistanas não eram feitos pela própria mãe). Estou longe da Noroeste há mais de cinqüenta anos e ainda sou tida como alguém que “veio do interior”. A gente não perde isso nunca.
Meus avós maternos moravam em Lins, os paternos, em Araçatuba. Eu vivia entre as duas cidades. Todos tinham sítios, chácaras, fazendas. Nem sei quantas vezes perguntei para o meu pai a diferença entre cada um. Ele me explicava: sítio é até tantos alqueires, chácara de tanto a tanto, fazenda é a maior de todas.
A lembrança mais remota da minha infância é de uma fazenda em Lins, onde morei por volta dos quatro anos. Eu me lembro do vastíssimo horizonte, do sol quente torrando a pele, do sangue que saía do nariz por causa disso, das cadeiras no terraço no final da tarde, do grito lancinante da minha mãe ao dar de cara com uma cobra deitada sobre a sua cama.
O vô Zico, que morava em Lins, tinha uma chácara onde criava cavalos de corrida. A Brasa tinha um ponto de interrogação no meio da testa e chegou a ganhar várias corridas em Guaiçara. No fogão a lenha, a vó Iracema fazia maravilhas como nunca comi igual. Tudo na banha de porco. Naquela época não fazia mal nenhum.
À tardinha, depois do banho, eu e minhas primas íamos esperar a janta na calçada ao som da Ave-Maria que tocava no alto-falante da igreja.
De Lins, fomos para Araçatuba. Lá, o vô Bento tinha um sítio cheio de amoreiras. Eu adorava passar amora nos lábios pra fazer de conta que era batom. A vó Odila estava sempre na rede, chupando laranja, com o ventilador na cara, morta de calor. Era raro o dia em que eu não fosse para o sítio de alguém. Mataburros, porteiras e cercas de arame farpado faziam parte do meu cotidiano.
Em São Paulo, tudo mudou. Muito de vez em quando aparecia uma festa junina no sítio de alguma amiga. Mas os sítios daqui não eram como os de lá. Eles eram gramados, com piscina, lajotas no piso, sem uma sujeirinha no chão. Tudo verdinho e florido. Nada a ver com a rusticidade dos sítios que eu conhecia. Ah, e conheci mais uma categoria: a casa de campo.
Por sorte, depois de um tempo, meu pai comprou uma chácara em Caucaia do Alto e a família tinha de novo onde se reunir para festas juninas, churrascos e comilanças em geral. A única diferença era a temperatura, em Caucaia faz um frio de doer. Mas a alegria de estar com o pé na terra esquentava nossos corações.

CRÔNICAS DO LIVRO QUE NÃO MAIS EXISTIRÁ – 10

15 Maio, 2008

QUER ME VER?

Outro dia eu estava na casa de um amigo quando tocou o celular. A pessoa do outro lado, voz masculina, antes mesmo de dizer olá, boa tarde, como tem passado?, tascou uma pergunta à queima-roupa: “Quer me ver?”. Assim, sem a menor delicadeza nem educação. Aquilo certamente não era um convite. Estava mais pra intimação policial. Reconheci a voz. Era um sujeito com quem eu havia saído duas vezes e desapareceu depois do segundo encontro. Pois não é que depois de quase um ano de sumiço, o cara tem a cara de pau de invadir meu domingo maravilhoso e tentar estragá-lo?
Respondi civilizadamente: “estou na casa de um amigo, me liga amanhã. Tudo bem com você?”. Mas quem disse que ele me ouvia? Ficava repetindo feito um papagaio: “quer me ver?”. Alto lá! As coisas não são bem assim.
O cowboy abre a porta, pára no meio do saloon, olha pra mocinha, saca o revólver da cartucheira e faz um sinal com a cabeça: come on, baby. Onde estamos?
Pense comigo. Quem ligou pra quem? Foi ele, não foi? Portanto, ele é o sujeito da oração, logo, o correto seria dizer: “eu quero te ver”. Mas não, ele preferiu jogar rapidinho o abacaxi no meu colo.
Sou capaz de ver a cena: domingo à tarde, o cara com uma cerveja ao lado, sozinho em casa, vendo televisão, por que não?. O que ela teria de melhor pra fazer numa tarde de domingo do que vir correndo ao meu encontro? É muita pretensão, fala a verdade.
E a história não terminou. Às 9 da noite, ele ligou de novo. “Você ainda está na rua? Quer me ver?”. Aí eu perdi a paciência e desliguei na cara dele. Cá entre nós, eu não iria ao seu encontro nem se ele me pedisse na maior fineza. O rapaz não tinha deixado boas recordações. E não é que ele conseguiu piorar ainda mais uma história que já era ruim? Tem gente que tem esse talento.

