Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

O FILHO ETERNO

7 comentários

A diferença entre um livro chato e um livro delicioso é essa: eu estou há duas semanas com Os detetives selvagens na minha cabeceira e não passei da página 194 (o livro tem 622!). Aliás, depois que a Índigo falou que não vai sair disso, eu resolvi colocá-lo a venda. Quem quiser, eu faço um desconto. Vendo livro muito chato em ótimo estado. A situação oposta: abri o livro do Cristóvão Tezza às 13:45 h e só parei agora, às 18:10 h, quando alcancei a página 222, a última, para meu desconsolo. Eu sabia o que me esperava. A Lívia tinha me falado maravilhas do livro e eu tinha gostado muito de uma entrevista que assisti com o autor no Edney Silvestre. Mesmo com toda essa expectativa, O filho eterno me derrubou. Corra e compre imediatamente se quiser ter nas mãos um livro que queima a pele e o coração.

O livro conta duas histórias. Melhor dizendo, três. A primeira é a história de um pai que aos 27 anos descobre que seu primeiro filho tem síndrome de Down. Na época, ele era um cara que sonhava ser “artista” mas vivia sustentado pela mulher. É incrível a forma como ele narra essa relação sem nunca cair na pieguice, no discurso salvífico e redentor por onde o assunto costumar ir. Muito ao contrário, o livro mostra a face tenebrosa que o amor pode assumir quando se trata de gente que vai fundo no poço dos sentimentos e que tem coragem de se manter no firme propósito de não mascarar a realidade.

A segunda, é a história de um escritor que descobre sua vocação na adolescência e persegue esse destino durante a vida, obstinadamente. Em alguns momentos ele atribui as dificuldades da carreira ao fato de viver em Curitiba, “a periferia da periferia”. Discordo. Morei a vida toda em São Paulo, e conheço de perto esse Calvário. Mas, como ele mesmo diz, estamos nessa porque queremos. “Ninguém me pediu pra escrever”. Uma coisa muito louca que o livro mostra é que, como “o escritor é alguém que vê e não alguém que vive”, a sua vida só tem sentido a partir do momento em que ele consegue escrevê-la (eu não estou falando de autobiografia, por favor!).

E a terceira, que também me comoveu muitíssimo, é a história dos que nasceram quando raiava a segunda metade do século XX nesse país de merda. Eu sou de 51, o Cristóvão, de 52. É terrível ver como nós lutamos desesperadamente pra chegar a lugar nenhum. Nadamos, nadamos e demos com a cara na areia. Com um agravante: chegamos inteiraços ao fim da linha. Somos cinqüentões que paramos de fumar, comemos verdura orgânica e fazemos exercícios. Pra quê? A risada do Cristóvão me parece uma boa resposta. Só torço para que ele, que como eu também quer parar de beber, não o faça antes de 26 de outubro, quando estarei em Curitiba e espero tomar uma(s) brejas(s) na sua companhia. Até porque, eu não sou de deixar passar pessoas admiráveis em brancas nuvens pela minha vida. Principalmente, escritores.

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

7 thoughts on “O FILHO ETERNO

  1. Ivana, vc tem razão: tem q matar a fome mesmo. Acho que eu é que ando com uma fome um pouco diferente da sua, hehe. O Os Detetives, pra mim que estou começando a escrever, foi muito bom, alimentou mesmo. E sempre serve pros dias de ventania…

    Ah, uma outra coisa: assisti aquela sua palestra na AIC no semestre passado e foi excelente. Você não vai fazer outras logo?

    Beijo

  2. Tiago, além d’Os detetives, estou vendendo também “Meu nome é vermelho”, quer comprar? Parei na página 166. Pelo menos tenho dois tijolões pra segurar as portas nos dias de ventania. O problema é que eu não tenho mais saco de passar 500 páginas apreciando construções literárias. Eu quero um livro que dê pra mastigar e que me alimente. Mais: que me mate a fome. Um beijo

  3. Ah, não vende Os Detetives Selvagens não!
    A história anda bem devagar e depois volta tudo, mas tem tanta coisa interessante na narrativa, umas construções malucas, inesperadas, tão bonitas. Vale o esforço.

  4. Ele é demais.
    O Livro será meu ainda essa semana.
    E tenho orgulho de dizer que somos Paranaenses! heheheee

    Achei lindo isso: “o escritor é alguém que vê e não alguém que vive”
    embora com um gosto triste, dá pra nos salvaguardar dentro de algumas fantasias!

    beijos!

  5. Karen, “parar de beber” é um sonho inalcançável, eu sei. Até porque eu não gosto de vinho. Beijos

  6. Há livro que nos apaixonam… criamos quase uma relação de amizade.

  7. Parar de beber? Mas nem vinho? Até agora dizem que moderadamente faz bem…

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