Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

JOÃO BATISTA

14 comentários

Essa história eu quero contar do começo. Estávamos em 1969 e eu fazia cursinho quando conheci João Batista, um rapaz loiro, de olhos azuis e cabelos encaracolados. Ele se tornou meu melhor amigo e nós dois queríamos ser arquitetos. JB perdia horas – e muitas vezes a paciência – me ensinando física e matemática. Eu era péssima nas exatas. Foi naquele ano que descobrimos a vida, o mundo, as artes.
Em 70, ele entrou na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP), onde eu só entraria no ano seguinte. Depois de um tempo acabei abandonando o curso.  A partir daí, nossas vidas tomaram rumos diferentes. JB se formou e nunca mais nos vimos. Ele virou um botom espetado na memória, uma doce lembrança dos tempos de paz e amor.
Roda a fita. Na última Bienal do Livro, a Bebel trabalhou com um rapaz muito gracinha que me disse que o pai era arquiteto.
– Ah é? E como ele se chama?
Era o próprio! Fiz um escândalo tão grande que as crianças morreram de vergonha. Mandei uma mensagem por todas as vias de acesso: telefone, celular, endereço, e-mail. Não demorou e JB me ligou. Cara, que alegria!
Roda mais um pouco. Às 18h, eu já estava de banho tomado, com o jantar pronto e a mesa posta, achando que JB tinha desistido. Ele chegou às 20h, como havíamos combinado. Nos apertamos num abraço cego de emoção. Ele sentou à minha frente, abrimos uma cerveja e só então percebi que os cachinhos não existiam mais. O cabelo estava grisalho, o olhar de um azul mais profundo, o nariz parece que aumentou, mas o sorriso era o mesmo. Sorriso não envelhece.
Eu olhava o rosto do meu amigo procurando nele o da menina que fui um dia. Eu nem tinha notado que envelhecera tanto. O papo engrenou de tal forma que parecia que tínhamos nos visto na semana passada. Na verdade, nunca estivemos tão próximos como naquela noite. Tem encontros que estão marcados para mais tarde.
À meia-noite começamos a bocejar (antigamente varávamos a madrugada). Na despedida, prometemos não nos perdermos mais.
Quando a Bebel chegou, quis saber tudo em detalhes. Quase tive um piripaque quando ela, depois de ouvir meu relato, fez uma única pergunta:
– Mas e aí, mãe, rolou?

(crônica publicada em junho de 2004 na Revista da Folha. Desde então eu e JB nunca mais nos separamos)

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

14 thoughts on “JOÃO BATISTA

  1. Nossa, que crônica linda e emocionada. Tem razão, sorrisos não envelhecem, e tem encontros que, quando acontecem mais tarde, trazem outras perspectivas.

  2. Muito legal você compartilhar em seu blog este texto. Ele trás muitas coisas que eu não sabia, como por exemplo, de sua passagem pelo curso de arquitetura na FAU. Muito simpático seu namorado, o arquiteto João Batista. Pode parecer brincadeira, mas o achei muito parecido com um parente meu. Bem, mas isso não vem ao caso.

    Abraço do Jefhcardoso e que seja ótima a sua semana.

    • Não, Jeferson, o João Batista NÃO É MEU NAMORADO. Nós nunca mais deixamos de nos ver, como amigos. Boa semana pra você também.

  3. Muitos beijos a todos vocês, obrigada pelo carinho e voltem sempre.

  4. Ivana,

    A Andrea (Del Fuego) tinha me dito que você era sociologa e que escrevia super bem. Foi assim que descobri seus textos, há cinco anos.
    Também sou formada em C. Sociais e faço mestrado em Antropologia. =)

    beijos

  5. Gente, esse blog é demais! Cada visita uma supresa…
    Maravilhosas, a crônica e a história.

  6. Correção: “sorriso não envelhece”, no singular. É que pensei no meu também!

  7. Que delícia de crônica. Adorei, “sorrisos não envelhecem”.
    Abraços,

    Vera

  8. Faço a mesma pergunta da madoka. Você foi fzr C. Sociais dps?
    Reencontros assim são ótimos!

    beijos

    • É isso mesmo. Aos 30 anos eu resolvi voltar a estudar e prestei vestibular pra Ciências Sociais, na USP. Entrei na FFLCH em 1985. Me formei e fiz mestrado em Sociologia lá mesmo. Beijos

  9. Olá Ivana,

    Sempre estou por aqui lendo coisas no seu blog… gosto muito. Agora particularmente achei uma frase sua aqui maravilhosa que colocarei no meu blog (sobre literatura) com os devidos créditos, pode ser?

    A frase é: Tem encontros que são marcados para mais tarde.

    Um abraço,
    Andréa

  10. Ivana,
    eu li essa crônica, é a primeira vez desde 2004 que vc postou por aqui? Que loucura que é a vida. Tão gostoso vir aqui e (re)ler uma crônica tão deliciosa como essa.
    E vc é modesta, não era boa em exatas, mas entrando na FAU? Foi fazer C.Sociais na FFCLH depois?
    bjs

  11. pelamorrrdedeus!!
    que maravilhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!
    muitos muacks pra você(s)!!!!!
    ;o)

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