CRÔNICAS DO LIVRO QUE NÃO MAIS EXISTIRÁ – 9

28 Abril, 2008

PARA TODO TIPO DE MULHER

“Um sabonete feito para todo tipo de mulher”. Olho com atenção os tipos apresentados no anúncio da TV e percebo que não me encaixo em nenhum. Limpei as lentes dos óculos. Talvez estivessem embaçadas. Procurei de novo e nada. Se eles dizem que a sebosa maravilha é para todo tipo de mulher, cadê eu? Cadê o meu tipo? Demora uns segundos pra cair a ficha. Tolinha. Na minha santa ingenuidade pensei que quando os anunciantes diziam “todo tipo de mulher” estavam se referindo a todo tipo de mulher mesmo. Mas não. Eles estão pensando apenas nas mulheres bonitas. Sejam elas gordinhas, magrinhas; na faixa dos 30, 40, 50 ou 60; loiras, morenas, ruivas, grisalhas; negras, mulatas, japonesas. Mas todas lindas. As feias estão excluídas do todo tipo de mulher. Para os vendedores de sabonete, a beleza é o requisito básico para ser incluída na categoria Mulher. As demais que se lavem com um sabão qualquer, de cinza, caseiro, baratinho, vagabundo. Ou simplesmente não se lavem. Pra que que mulher feia precisa tomar banho? Pra quem a feiúra precisa se limpar?

CRÔNICA DO LIVRO QUE NÃO MAIS EXISTIRÁ – 8

16 Abril, 2008

DESANOREXIA

Esse é o nome da doença que inventei. Também poderia ser anti-anorexia ou qualquer outro sufixo que dê idéia de contrário.
As pessoas desanoréxicas são aquelas que se vêem magrinhas e esbeltas mesmo estando uma baleia. Se alguém aconselha dieta, elas se enfurecem:
- Imagine! Nunca estive tão bem!
A desanorexia faz com que, ao me olhar no espelho, eu veja uma sílfide e não essa gorda que vocês enxergam. Tudo bem que minhas roupas não me servem mais (já cheguei no estágio do moleton), meus joelhos rangem sob o peso do meu corpo, tenho dormido mal e acordado com falta de ar, mas ninguém me convencerá a fazer dieta. Nem pensar em abandonar o arroz com feijão, o pão quentinho com manteiga à beça, o x-bacon com muito bacon, a feijoada, a pizza, a panela de brigadeiro. Quer saber? Me esqueçam e sumam daqui. Me deixem em paz. Quem são vocês? Já falei que não preciso de ajuda. Quem os chamou aqui? Êi, larguem meu braço, me ponham no chão. Pra onde estão me levando? O que é isso? Socoooooooooooooooorro!

