Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

GRANA, BUFUNFA, L’ARGENT, MONEY

11 comentários

Um dia eu ainda vou ser rica o suficiente pra dizer que dinheiro não é importante na minha vida. Por enquanto, ele está em primeiríssimo lugar na minha lista de prioridades sócio-político-filosófico-existenciais. Pela falta que faz. Pelo que instaura de desejo sem realizar.
Vivo permanentemente frente a uma lista de múltipla escolha onde só uma resposta deve ser assinalada. Esta semana eu posso: a) ir ao cinema; b) comprar um cd; c) comprar um livro; d) ir à exposição do Picasso; e) pedir uma pizza. Mudam as alternativas, mas a angústia é sempre a mesma. Os prazeres têm de ser parcelados. Um de cada vez. Se aparece uma cárie, deixo o sapato pro outro mês. Se a geladeira pifa, esquece tudo.
E o pior é que eu fico me culpando por pecados que nem cometi!
Como alguém que não tem casa própria pode gostar tanto de restaurante japonês? Como alguém que não tem seguro saúde pode ter amigos tão maravilhosos, que saem tanto e bebem tanta cerveja? Como se não bastasse, são todos escritores e lançam um livro atrás do outro (o preço dos livros você sabe por onde anda).
O problema é que eu me acostumei ao bem bom que um dia pude ter. Meu salário sempre deu pra financiar minhas frescuras, mas, de um tempo pra cá, venho empobrecendo a olhos vistos. Hoje meus caraminguás mal chegam ao fim do mês. Como pagar o celular, a TV a cabo, a internet rapidinha, a assinatura do jornal? Como viver sem isso tudo?
Tudo bem, nos dias úteis eu até encaro a marmita numa boa, mas em algum momento eu preciso achar que a vida é bela. Esse momento é quando eu, o Joca, o Bressane e o Marcelino nos reunimos pra dar risada dessa desgraceira. Se o Xico Sá aparece, melhor.
Quando estou a fim de uma emoção mais forte, entro num desses supermercados chiquérrimos e fico passeando pela sessão de produtos importados. Não tem filme pornô que me excite mais. Na saída, pego uma caixa de sabão em pó, entro no carro que completará dez anos no mês que vem e vou pensando que talvez meu pai tenha razão: eu não tenho mesmo o menor juízo. Mas será que a culpa é só minha?

(crônica publicada na coluna Mulher, da FSP, em 2004)

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

11 thoughts on “GRANA, BUFUNFA, L’ARGENT, MONEY

  1. Ivana, pode faltar l’argent, mas você sabe viver e isso vale ouro menina. Situação financeira geralmente é transitória, daqui a pouco vc vende muitos livros e vai poder dar mais umas extravasadas, que todo mundo deveria ter direito. E essa instabilidade é mesmo coisa de artista, quem mandou ser artista e talentosa, se não fosse talvez estaria ganhando um dinherão por aí, mas e a alma? Pensa no coitado do Van Gogh que agora é essa babação em volta dos quadros dele e em vida viva pobre pobre de marré deci.
    Beijos e muito sucesso!

  2. iva,
    eu não me lembrava dessa. comecei a ler o post sem me dar pelos colchetes do fim do texto, e comentei com o r, já no meio da leitura: “puta, que texto bom esse da ivana”. não por nada especial — a falta de grana é sempre uma tragédia meio ridícula mesmo, porque no final se trata apenas de que mercado você frequenta, de que delícia deeixa de comprar — mas pelo bem escrito que é. dando nome aos bois, sem frescura de texto, sem metáforas. é o que é. exatamente como é ficar sem dinheiro. e também sem reclamar. enfim, achei animal.
    gostoso de ler e lembrar daquela época. céus, como se bebia em 2004!
    beijos, querida

    • Você lembra? Eu fico de porre só de pensar! O que era aquilo? Não sei como chegamos viva até aqui. Beijos

  3. Escolher o que se pode comprar. Um mês um marcelino, outro ivana, outro adrienne, outro del fuego, é fogo essa nossa dura vida de contar pingado. Mas que bom que posso ler vc aqui tbm…rs
    beijos diva-das-letronas.

  4. Me identifiquei totalmente,Ivana!

  5. Hauahsuahsuahsuas….nossa, eu sei que a situação não é pra rir, mas realmente, não deu pra deixar de soltar umas boas risadas!!! Expressou coisas que realmente acho que muitas pessoas fazem, (nossa, como é bom o ar dos lugares chics não?! Faz bem pros olhos, pra alma!! E esses não precisam pagar nada!!) são realmente situações hilariantes que passamos e afinal de contas nada melhor do que achar humor em tudo nessa vida!! Vc se superou nesta crônica…kkkkkkkk…bjão!!

  6. Viu só? A gente nunca está só!
    rsrsrs

    ;o)

  7. Oi ivana, sempre venho aqui te ler, mas nunca comento. Ótima crônica, terminei com os olhos d´água de tanto rir. todo mundo passar por situações como essa! E eu sempre acabo pensando: Eu sei ser feliz com o pouco que ganho. Os lugares podem ser diferentes, as coisas, mas a cerveja quase sempre é a mesma e a felicidade também!

    Um abraço,
    Raphael

    (PS. Adoro vir aqui)

  8. Ivana,

    deliciosa essa crônica. Um perfeito espelho da vida de muitos de nós, euzinha inclusive. As contas pessoais sempre inventando um jeito diferente de se equilibrar nessa corda imaginária de prioridades, enquanto o dinheiro vai escorregando em lançamentos, passeios e outras pequenas extravagâncias. Mas sabe do que me convenci: isso significa viver! Se o carro não é zero ou a conta ficou um tanto vermelhinha, tudo bem, pois nada paga os sorrisos dos filhos ou outros que recebemos do espelho. 😉 Beijão.

  9. Angústias minhas também, Ivana… Mas olha que ainda somos privilegiados de termos salário!

    O f**a é que eu desisti de loterias, telesenas, sorteios e afins, nunca ganho m****a nenhuma mesmo… Não trabalhe não, pra ver o miserê se alastrar ainda mais…

    Heheeheheehehehe!

    Bejus!

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