Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

AS LOUCAS DA AVENIDA PAULISTA

15 comentários

Dentro de cada um, o tempo não anda em linha reta. Às vezes nos sentimos com o dobro da idade que temos, às vezes com muito menos. Minha filha fez 25 anos. Está se achando uma velha. Eu tenho 52 e me acho uma menina. No momento, a maioria dos meus amigos são mais moços do que eu. Concordamos em muita coisa, discordamos em outras, de igual pra igual. Saímos juntos, bebemos, partilhamos confidências, projetos. Mas isso não foi sempre assim.
Quando fiz 49 anos, tinha certeza de que aquele seria o meu último ano de vida útil. Eu achava que minha cota de prazer tinha se esgotado. Eu que me contentasse com a lembrança das noitadas no Pirandello, das farras no Piu-piu, da delícia que era o mundo antes da Aids. Daqui pra frente, minha vida seria uma sucessão de buracos. Os cabelos foram ficando brancos, minhas roupas envelheceram, as costas arcaram visivelmente.
Um dia essa velhinha enrugadinha estava tomando café no Conjunto Nacional quando duas mulheres animadíssimas, de calça justíssima, se aproximaram do balcão. Duas mulheres de cabelos de fogo, dessas que falam no celular aos berros. Elas me pareceram tão vitais, tão aquilo que eu queria ser, que eu desmaiei no ato. Caí dura no chão. A garçonete veio em meu socorro. Quando recobrei a consciência, não havia ninguém ao meu lado. As loucas da avenida Paulista tinham sumido.
No dia seguinte comprei um celular e pintei o cabelo de vermelho. A partir daí desabou uma avalanche de acontecimentos na minha vida que me deixou zonza. Tive de comprar uma esteira elétrica para acelerar o passo. Estou na marca dos 4.500 metros diários. Se continuar em linha reta, já já chego a Sorocaba. Eu não sabia que o melhor estava por vir. Eu não sabia que o melhor era proibido para menores de 50 anos. Quanto aos buracos, aprendi a viver com eles. As paredes param em pé mesmo com buracos.
Um dia talvez eu pare de pintar os cabelos. Por enquanto eles continuam pegando fogo. E o engraçado é que vendo minha filha apagar as velinhas do bolo, ela era a mesma menina de sempre, a minha menina que nunca vai ter mais do que três ou quatro aninhos.

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

15 thoughts on “AS LOUCAS DA AVENIDA PAULISTA

  1. Aos 38, não me sinto uma velha, mas muito cansada. Sua crônica foi um fortificante, melhor que Red Bull, que não tomo.
    Bjs

  2. Uma bela crônica sobre o tempo e sobre a capacidade bonita que as mulheres têm de ressurgirem das cinzas dia após dia. Parabéns por tudo Ivana, o caminho certo é esse: o caminho em que pintamos o cabelo de vermelho e tomamos cerveja de igual pra igual com todos! Um grande abraço!

  3. Querida Ivana!
    Como estás? Faz tempo que não lhe escrevo. Tantas coisas me aconteceram, andei apagada, reciclando… Deixa pra lá! Adorei teu texto. Lembro que a primeira vez que a ví, sentí a mesma coisa, e eu tenho 48 anos, não desmaiei, mas fiquei encantada com tua juba “encarnada” como se diz na minha terra e o teu sorriso escancarado. Acabeii de ler o Alameda Santos. De tudo até o vermelão de teus cabelos, nem me surpreendo pois vc é mesmo uma Figura muito especial. Se tiver um tempo e quiser, dá uma olhadinha no meu blogger http://decorintimus.blogspot.com/ Abraço carinhoso pra você e pra sua irmã.

  4. Olá Ivana,

    Poxa, que lindo encontro tive com teu texto!! Incrivel como as coisas fluem pra que nós consigamos trabalhar nossos nós, hoje, bem hoje, estava pensando que não quero mais a vida aos conta gotas….queria viver mais intensamente!! Lendo teu texto parei pra pensar que há de haver alguem pra dar suporte ao conta gotas…e que talves esta seja a mudança primaria…sair deste lugar!! Quem sabe não acho minhas linhas pra culminar em um cabelo vermelho, insano e potente!!! Abraços minha mais nova jovem colega!!!

  5. Agradeço comovida os comentários! Toda 2a. e 5a. terá crônica nova por aqui. Apareçam que são muito bem-vindos.

  6. gosto demais dos seus escritos,Ivana! sou sua fã!

  7. Tenho 43 anos…me acho muito melhor hoje que aos 20 … porque experiência ajuda muito!

  8. Muito bom, Ivana. Esse olhar é para poucos…
    Beijo grande.
    Petê

  9. Que lindo Ivana! Amei!
    Beijo

  10. Ivana. maravilhoso!
    abraço,
    edson

  11. Ivana que delícia de texto. Isso que é viver. Quero ser assim como vc quando crescer, rs…
    um beijo
    madoka

  12. Aos 30anos me achava uma velha. Aos 44 estou mais feluz q nunca. Pronta pra comemorar 45 e louquinha pra fazer as coisas q só poderei fazer depois dos 50. Vc é bárbara!!!

  13. Muito legal Ivana. Não há idade para recomeçar, para se tentar. Felicidade é febre, é fome. Não tem tempo, nem preço.

  14. A idade é a gente que faz, o modo como encaramos os desafios, os percalços, até mesmo o jeito que encontramos para sermos felizes mostram realmente quantos anos a gente tem.

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