CRÔNICA DO LIVRO QUE NÃO MAIS EXISTIRÁ – 7

8 Abril, 2008

MARMITA

Fui chefe desta seção até o ano passado. Mandava e desmandava em todo mundo por aqui. Mas aí mudou o presidente e o que entrou nomeou outro Chefe de Departamento que nomeou outro Chefe de Seção que sentou na minha mesa e me jogou naquela escrivaninha lá no fundo, perto do banheiro. Como sou concursada, eles não podem me mandar embora. Bendita estabilidade! Melhor seria se me mandassem para outro andar, ou outra filial, mas quem disse que eles abrem mão do prazer de me humilhar? O chefete esperou tanto por esse dia. Daqui de onde estou, vejo-o fazendo uma besteira atrás da outra e fico quieta. Solidariedade é algo impensável nas repartições públicas. Eu também tive que aprender tudo sozinha. Os barnabés se divertem ao me verem fazendo palavras cruzadas pra passar o tempo. Deixa estar. Daqui a quatro anos teremos eleições de novo e volta tudo ao que era antes. Tem sido assim há séculos. Com a queda vertiginosa de salário que sofri, sou obrigada a trazer marmita e comer no refeitório, junto com os zeladores e faxineiras. Eles não conseguem esconder o riso de escárnio. Não que a marmita seja motivo de vergonha, pelo contrário, ela é a prova da minha retidão. Tivesse eu aceitado as propinas que me eram oferecidas, as falcatruas, e hoje não estaria nesse constrangimento. Mas deixa estar, a vingança é um prato que se leva no tupperware. Alguém me avisa que a salada comunitária, dois reais por semana. Eu topo. Pelo menos da alface cozida eu fico livre.
No refeitório tem uma televisão que fica ligada o tempo todo. A imagem não é das melhores mas dá pra ouvir as notícias do jornal do meio-dia. Daqui a quatro anos eu estarei sentada neste mesmo lugar quando o locutor anunciar que o atual partido foi derrotado e vai ceder a vez ao outro, o que me devolverá o cargo, a escrivaninha e o almoço nos bons restaurantes da redondeza. Isso se nada acontecer ao presidente até lá. Ninguém sabe o que uma marmita é capaz de fazer na vida de uma pessoa.

CRÔNICAS DO LIVRO QUE NÃO MAIS EXISTIRÁ – 6

3 Abril, 2008

PRETÉRITO PERFEITO

Ninguém pendura feias recordações na parede da sala nem guarda na memória o que não merece. A lembrança da cidade natal, da primeira professora, os quintais da infância, a jabuticabeira que nos guardava em sua sombra, aquela boneca de trança, tudo vai ficando mais bonito à medida que o tempo passa. Passado é assim: quanto mais distante, mais idílico. Acredite, nada era tão bonito quanto imaginamos que fosse. E ai de você se for conferir. Vai morrer de tristeza. Nunca faça o que eu fiz. Certa vez, passando por uma casa onde morei na infância e vendo ali uma placa de “aluga-se” parei imediatamente o carro, catei minha filha pela mão e entrei. Dispensei a ajuda do rapaz da imobiliária se prontificou a me acompanhar. Pode deixar, que essa eu conheço bem. Com passos trêmulos e o coração batendo forte fui entrando pelos corredores, no quarto que era meu, no dos meus pais, na cozinha, na sala de visitas. Que idéia infeliz! Eu acabara de demolir o lugar que me serviu de refúgio durante esses anos todos. Meu castelo encantado ia se desmanchando para dar lugar a uma casa comum, pequena, com paredes sujas, tacos soltos, fios pendurados do teto, torneiras enferrujadas, vazamento, mofo, bolor, mau cheiro. Nem o quintal sobrou. O meu sítio do pica-pau amarelo era um cimentado cinza e vazio onde mal cabíamos eu e minha filha. Cadê as árvores, as flores, as frutas, os passarinhos? Nunca mais. Aprendi a lição: o passado é um pacote que deve ser conservado fechado para sempre. Não cometa a imprudência de abri-lo. Ele se desfaz sob os holofotes do presente.

CRÔNICAS DO LIVRO QUE NÃO MAIS EXISTIRÁ – 5

30 Março, 2008

CIRCULAR OU EM LINHA RETA?

