Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

DOI PRA BURRO

9 comentários

Uma vez um namorado me pôs numa sinuca de bico ao perguntar se eu queria um beijo estalado no ouvido de um jeito que só ele sabia dar. Mas antes, ele fez o favor de avisar: “dói pra burro”. Fiquei sem saber o que dizer. Claro que eu queria experimentar o tal beijo sensacional, mas como querer algo que, de antemão, eu sabia que ia doer pra burro?
Ou então, as férias da infância: Santos, José Menino, Hotel Atlântico. Quinze dias torrando debaixo do sol. Na volta às aulas, pra provar como as férias tinham sido maravilhosas, eu mostrava as costas em feridas. As bolhas lambuzadas de caladryl não me deixavam mentir. Santos era uma delícia, mas doía pra burro.
Querem outro exemplo? Quando eu fazia análise, era comum chegar em casa mal me segurando nas pernas, com os olhos vermelhos de tanto chorar. Passava o resto do dia de cama. No começo, minha filha ficava preocupada, mas depois se acostumou. “Já sei, você teve uma daquelas sessões fan-tás-ti-cas” – ela dizia me imitando. Auto-conhecimento é outra coisa que dói pra burro, mas é bom à beça.
Muitas vezes, sofrimento e prazer andam de mãos dadas. Onde um entra, o outro se instala. Mas que fique bem claro: eu estou falando daquela cota de sofrimento inevitável, sem a qual a vida não pára em pé, e não daquela outra que meninas e meninos de todas as idades compram hoje em dia com tanta naturalidade. “Por favor, eu queria um chicote, uma coleira e duas algemas”. Parece que as pessoas estão preferindo enfrentar a dor ao pé da letra àquela outra, que maltrata sem deixar vergão.
Nada contra, mas sou da turma dos que acham que bastam dois corpos nus sobre a cama pra rolar a festa. Quando muito, o banco traseiro de um fusca. Afinal, o amor e o sexo já são suficientemente interessantes e dolorosos pra que se precise de alegorias adicionais.
E se as dores são inevitáveis, o melhor é acreditar que a vida é uma história com final feliz e tocar em frente.
Veja o meu caso: a invenção do protetor solar me livrou das queimaduras, o analista me deu alta depois de onze anos e eu descobri que beijo estalado dentro do ouvido não dói tanto quanto parece.

(crônica publicada na Revista da Folha, 2004)

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

9 thoughts on “DOI PRA BURRO

  1. Dói mas é bom…rs Delicia de texto.

  2. Dói pra burro não viver. Ter medo da vida dói, mas o que seria da gente se não tentassemos coisas novas? Viver, amar, andar, cair tudo passar algumas vezes pela dor, até dar risada muito alto dói pra burro a arcada dos dentes e os ouvidos, dos outros…
    bjs

  3. Fenomenal, quer dizer… pq simplesmente buscar problemas? Pq simplesmente não conseguir “ser normal”? E sei sei…” O que é ser normal?” Provavelmente algo que não torne sua vida infeliz, depressiva e egocêntrica… Dor sempre haverá… Mas pq não enfrentá-las e testarmos nossos limites? Pq não vencê-las? Muitas vezes o que nos impede não é a idéia da dor… Mas o medo… O medo impede muitas pessoas de serem felizes…

    Beijos (Des)conexos!

  4. E depilação?

  5. Texto fan-tás-ti-co!
    Muito legal Ivana.
    Bj

  6. Muito boa esta postaem, bem divertida…. rsrsrsrsrs

  7. Ivana, não precisa publicar este comentário se não quiser: Bem, esta sua história fez-me lembrar de uma tia minha, que sempre chorava as mazelas da vida e jamais pagava o preço da dor para experimentar algo novo. Certa vez, um namorado ofereceu algo, tipo um beijo dentro do ouvido. O sujeito era persistente, determinado, impaciente e iracundo. Deixou a minha tia ao ver que não rolaria o tal “beijinho”. Ela não quis ficar por baixo e, seguindo o conselho das amigas, deu uma mudada no visual. Mudou a cor e arrumou os cabelos; adquiriu algumas novas peças de roupas, menos recatadas que de costume; e decidiu pegar um bronzeado em seu quintal, com muito sol e coca cola sobre a pele (acabou com uma tremenda insolação e quase morreu por erisipela na perna direita, ocasionada por uma das feridas causadas pelo sol). Resultado: fez terapia por 10 anos para esquecer o Zé Vaca, e só parou de freqüentar o analista quando conheceu o tio Norf.
    Viver dói. Mas dois mais ainda não viver por medo da dor. Que diga minha tia Nestorina!

    Abraço do Jefhcardoso, Ivana.

  8. hahaha….e o que tu acha de swing, menage e etc?

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