Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

“PRA VIRAR CINZA, MINHA BRASA DEMORA”

18 comentários

Fui ver Simonal, ninguém sabe o duro que dei . Fiz questão de ir na primeira sessão do primeiro dia que o filme entrou em cartaz e ser a primeira a entrar na sala 3 do Unibanco. Matei o trabalho e fui. Às 13h eu estava na porta do cinema. Fechada, evidentemente. Fui almoçar no Gopala. Enfiei a comida na boca correndo, ansiosa pra não perder a hora. Voltei pra porta do cinema. Fechada, evidentemente. Sentei num banco de jardim na galeria ali em frente e fiquei esperando. Quando o carinha ergueu a primeira porta eu atravessei a rua correndo e passei por baixo, ainda com ela não de todo levantada. O do guichê não tinha aberto o caixa e eu já esticava meu cartão na cara dele. Entrei na sala. Taquicardia. Normal. Qualquer filme que fale do Brasil dos anos 60, 70 mexe comigo e me faz sair de casa pra ver. Na maior parte das vezes volto decepcionada, mas nunca deixo de ir.

Por quê? Porque o tempo não volta e o que passou, passou. Só tem um jeito de você revisitar o tempo que passou: no cinema. Eu nasci em 51 e me tornei a pessoa que eu sou nos anos 60, 70. Logo… Tudo que diz respeito a essa década diz respeito ao período mais importante da minha vida.

Eu me sacudi nos bailinhos ao som do Simonal, eu ergui as mãos e cantei na platéia do teatro Record sob a batuta do Simonal, eu assisti a todos os shows do dia 7 onde o Simonal dava seu espetáculo. Juro que aquela loucura que você vai ver no filme não era mentira nem exagero. Era impressionante ver o carisma do Simonal e o que ele fazia com as multidões. Isso sem falar os bordões que até hoje você repete e que foram criados por ele (patropi; alegria, alegria, etc), do charme que ele tinha, do suingue, da voz, da “pilantragem”. Eu tenho um mug num chaveiro perdido nos meus guardados até hoje. 

Pensei que fosse ver o filme e achar tudo bacana mas velho, datado, ultrapassado. Imagina! Simonal está mais atual e moderno que nunca. Deixando Sara Vaughan de queixo caído. Só pra ver o dueto deles vale o dia de trabalho perdido.

O filme é simplesmente sensacional. Não perca de jeito nenhum.

Desde que a Bebel era pequenininha, tudo que era importante, eu pegava ela pela mão e dizia: “você vai ver isso nem que seja amarrada”. Eu a levei “à força” a vários concertos, exposições, ao comício das diretas. Se eu achava que a coisa era importante, fazia valer minha autoridade (nunca tive medo de usá-la com minha filha) e ponto final. Ela podia nem entender porque estava indo mas ia sem dar um pio. Razões histórias justificavam meu arbítrio. Pois bem, Bebel, amanhã eu vou passar na sua casa e você vai comigo ver o filme do Simonal, nem que seja amarrada. Como você não gosta de comida indiana, podemos almoçar em outro lugar, a sua escolha, mas eu quero que você veja o que a mídia, sim, senhores, a MÍDIA, é capaz de fazer com uma pessoa; o que o sucesso faz com a cabeça de um preto pobre e ambicioso.

Me deu muita raiva ver o Jaguar (cínico) dizendo “sem ressentimentos, pessoal, sem ressentimentos”. Mas na cena seguinte os filhos do Simonal me deram uma lição de moral dizendo que o que passou, passou. Eles não têm raiva de ninguém. O negócio é tocar a vida pra frente. Que lindos esses meninos! Chorei pra cacete. O filme é perfeito. Até a metade você mata saudade do Simona no seu auge e depois, da metade do pro fim, você vê a bola de neve de mal-entendidos que o levaram do céu ao quinto dos infernos onde ele morreu triste, doente, deprimido. Você entende o Simonal, você entende e perdoa os artistas que silenciaram, você entende e perdoa a si própria por ter acreditado em tudo que diziam. Com o tempo, talvez eu perdoe até o Jaguar por sua risada debochada que me diz: “mudamos, pero non mucho”.

Os depoimentos (Nelson Motta, Chico Anísio, Tony Tornado, Arthur da Távola, Boni, Miele) são estarrecedores. Especialmente o da segunda mulher e dos filhos. Saravá!

“Naquela época era uma vergonha ser brasileiro” – Nelson Motta.

“Imagina se o Simonal ia ser informante do SNI. Ou ele seria o Chefe Supremo do Serviço Nacional de Informação ou nada. Ele não deixaria por menos” – Chico Anysio.

Por tudo isso Bebel, nos encontramos amanhã às 13h na banca de jornal do Conjunto Nacional. Você vai comigo, nem que seja amarrada.

