Doidivana

blog de Ivana Arruda Leite

PARA BAILAR EL CHÁ-CHÁ-CHÁ

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Resenha de Reinaldo Moraes para o meu livro Eu te darei o céu – e outras promessas dos anos 60

 

                                      Para bailar el chá-chá-chá                 

 

Reinaldo Moraes

 

Quando eu saio por aí dizendo que a Ivana Arruda Leite é o Proust da minha geração todo mundo replica: você diz isso porque é amigo da Ivana. Há uma variante: você diz isso porque não leu Proust. Eu respondo na lata: digo isso porque li me babando todo de prazer e emoções docemente regressivas essa dádiva colírica que é Eu te darei o céu (editora 34, recém-lançado), que todos os proprietários de uma coleção de cinco décadas de vida, como eu, bem como todos que almejam possuí-la um dia, não podem deixar de ler imediatamente. Antes do Proust até.

Têm relativa razão, no entanto, os que apontam meu viés tendencioso ao falar do novo livro da Ivana em razão de nossa recentíssima amizade nutrida sem alarde pelos botecos e festins literários da vida. Há, sim, algo de  pessoal no reino da Dinamarca. A figura humana da autora, cruzada com os achados e sacadas brilhantes da personagem-narradora do Eu te darei o céu, sabem fazer minhalma sorrir. Ivana/Titila, para mim, é uma síntese mnemônica de antigas primas pianistas do interior, nos anos 50, com pitadas de amigas e namoradas dos anos 60 e fartas doses de colegas comunas e farristas das ciências sociais na USP dos anos 70, passando pelas adultas sapecas com quem passei a conviver a partir dos anos 80, tendo já dobrado o cabo dos 30 anos, também conhecido como da Boa Esperança.

De fato, é como se eu já conhecesse Ivana e sua prosa cativante desde sempre, desde que cada qual tinha seus 10  (ela), 11 anos (eu), cada um lá em seu canto, na mesma cidade, unidos sem saber pelo mesmo imaginário midiático. Diante dessas coincidências, digamos, epifânicas, eu seria pouco menos que uma besta quadrada se não fosse nada mais que euforicamente tendencioso.

Quanto ao Proust, bom, ninguém precisa ler o gajo a fundo pra sacar que a escrita oceânica do francês nada tem a ver com a verve sintética e brasileiríssima da Ivana, que caberia toda num Gordini 1964, zero quilômetros, tanque cheio, capaz de ir além, muito além daquela serra. Como fazia, aliás, o pai da Titila, a saborosíssima heroína de Eu te darei o céu, que nele levava a família para as férias em Santos através da serra do Mar.

Voltando às comparações, que sempre fazem o tempo passar e enchem as linhas dos artigos, eu diria que a Ivana tem na verdade muito mais a ver com a mineira Helena Morley, no seu já clássico Minha vida de menina. Refiro-me àquela levada memorialista falsamente singela e espontânea, cheia de um frescor juvenil, de quem escreve como respira, que esconde uma tremenda energia verbal capaz de reconstituir mundos e fundos em breves pinceladas frásicas. Como na descrição niemeyeriana de Brasília, a nova capital que a personagem Ivana/Titila viu se inaugurar na TV em 1960, marco zero da narrativa:”Vidro e cimento pousando em cima do nada.” Vou repetir: ”Vidro e cimento pousando em cima do nada.” Se o Niemeyer lê isso, chora na hora.

O livro da Ivana é estruturado por capítulos anuais que recobrem toda a década de 1960, inclusive o ano de 1970, acrescidos, depois de um salto de dez anos, de um surpreendente capítulo-bônus, dedicado a 1980.  Pode-se dizer que Eu te darei o céu é um “romance de formação” (aquele que todo mundo gosta de citar em alemão e que me soa remotamente como bidubidung roman). Mas eu diria mesmo que ele está mais pra epopéia pop (ou romance do-be-do-be-do, em rockês), em que os caminhos, sucessos e desventuras de todo uma geração ressoam simbolicamente na trajetória do herói individual exposto às temperamentais divindades midiáticas do Olimpo eletrônico: artistas, personalidades, políticos e revolucionários, além de outras impessoais, como toda a enxurrada industrial de modas e produtos que cercaram e marcaram a geração de babyboomers brasileiros a que eu e a Ivana pertencemos.

E é com esses ídolos que Ivana e sua titilante Titila dialoga intensa e amorosamente enquanto vai crescendo, ano a ano, a começar de Celly Campello e seu banho de lua, passando por sua alteza máxima, o rei Roberto, até o Lennon do olhar flower power por trás das lentes redondas, mais o Tchê do olhar visionário no pôster famoso, já nos contraculturais anos 70.

Ivana, você vai ver, é mestra em fundir notícias de época e verbetes de Almanaque Abril à sua tragicomédia particular, de uma maneira meio cubista que me parece única na moderna prosa brasileira. Ela puxa de lá, e cá no texto cai feito um balão o uniforme de saia plissada do Ginásio Meira, um chá ou milkshake no Yara da rua Augusta, o idolatrado Roberto na vitrola em moto perpétuo, o primeiro amor e seu respectivo primeiro beijo, o sorriso bossa-nova do JK, a renúncia do Jânio e sua vassourinha demagógica, Jango trancado no parlamentarismo tancredeano, o golpe de 64 e seu cortejo de fusquetas e carrancas militares, Chico Buarque regendo sua Banda neo-saudosista, Bibis e Hebes coruscantes, os frenéticos festivais da Record, o desbunde e os engajamentos do final dos anos 60. É toda uma época complexa e um tanto atordoante, especialmente se você a viveu na adolescência, colhida em seu ruidoso movimento histórico pelo olhar naïf de uma jovem de classe-média paulistana com assumidas raízes interioranas.

Você vai adorar ver Titila passando da infância pra adolescência, nos anos dourados, e daí para um primeiro ensaio de vida adulta já nos anos de chumbo. (“O ano começou mal,” diz ela na abertura do capítulo 1964).  E não vai acreditar na quantidade e na qualidade das saborosas trivialidades de época que a autora esparge pelo texto, de um valor antropológico tão inestimável quanto o registro de uma dança fúnebre dos Txucarramãe hãe-hãe-hãe. Ou de um chá-chá-chá sessentista entre adolescentes num bailinho de Pinheiros, como encontramos em Eu te darei o céu:

“Ele ficou tão comovido que me convidou para dançar o chá-chá-chá.  Uma dança superdifícil. Era preciso contar os passos pra esquerda, depois pra direita, dar uma voltinha e fazer tudo de novo olhando para o lado oposto. Se errasse um passo, atrapalhava  a  fila inteira. O chá-chá-chá era dançado em fila.”

É isso aí. Não tem pra ninguém. Todo o poder a Ivana Arruda Leite e ao céu que ela nos deu.

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