Meus beijos
Ah, meus beijos!
Entraste pelo buraco da noite
e roubaste cada um
dos que eu guardava escondido
onde só tu possuías a chave.
Sorriste de um jeito torto
e me levaste pela mão
até a porta
que só tu possuías a chave.
Cortaste o cordão que prendia
a cobra que dormia no teto
e ela caiu, enroscando-se no meu corpo,
apoderando-se do sexo
que abriste.
A chave.
Rimos, rimos muito quando o sol nasceu.
Um riso aflito,
um pouco nervoso
e um nadinha gritado
como são os risos após o gozo.
Após o riso, após o gozo
pulaste a janela por onde entraste
e pelo mesmo rastro que vieste
sumiste,
por aquela minúscula fresta que existe
entre as tais noites alucinantes
e o restante dos dias
sem graça nenhuma.
O chá que faço agora
é suficiente para uma xícara
e o outro lado da cama está gelado.
O banho não tem cheiro
e os braços se estendem atravessando paredes
inutilmente.
Tudo em vão.
Tudo é vão.
Oco.
Eu agora sou só pressentimento
bicho acuado à espera da morte
corpo à espera do corte
pendurado no fio que ainda prende
a velha cobra vermelha e esfaimada
que dorme de novo grudada no teto.
(A chave)
Eu também durmo.
Sem canção indecifrável ao ouvido
e sem ninguém que expulse os imensos gigantes
que puxam meu pé e me fazem horríveis caretas
a noite inteira.
A chave,
por favor,
a chave.