Arquivos para a Categoria ‘poesia’

O PASSADO NOS ASSOMBRA

7 Outubro, 2009

O Marcos Nogueira, pessoa queridíssima, poeta e otorrino, marido da minha prima Neide Rigo, me mandou um email que me fez voltar 30 anos ou mais. Num sebo da Heitor Penteado ele encontrou uma antologia poética, deve ser de 1981, com quatro poemas meus que eu nem lembrava mais que existiam. Vendo-os depois de tanto tempo, não me envergonhei. Divido a alegria com vocês, já que o Marcos fez a gentileza de fotografá-los.

Ivana 1

Ivana 2

Ivana 3

Ivana 4

A URSA E SUA FILHA

29 Agosto, 2009

Além dos peixes,
passam pela garganta da ursa
as estrelas de todas as constelações
e a água dos seis oceanos.

As canções de ninar,
as cantigas de todas as mães
também vêm da barriga da ursa maior.

DO TEMPO

13 Agosto, 2009

O tempo transformou-me
nesta pedra redonda
de mil olhos
que capta coisas
armazena-as no miolo
e se locomove com alguma dificuldade.

Sinto nos poros o visco do prazer
mas minhas veias
demasiado grandes
já não retêm emoção
nem se arrepiam.

Em breve os amores se me vão.
Nada deixam além de um cravo
no defunto coração.

(poesia muito velhinha pra salvar a tarde e matar saudade)

O SALTEADOR

20 Março, 2009

Meus beijos
Ah, meus beijos!
Entraste pelo buraco da noite
e roubaste cada um
dos que eu guardava escondido
onde só tu possuías a chave.

Sorriste de um jeito torto
e me levaste pela mão
até a porta
que só tu possuías a chave.

Cortaste o cordão que prendia
a cobra que dormia no teto
e ela caiu, enroscando-se no meu corpo,
apoderando-se do sexo
que abriste.

A chave.

Rimos, rimos muito quando o sol nasceu.
Um riso aflito,
um pouco nervoso
e um nadinha gritado
como são os risos após o gozo.

Após o riso, após o gozo
pulaste a janela por onde entraste
e pelo mesmo rastro que vieste
sumiste,
por aquela minúscula fresta que existe
entre as tais noites alucinantes
e o restante dos dias
sem graça nenhuma.

O chá que faço agora
é suficiente para uma xícara
e o outro lado da cama está gelado.
O banho não tem cheiro
e os braços se estendem atravessando paredes
inutilmente.

Tudo em vão.
Tudo é vão.
Oco.
Eu agora sou só pressentimento
bicho acuado à espera da morte
corpo à espera do corte
pendurado no fio que ainda prende
a velha cobra vermelha e esfaimada
que dorme de novo grudada no teto.
(A chave)

Eu também durmo.
Sem canção indecifrável ao ouvido
e sem ninguém que expulse os imensos gigantes
que puxam meu pé e me fazem horríveis caretas
a noite inteira.

A chave,
por favor,
a chave.

OFERTÓRIO

27 Dezembro, 2008

Mais do que o bico do meu seio
eu te dei meus versos
onde os próprios seios se inspiram
e se tornam rosas e breves
como versos de menina.

DRINK

10 Setembro, 2008

O amor deve ser sorvido em pequenos goles
mas depressa
para que não se evapore.

CARPE DIEM

10 Setembro, 2008

Os amores do passado
amanhã já não serão

Os do futuro
Nem sabemos se virão

O jeito é aproveitar o presente
enquanto ele está na mão

CONVEXO

10 Setembro, 2008

Se é o amor que faz a vida bela
por que o medo e a inquietação
pairam sempre sobre as águas
dos corações apaixonados?

ONÍRICA

19 Julho, 2008

Quando a noite abre seus olhos de bruxa
e a árvore que vejo em frente à janela
se abandona e resolve dormir
minha última camada de ser
expande-se num êxtase silencioso
e num desenho anagramático
passo a pulsar na gorda latência do que há de vir.

Meu sangue, estranha seiva,
percorre minhas mais estreitas vias,
confundindo-se com o caldo que rega o mundo
enquanto as pessoas dormem.

De minha testa desprega-se
o selo da visão enigmática.
Sem as escamas que recobrem a parva visão diurna,
assisto ao espetáculo placidamente.

Miríade de seres imaginários levam-me para longe,
onde o que há são apenas resíduos
do que amanhã se tecerá vida, jornal, ciência, vida.

Eu morro de rir e não sei.

BAIXA ROTAÇÃO

13 Julho, 2008

Presos na moldura do porta-retratos
os parentes mortos velam por mim -
eles têm pouco com que se ocupar.

Meus pais e os pais dos meus pais
se divertem com minha pouca paciência
para os fatos da vida -
sempre tão devagar.

Já já tudo passa, parecem dizer.
Aproveita.