Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

BABULINA, BABULINA

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O cheiro de pêssego nas ruas de dezembro trazia o natal pra dentro de mim, tornando doce e sumarenta a polpa que circunda o caroço da expectativa. Fruto prestes a explodir.
Abri a porta de madeira e desci os degraus com cuidado. Meus gestos deveriam eram artificialmente naturais. Nada ali era acaso, embora devesse parecer que. As janelas quase ao nível do chão davam a impressão que o mundo lá fora estava de cabeça para baixo. Comprei o tíquete das bebidas e sentei-me ao redor do balcão. A fumaça envolvia as cabeças num halo de santidade. As vozes misturavam-se numa estranha dissonância ao som do conjunto que tocava sem ser ouvido.
– Pra que lado fica o Pólo Norte?
– Não sei, mas se me der dois segundos posso lhe responder.
O belo rapaz ainda tinha o mesmo ar maroto que tanto me infernizara na sala de aula. Leciono geografia há mais de vinte anos, mas trago na memória o rosto de cada aluno.
– O norte é pra lá, apontei.
Seguindo a rota que meu dedo traçou, saímos os dois. O motorista do táxi também sabia para que lado era, pois nem pediu explicações. Foi seguindo.
Sob o luar da Paulista, observei seus cabelos loiros e lisos, o rosto pequeno, felino, o corpo com traçado de guerreiro. Seu nome eu já não lembrava, mas quando tocou minhas coxas batizei-o Coaraci.
Mau me reconhecia na rainha nua em frente ao espelho com manto plebeu de chenile vermelho sobre as costas. Colcha de cama de casal. Na manhã seguinte, manchete em todos os jornais: Professora De Geografia Morta Por Desconhecido Em Motel Barato No Largo Do Arouche. À nossa frente o luminoso piscando sem parar, Cine Real, Cine Real.
Eu sou virgem sabia? Perguntei-lhe debruçada no parapeito da janela. Coaraci achou aquilo tão bonito que catou uma dúzia de estrelas e me fez uma linda grinalda. Só então me levou ao leito que havia preparado no topo da palmeira mais bonita, onde fui comida em grandes bocados que lhe regalavam de prazer. Uivo de lobo saindo do oco da garganta. Quase um lamento, não houvesse ali uma oculta alegria.
Incendiei-me nos picos nevados do Himalaia, lambuzei-me na baba melada da tocaia mais oculta e emergi satisfeita do mergulho no oceano azul-marinho. Nos cabelos eu trazia uma estranha flor que às gargalhadas chamamos de flor do cerrado.
Quando acordamos sentimos fome, mas logo avistamos mesa com mamão, bolacha e café. Coaraci fechou as asas e planamos num rasante de estarrecer. O guerreiro serviu-me com gentil delicadeza e foi para rede tomar uísque e mascar guaraná. Preguiçosamente, pôs-se a contar de suas andanças pelo mundo, o tempo em que fora nhambu, das viagens no currupio e das lutas que travou com boitatá. O irresistível charme do seu cocar burguês me divertia à beca. Jeans e penacho no mesmo tacho. O olhar tinha força de índio, mas osso é frágil e se quebra, braço na tipóia, Coaraci é o diabo em forma de gente.
De repente, o brado de despedida. Era hora de partir. Coaraci começou a rodar e bater suas asas num barulho ensurdecedor. Quando seus pés já não tocavam o chão, virou o nariz pra cima e saiu pela janela sem que eu visse qual pólo escolheu desta vez. A grinalda ele levou consigo, mas a buceta ardida e cortada era a prova que estivera comigo.
Daqui a pouco papai estará esbravejando. Deve ter me chamado a noite inteira. Limparei suas nádegas, lavarei os lençóis mijados e o levarei ao jardim para tomar um pouco de sol. Nas manchetes dos jornais só as desgraças habituais. Velha professora não foi assassinada por desconhecido em motel barato do Largo do Arouche. Amanhã ou depois pode até repetir a experiência.

(conto do meu livro Histórias da Mulher do Fim do Século)

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

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