Quando você pensa no tempo, você o imagina como uma linha reta que vai sempre pra frente ou um círculo que gira, gira e não sai do lugar?
Para nós, ocidentais “esclarecidos”, iluminados pela luz da razão, a vida corre como um rio onde ninguém se banha duas vezes; ou uma estrada que avança rumo ao futuro sem possibilidade de retorno. Mas nem sempre foi assim. Ou não é assim pra todo mundo.
Os mitos e as religiões primitivas, por exemplo, vêem o tempo como um círculo. Pra eles, a vida não é senão a repetição de situações já vividas anteriormente, por você ou algum antepassado seu. 
Nas aulas do grande e querido mestre Reginaldo Prandi, aprendi que ao jogar búzios o pai-de-santo vê não só o problema que está te afligindo no presente, como também (e principalmente) o que você fez para solucioná-lo no passado. Aí é só repetir o procedimento (fazer uma oferenda, um sacrifício, etc) e a coisa se resolve. Essas são as vantagens de se conceber o tempo como o eterno retorno. Não há nada de novo nem de inesperado no front. 
E as vantagens não param aí: as tarefas que o pai-de-santo te pede pra fazer são tantas (a lista das ervas pra comprar, os banhos pra tomar, as velas pra acender, as comidas pra fazer) que você começa a se distanciar do problema já na preparação. Ora, o distanciamento (tal como Freud veio a confirmar tempos depois) é o primeiro passo para a solução de qualquer problema. Bingo lá e cá.
Sinceramente, eu acho essa idéia muito reconfortante. Quer coisa melhor do que saber que um dia eu já passei por isso que tanto me angustia e consegui encontrar a solução? O problema é lembrar qual foi.
Vou revirar agora mesmo minhas gavetas até encontrar o telefone daquele pai-de-santo que anotei num velho caderninho que deve estar perdido por aí. Pra quem vive se metendo nas mesmas enrascadas, essa parece ser a melhor indicação.

CRÔNICAS DO LIVRO QUE NÃO MAIS EXISTIRÁ – 4

23 Março, 2008

A FLECHA E O BUMERANGUE

O sonho de toda mãe é que o filho se liberte e voe pra bem longe, desde que a leve junto embaixo das suas asas. Duvido que exista no mundo uma mãe que se separe do filho numa boa, de livre e espontânea vontade. A gente faz porque é obrigada e porque leu nos livros e revistas femininas que é assim que tem que ser.
Que é injusto, é. Passamos a vida educando os pimpolhos com esmero, dando-lhes o melhor que podemos, desembaraçando seus cachinhos, limpando sua boquinha, levando-os de um lado pro outro, corrigindo a lição de casa, buscando-os nas festas no meio da madrugada, pra quê? Eles crescem, alçam vôo e nos deixam sozinhos no ninho vazio.
As mulheres da minha geração devem se lembrar das palavras de Gibran Kalil Gibran, o profeta dos anos 70: “Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem. Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, porque eles têm seus próprios pensamentos. (…) Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas”.
Acreditamos nas palavras d’O profeta e lançamos nossos rebentos ao Deus dará.
Tivesse eu um filho hoje e o lançaria ao mundo num bumerangue pra ter a certeza (e a alegria) da volta. Tarde demais. A maternidade já não se coloca no meu horizonte e minha filha manda lembranças e um recado: “passo aí quando puder”.

