Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

CARTA À PATRÍCIA

7 comentários

Ontem eu a via daqui de cima. Você fica linda com este casaco. Impossível vê-lo sem lembrar Paris, quando morávamos numa água-furtada no Quenaisse e só tínhamos um casaco, este. Se um saísse, o outro tinha que ficar em casa, pois o frio era muito e o casaco um só. Ah Patrícia, não fosse esta sua estupidez e eu poderia agora estar escrevendo milhões de novas histórias.
Penso na delicia que era passar horas na escrivaninha, admirando a corte dos personagens criados. Bibelôs de porcelana trancados na prateleira de cristal. Mas com você deu-se o inverso: é você quem me espia preso nesta jaula de papel. Com a chave no bolso, você anda pelas ruas, toma táxi, viaja de avião. E eu? Quem me tira daqui? Se saio de casa é pior. Pra qualquer canto que eu olhe lá está você, rindo da minha cara, fazendo beicinho, me acenando com promessas que não cumpre.
A covinha do seu queixo fui eu que escavei, fato que você parece ignorar. No sexto dia da criação, olhei pro seu rosto tão perfeito e pensei: aqui no queixo vai bem um furinho. Agora, quando vejo seu olho arregalado me questiono: por que o fiz desta cor?
Fosse tudo imaginação e haveria o mundo dos meus personagens, onde eu seria Deus, e o mundo onde Deus velaria por todos nós. Mas desgraçadamente não existe nem uma coisa nem outra e é por isso que você existe, Patrícia.
Fosse tudo ficção e você agiria como eu bem quisesse, só diria o que me agradasse, faria tudo que eu, seu mestre, mandasse. Por mais que eu queira assim ou assado, você inventa sempre um terceiro modo de ser.

Que linda frase! Bravo! Passei por aqui pra me despedir e encontrei essas mal traçadas linhas sobre a sua mesa. Oh pobre… tão infeliz…
Tô me mandando, embarco amanhã para Zurique. O casaco, eu deixo de lembrança. Embrulhe a próxima pedra com ele. Beijos.
P.S.: Que tal fazer análise pra aprender a lidar melhor com a separação?

Ah, Patrícia, onde você foi parar? Pudesse eu prever o risco e não teria ido tão longe. Atirei uma pedra pro alto e ela caiu bem em cima da minha cabeça. Azar o meu. Sempre achei que estivesse a salvo dos meus personagens. Eles que fossem perturbar o sono dos meus leitores.
Fosse você menos burrinha e talvez tudo tivesse dado certo entre nós.
Pode levar este casaco horroroso. Ele vai te fazer falta. Sumam ambos da minha vida.
Mande-me postais.

Caro poeta de merda. O casaco continua comigo em Nova Iorque mas como tem feito um sol do peru, não tenho podido usá-lo. Envio-lhe estas fotos pra que você escreva lindas histórias sobre o tempo em que morávamos no Village e nos perdíamos na Big Apple.
P.S.: Continua sendo impossível olhar o casaco sem lembrar a trajetória da pedra, gracinha.

Quanta ingratidão, Patrícia. Pequim! Noiva de um chinês horroroso. Mas não se alegre, Pequim é só um nome, como felicidade, amor, Londres, Madagascar. Nós-autores vivemos de nomes, palavras, verbos, substantivos, adjetivos, advérbios. Vocês-personagens é que vivem de vida. É fácil acabar com o seu barato, basta não bancar mais suas despesas (já paguei o seguro do carro) ou rasgar tudo isso. Mande-me de volta o casaco que eu não sou de ferro.

Saravá, neguinho. O casaco não posso mandar porque deixei-o com um marinheiro em Istambul. Chego sábado no avião das dez. Por favor, não me rasgue antes que eu ponha os pés em terra firme.

(conto publicado no livro Histórias da Mulher do Fim do Século, lançado em 1997)

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

7 thoughts on “CARTA À PATRÍCIA

  1. Muito bonito, Ivana. BRAVO!

  2. Qual será a expressão certa a dizer depois desse conto. Acho que “puta que pariu que foda” cai muito bem. Vou ler de novo… beijo.

  3. Ô Ivana. Que belo conto, viu! Muito bom como é sutil essa coisa de criador e criação. Tem passagens ótimas.

    A parte que diz que nós escritores vivemos de palavras, substantivos e adjetivos que ela sim, criada, é quem vive de vida. Lindo!

    Ou será que entendi tudo errado? haha

    Abs.

  4. ô Ivana, por que tirou? eu reli com gosto o Medusa também. leitora atenta né?
    um beijo

  5. Mas também foi bom reler o Medusa. Gosto daquele conto!

    Abraços,

    Vera

  6. Obrigada, Madoka. É isso que dá publicar sem conferir. Agora sim, um conto inédito por aqui. Um beijo

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