Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

A MULHER FOGE

4 comentários

Conforme vocês viram nas fotos, este foi o livro que levei comigo na viagem do natal e que, vencidas as 654 páginas, alcancei a margem agora, nos primeiros dias do ano novo. Terminei o ano com chave de ouro. Que livro!
Conforme escrevi no twitter, se você for judeu, homem e escritor tem grandes chances de se tornar o melhor do mundo.
Já falei aqui da força avassaladora que a literatura dos judeus contemporâneos tem sobre mim: Amós Oz, Philip Roth e agora David Grossman, autor do excelente “A mulher foge”. Aliás, já comprei o próximo livro dele que vou ler: “Ver: amor”, que, para minha alegria, veio autografado! Pois é, o David Grossman esteve aqui na Bienal do Rio de 2009. Vai ver nos cruzamos pelos corredores sem que eu soubesse que era ele.
Antes de falar do livro propriamente dito, quero dizer duas ou três coisinhas que me encantam nestes escritores judeus:
1. todas as mulheres são fortíssimas, louquíssimas e capazes de enlouquecer todos a sua volta (principalmente os homens), o que fazem com extrema habilidade.
2. tem comida do começo ao fim. Basta abrir o livro pra sentir o cheiro das sopas, dos assados, das frutas secas, dos chás, das frutas, dos peixes, etc
3. as paisagens (seja Israel ou New Jersey) são sempre maravilhosamente descritas. As árvores, as montanhas, as pedras, o deserto, as flores ganham cores e contornos épicos, bíblicos.
4. aliás, sempre que estou com um livro deles nas mãos tenho a impressão de estar desenrolando um pergaminho de algum profeta encontrado no mar Morto.
Mas voltemos ao livro de David Grossman.
Sim, meus queridos, é possível um homem entrar dentro da alma de uma mulher e escrever no eu feminino de forma absolutamente verdadeira e comovente. A Orah, personagem principal, é uma das melhores mulheres já escritas por um homem. Inesquecível. Uma mulher que vive a dor de ver o filho de 21 anos ir pra guerra e parte andando a pé por Israel para não receber a notícia da morte do filho. Ela não quer que “eles” a encontrem em casa quando vierem avisar que. Essa mulher andando pelas mais de 600 páginas e conversando com um amigo, seu companheiro de viagem, e falando dos seus sentimentos é uma das histórias mais lindas que li. Nada ali é simples. Nem os personagens, nem a trama, nem a forma como é contada. Construção perfeita que te leva aos céus sem que você saiba como chegou lá. O amor dessa mulher pelos filhos (dois), pelo marido, pelo amigo que viaja com ela… Não quero falar mais nada. Só digo que você será uma pessoa melhor depois de ler o livro.

Pra acabar de arrebentar, logo na contracapa do livro ficamos sabendo que David Grossman estava terminando de escrever o livro quando seu filho mais novo morreu num dos últimos ataques da guerra no Líbano, em agosto de 2006. Ele termina dizendo: “Depois do período de shivah, voltei ao livro. A maior parte dele já estava escrita. O que mudou, acima de tudo, foi o eco da realidade na qual foi escrito o último esboço“.

Obrigada, Marquinhos, que me deu a dica do livro e me fez comprá-lo na Mercearia.

Aproveitando que estamos na casa de Davi, aproveito pra indicar com veemência o filme “Tudo pode dar tudo certo”, de Woody Allen, com Larry David. Super super super demais!!! Mas sobre ele, eu falo outra hora.

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

4 thoughts on “A MULHER FOGE

  1. “[…] se você for judeu, homem e escritor tem grandes chances de se tornar o melhor do mundo…”
    Sou os três, *risos* Será que consigo me tornar “o melhor do mundo”?
    Estou terminando meu primeiro livro, acredito que até o meio de Abril esteja em minhas mãos.

  2. Ivana
    Ontem vi no Roda Viva da tv Cultura a entrevista do David Grossman, e fiquei curioso sobre “A mulher Foge”, e numa busca no Google me deparei com o seu apaixonao texto, não tenho mais dúvida quanto ao próximo livro que lerei.
    Gostaria de indicar a você de Yael Dayan “Bem Aventurados os que Temem”, só possível de achar em sebos ( editora Brasiliense, 1963). Tocante e sensível.
    Um forte abraço
    Christofer

  3. Puxa vida, sério que o David Grossman esteve aqui e ninguém ficou sabendo? Que sacanagem! Realmente “divulgação de eventos” é um conceito que a galera da Bienal desconhece totalmente. Muito triste! David Grossman é top Ten na minha lista de pessoas que preciso conhecer antes de morrer. Acho o trabalho dele maravilhoso. Todos os livros dele valem a pena. Alguns mais, outros menos, mas nenhum dele consegue ser ruim ou frustrante, sempre tem algo que apaixona a gente. “Ver:Amor” é um dos melhores, na minha opinião, e uma das coisas mais belas que já li na vida.

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