Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

QUINTA-FEIRA, 21 DE ABRIL DE 1960

5 comentários

Na quinta-feira, 21 de abril, meu pai me chamou e eu voei pra frente da televisão logo de manhã cedinho. Eu não queria perder um lance da festa de inauguração da nova capital. Até o hino eu sabia de cor:
“Desperta o gigante brasileiro
desperta e proclama ao mundo inteiro
num brado de orgulho e confiança:
nasceu a linda Brasília
a capital da esperança.”

Por que tanto interesse na inauguração de Brasília? Por ser aquela a primeira transmissão ao vivo em rede nacional? Pra ouvir o discurso do Juscelino, para admirar a arquitetura sideral da cidade que nasceu da noite pro dia? Aliás, foi aí que as palavras arquiteto e arquitetura entraram para o vocabulário das pessoas comuns e o Niemeyer tornou-se tão popular quanto o João Gilberto. Vidro e cimento pousando em cima do nada. Ninguém acreditava que aquilo pararia em pé. Minha mãe foi lá pra conferir. Era esse o motivo do meu interesse pela transmissão. Ela tinha ido visitar a irmã que morava em Brasília e de quebra assistiria a festa de inauguração da nova capital. Eu achava que em algum momento ia vê-la pela TV. Mas tinha muita gente ouvindo o discurso do presidente bossa-nova. Rapidamente eu desisti de tentar localizá-la na multidão e voltei pra cama.
Na volta, as fotos da viagem provaram que ela esteve lá. De lenço na cabeça e óculos Ronaldo, ela aparecia fazendo pose em frente ao Palácio da Alvorada, na praça dos Três Poderes, no meio das duas tigelas, uma de boca pra cima, outra pra baixo.
— Como as pessoas fazem para entrar aí dentro?
O nome do modelo do óculos era por causa de um playboy que se chamava Ronaldo e ficou famoso por ter matado a jovem Aída Cury num crime horrendo. As lentes escuras se arredondavam contornando o rosto até as orelhas parecendo um apetrecho espacial. Todos nas ruas andavam com óculos iguais ao do criminoso. Não demorou e saiu a versão infantil. O meu era cor-de-rosa.
De presente, minha mãe me trouxe um estojo de lápis de cor no formato das colunas do Palácio da Alvorada, uma caneta no formato das colunas do Palácio da Alvorada e uma miniatura das colunas do Palácio da Alvorada pra pendurar na parede. Pro meu pai, ela comprou uma gravata estampada com as colunas do Palácio da Alvorada e um peso de papel em bronze, no formato das colunas do Alvorada. Pras amigas, maços de flores secas do cerrado — a última moda nas casas paulistanas.

(assim começa o meu livro Eu te darei o céu – e outras promessas dos anos 60 – editora 34).

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

5 thoughts on “QUINTA-FEIRA, 21 DE ABRIL DE 1960

  1. Ivana, blz?

    Tenho acompanhado, pouco, ainda, suas histórias no blog e, me parecem bem interessantes. Vou continuar as leituras, pode ser? Grandeabraço.

  2. Gostei tanto desse livro…

    Um beijo pra você, Ivana.

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