Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

PARAISÓPOLIS, VILA MADALENA

3 comentários

Eis como foi o meu dia 4 de fevereiro p.p: das 9 às 13h atendi desabrigados na favela Paraisópolis, vítimas da enchente do dia anterior. Parecia que tinha caído uma bomba atômica na Vila Sossego. É este o nome do lugar atingido. A rua principal? A praça é nossa. Não é piada. Um homem me mostrou o vergão no pescoço, marca da corda que ele segurou pra salvar 4 crianças que estavam sendo levadas pela enxurrada. Os RGs e Carteiras de Trabalho que eu pedia foram embora na correnteza. Eu pouparei os detalhes para não estragar o seu domingo e correr o risco de não ser lida já na primeira coluna. Antes que alguém pense que vou lá por benemerência, explico: vou porque sou obrigada. Se não for, sou demitida por justa causa. Enquanto não completar o tempo de aposentadoria, tenho que ir. Vou e faço o melhor que posso. Voltei pra casa, dei remédio pra Princesa, minha cadela de 15 anos que está morrendo e fui para um estúdio no Pacaembu onde duas figurinistas, um maquiador e um fotógrafo me esperavam pra tirar fotos para a Revista da Folha. Nem a Darlene sonharia com nada melhor. As mocinhas me enfiaram num terninho preto muito alinhado, o maquiador caprichou e o fotógrafo fez o melhor que pode. Terminada a sessão, fui correndo para uma reunião com meu editor acertar os detalhes finais sobre o meu novo romance que será lançado em abril, uma adolescente nos anos 60, em São Paulo. Levei a foto do Dr. Kildade que eu havia prometido para a editora de arte. Saí de lá e fui me encontrar com meu amigo Marcelino Freire na Vila Madalena. Chopp, muito chopp pra comemorar a vida. O celular toca. É minha mãe perguntando se a tal coluna vai sair mesmo. Posso avisar minhas amigas? Pode, mãe. Eu te falei que essa novena é poderosa. Lá de Lins, ela reza todo dia pra que as coisas comecem a dar certo na minha vida. Tem funcionado. Tarde da noite, minha filha passa pra me pegar. Volto pra casa tentando lembrar o nome do santo que eu tenho que rezar pra agradecer a graça alcançada. Se eu lembrasse, pediria também para que os favelados de Paraisópolis estivessem, senão tão felizes, pelo menos tão bêbados quanto eu.

Esta foi a primeira crônica que saiu publicada na Revista da Folha, em fev. de 2004. A Darlene a que eu me refiro era uma personagem que a Débora Secco interpretava em não sei que novela. E a foto que eu tirei era esta aqui:

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

3 thoughts on “PARAISÓPOLIS, VILA MADALENA

  1. O bom da Internet é podermos voltar a um tempo que não vivemos.
    Adorei!
    Bjs

  2. Nossa Ivana,
    eu me lembro dessa foto. Então, eu era sua leitora desde aquela época. Mas daí vc parou de escrever na Folha, ou eu é que parei de assinar. E foi-se o tempo. Conheci seu blog, gostei demais de tudo aqui. E claro, eu sabia que o seu nome, foto, não me eram estranhos, rs. Lesada é fogo né?
    O mundo é pequeno. Não dá mais para te largar hihihi
    beijão

  3. Muito boa, desde então.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s