Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

CÂMBIO, TÔ NA ESCUTA

5 comentários

Não. Eu não vou me sentir um ET, uma sub-espécie do gênero feminino, uma anormal só porque elas querem. Abro o jornal do domingo e leio que a mulher muderrrna pode sim usar aquela camiseta de 3 mil reais que tem no armário com calça jeans, mas nunca (ouviu bem? Nunca!) deve comer spaghetti na frente de estranhos.
Abro outro caderno e vejo que os pretês que as mulheres esperam devem levá-las pra jantar no Fasano, entender de alta costura e aparecer de surpresa com uma passagem pra Paris. Enquanto eles não chegam, elas vão catando homens como se estivessem no sacolão: colocam um de cada espécie no carrinho e pagam a conta no final. O cartão de crédito tem um limite que não se avista no horizonte.
Quem lê essas bobageiras comportamentais é até capaz de pensar que todas as mulheres do planeta têm ótimos empregos, carreiras de sucesso, moram em lofts e se divertem fazendo compras. Nas férias, vão esquiar em Aspen; são a favor da pena de morte e acham que carro blindado as protege de tudo.
Sinceramente, eu devo ter dormido em algum pedaço do filme.
Para quem falam essas mulheres? De quem falam essas mulheres?
Alguém viu uma mulher “normal” por aí? Câmbio, tô na escuta.
Bem fiz eu que, desde a mais tenra idade, sempre preferi a turma dos meninos. Mulher quando dá pra ser imbecil, sai de baixo. MENOS AS LEITORAS DESTA COLUNA, claro! Essas que formam comigo um batalhão de mulheres indignadas, fulas da vida, e que não se vêem retratadas na mídia que se pretende “de mulher para mulher”.
Mas sosseguem, meninas. Elas não nos expulsarão da sala. Até por que, o que seria dos rapazes se só restassem essas réplicas mal feitas de seriadinhos americanos sobre a face da terra? Já pensaram? Pobrezinhos…
Sim. A vida feminina continua inteligente e tem muita mulher feia pedindo passagem, muita mulher dura na queda, muita mulher gorda, muita mulher séria, muita mulher sozinha querendo um lugar ao sol.
Nada mais glamouroso do que uma mulher real, chafurdando no lamaçal da realidade, morrendo de rir de si própria.
Taí a minha sugestão para um lindo pôster de borracharia.

(crônica publicada na Revista da Folha em 2004)

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

5 thoughts on “CÂMBIO, TÔ NA ESCUTA

  1. TEXTO SUPIMPA!
    Meu novo vício é ler seu blog. De preferência dia sim, no outro também.

  2. Você é uma mulher de vanguarda! Em 2004 já falava de mulheres reais, coisa que só agora algumas marcas de cosméticos (como Dove) e revistas estrangeiras começaram a mostrar. Como também não me enquadro nesse estereótipo bobo, estou com você! Que texto maravilhoso! Sou sua fã!
    beijos!

  3. vc é maravilhosa, venho sempre aqui.
    e sendo uma mulher de verdade, aqui é meu lugar…rs…

  4. Ma-ra-vi-lho-sa como sempre!!!
    Mulheres reais… é disso que precisamos hoje. Fico feliz em saber que você nos dá essas em seus textos… na sua realidade ficcional. Seus contos, romances, artigos … todos contribuem para vivermos melhor.
    Obrigada, Ivana!
    Beijos
    Cintia (RJ)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s