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

18 thoughts on ““PRA VIRAR CINZA, MINHA BRASA DEMORA”

  1. vi, me emocionei, postei impressões e constatei como a palavra dita – ou não dita – na hora errada pode ser um problema. de vida. e de morte.

  2. Ivana querida- não foi só a mídia que derrotou o Simonal.Foi também a repressão e a inveja. Os colegas se omitiram, talvez pra sobrar-lhes um espaço, pois Simonal o ocupava todo. Jaguar e Ziraldo, perseguiram demais Simonal, através do Pasquim, e agora dão depoimento… Jaguar, coitado, dá dó…
    Nelsinho, como sempre humano, generoso, assim como Chico Anísio. Miéle simplesmente verdadeiro.
    Herlon Chaves somente foi citado, que coisa, grande lacuna…
    Sen-sa-cio-nal o filme!
    Um abraço
    Anamaria

  3. Não, Ari, eu não lembro da música Doidivana das noites vazias que o Nelson Gonçalves cantava. Essa definitivamente não é do meu tempo. beijo

  4. …E eu!

    Doidivana das noites vazias…
    Lembra? Grande Nelson
    Simona… Eita…
    Mais este seu comentário do filme… Sem comentários
    Bom que só, de ler…. RSS

    Multibeijos
    J. A.

  5. Lindo depoimento, Ivana!
    Presenciar o tão desejado (pela família, pelos fãs…) resgate da memória do grande Simonal já seria por si só um momento imperdível, imagine isso acontecendo na telona… é histórico. Eu não perco por nada nesse mundo! Olha, suspeito que não vou resistir, no final, levanto e aplaudo a telona… rs… Obrigada! Beijos.

  6. Fabiana, que alegria! Eu também lembrei muito do livro durante o filme. Ai que saudade de mim… Obrigada pelo seu carinho, volte sempre. Beijos

  7. Vou ver o filme também! Tomei contato com a música do Simonal há uns 10 anos. Graças aos 2 filhos músicos e gêniais!

  8. Oi Ivana. Cheguei aqui no seu blog depois de ler ontem o seu livro ” Eu Te Darei o Céu: e Outras Promessas dos Anos 60 “. Li na volta para casa, no ônibus, viagem de uma hora! O livro foi devorado!! Agora aqui é meu novo point! Ler seus textos está sendo um prazer!
    Amanhã quero ver se levo meu namorado amarrado ao cinema ver esse documentário! Já estava com vontade, mas depois de ler as aventuras de Titila eu estou doida mesmo para ver e sentir saudade de uma época que nem vivi!
    Super beijo!

  9. Muita vontade de ver, Ivana. Tomara que saia em DVD logo.

    Bjos.

  10. Estou seca para assistir este filme! Belo texto, parabéns!

  11. Ivana, que texto lindo. Vc me deixou doida pra ver o filme.
    bjo

  12. Adorei o seu texto !!!
    Vou assistir neste fim de semana.
    Beijos

  13. Cláudio, que bom te ver por aqui! Eu tava com a maior dor na consciência por não citar o nome dos diretores, mas a emoção foi tanta que esse tipo de “informação” ia cortar o meu barato. Em todo caso, pus o link pro site do filme. O nome dos ILUMINADOS diretores estão todos lá. Um beijo e todo meu carinho

    • que “mané” dor na consciência ? vc foi lindamente bacana. teu texto foi um cafuné, um afago delicioso. bjs

  14. Valeu a dica! Vou correndo ver. Conheci pouco da musica (estou sem acento) vibrante do Simonal, minha mae sempre foi fa. Vou conhecer um pouco mais do artista e da historia – nem que seja amarrado!

    Beijos, minha querida, bom fim de semana pra vc!

  15. querida… acabei de ler seu comentário sobre o documentário do Simona e, como um dos pais da “criança”, fiquei muito emocionado com suas palavras. sei que não escrevestes pra mim, mas mesmo assim, te mando o meu maior muito obrigado.
    “niguém sabe o duro que demos”, o quanto custou, quanto suor, dúvidas, etc. mas quando a gente fica sabendo que conseguiu causar essa emoção… tá tudo pago ! valeu mesmo… um grande abraço

    claudio manoel

  16. Fernanda, é um documentário com cenas da época. Quando sair em DVD eu te mando um. Beijos

  17. Ivana, quero comentar, que bacana seu texto, que bacana o filme [eh documentario ou algum ator fez o Simonal?], eu lembro pouco dele, nem sabia dessa historia que colocou ele no ostracismo, quanta injustiça nesse mundo…

    Se pudesse iria junto com voce e Bebel amanha. Pena que por aqui, necas de pitibiriba desse filme chegar tao cedo.

    um beijo pra voce!

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