CRÔNICAS DO LIVRO QUE NÃO MAIS EXISTIRÁ – 3

18 Março, 2008

MEU AVÔ BENTO

Na mão direita, faltava o anular. O dedo fora moído junto com a carne nos tempos em que tinha açougue. Entre o indicador e o médio, o Beverly sempre queimando. A cinza aumentando, tomando quase o cigarro inteiro. Só então, com muito cuidado, ele a depositava no cinzeiro. Beverly sem filtro. Pulmão preto inalando fumaça desde menino, menino fumando escondido do pai no cafezal.
Não tinha coisa mais gostosa do que passear no Chevrolet do meu avô, pneu faixa branca, só nós dois, eu no banco da frente como gente grande e ele me fazendo todas as vontades.
No quarto, um cofre bem grande com o nome dele escrito na porta. Um cofre que o acompanhou a vida toda. Em cima do cofre, uma lamparina acesa para Nossa Senhora Aparecida, a santa de sua devoção.
Quantas vezes não fui com ele à Aparecida agradecer de perto os milagres da santa. Na saída, a família inteira na porta da igreja fazendo pose para a fotografia. Tenho as fotos até hoje, desbotadas, família quase desaparecida. Quem pensou que tamanha fé fosse desbotar desse jeito?
Os filhos iam ver o pai todas as noites. Eram muitos, mais os netos, as noras, os genros, a prosa ficava animada. Quando o calor da discussão aumentava além da conta, bastava um olhar do meu avô para que todos pusessem água na fervura e guardassem a ira de novo na gaveta.
Tinha a tia que tocava piano, a que fazia o café, a que passou a vida fazendo enxoval sem nunca encontrar o noivo, a que rezava no quarto pelos pecados de todos nós, e eu, no meio de tudo isso, querendo que o tempo passasse depressa pra sentar no sofá, usar colar de pérola, salto alto, dar risada bem alto e fumar.
Meu avô era homem de pouquíssimas palavras. De vez em quando, dava um sorriso ou uma risadinha abafada. Acenava a cabeça quando concordava e calava-se nas discordâncias.
No fim da vida, quando já não levantava da cama, eu soube que ele carregava no peito uma grande tristeza: nunca tinha feito a primeira comunhão. Não fez quando menino, cresceu, ficou com vergonha, deixou pra lá. Passou a vida com vontade de compartilhar o pão sem poder, embora nunca tenha faltado à missa. Na hora da comunhão, minha avó ia lá pra frente enquanto ele ficava no banco, esperando. A vida inteira passando por pecador.
A coisa era fácil de resolver. Chamei um padre meu amigo, contei-lhe a história e ele foi com muito gosto ouvir a primeira confissão do avô moribundo.
Ficamos na sala enquanto os dois estavam no quarto, de portas fechadas. Logo ele veio nos chamar:
- Venham todos comemorar, seu Bento acaba de fazer a primeira comunhão!
Quando entramos, meu avô cobria o rosto com as mãos para que não o víssemos chorando.

CRÔNICAS DO LIVRO QUE NÃO MAIS EXISTIRÁ – 2

14 Março, 2008

A BOLHA

Sempre que vou a uma festa familiar, dessas que reúnem pessoas de várias gerações que não se vêem há muito tempo, eu me sinto dentro de uma bolha, imersa no tempo da folhinha do Sagrado Coração de Jesus que havia pendurada atrás da porta na casa da minha infância; nadando numa piscina de DNA onde sou de novo criança à espera do futuro que vejo estampado no rosto dos adultos. Será que um dia eu também vou ficar assim?
Eis porque me pego inúmeras vezes olhando para a porta esperando que por ela entre o avô que morreu há tanto tempo, a tia que fazia o melhor omelete do mundo, o tio que gostava de puxar minhas tranças, hoje desfeitas e embranquecidas.
Dentro da bolha somos todos substantivos, reduzidos à essência. Os adjetivos ficam pendurados do lado de fora. Só os pegamos na saída.
Tenho a impressão de que só a família da gente sabe quem a gente é de verdade. Ainda bem.
A festa foi animadíssima e durou dois dias. Mais de sessenta pessoas num rancho às margens do rio Dourado, comemorando os oitenta anos do meu pai.
Nossa, como você cresceu! Parece que foi ontem. É sua filha? Não, minha neta. Você já é avô? A última vez que a vi, ela nem andava. E tome churrasco, e tome refrigerante, cerveja, e tome as malditas gozações e apelidos, e tome banho de piscina e criança atropelando os pés dos adultos.
Amanhã pensaremos no colesterol, no adoçante artificial, nos diets e lights a que estamos submetidos. Hoje vamos fazer de conta que esbanjamos saúde e que a morte não nos alcançará, apesar dos abusos cometidos.
Numa festa de família católica não pode faltar missa ao ar livre e padre agradecendo a Deus por estarmos todos aqui reunidos. Que Ele abençoe a todos os presentes e, em especial, ao aniversariante e seus filhos. Oba! Tô nessa.
No finzinho do domingo, antes que o sol se ponha, despedimo-nos com abraços apertados e promessas que jamais serão cumpridas.
Me liga, hein? Claro! Quando for a São Paulo não deixe de me procurar. Anota meu telefone. Você tem email? Não esquece de me mandar as fotos. Promete? Prometo.
E agora? A festa acabou, a bolha estourou. O que será de nós, José?