Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

IZILDINHA

12 comentários

Quando Cristóvão me viu sentada no pátio do hospital, tomando sol, me achou linda e no mesmo instante quis me tirar de lá, casar-se comigo, ser pai dos meus filhos. Se aproximou, puxou conversa e desde então estamos juntos. Eu confiei nele de cara. Abri meu coração e contei minha vida inteira naquela tarde, ali mesmo sentada no banco do jardim do hospital.
Nunca tive pai nem mãe, fui criada em orfanato. Quando fiquei mocinha fui trabalhar em casa de família. Trabalhei numa porção delas, gente boa, gente ruim, gente de tudo que é jeito. Um dia o marido de uma patroa, um homem gordo, horroroso, grosseirão mesmo, foi ao meu quarto e me pegou à força. Eu pensei em ir embora, mas pra onde? A patroa era tão boa e o peste me dava dinheiro pra comprar o que quisesse: batom, ingresso pro cinema, fotonovela. As crises começaram nesta época. Às vezes de manhã, às vezes à tarde, mas quase sempre no meio da madrugada. Umas demoravam mais, outras menos. A dona me disse que eu não podia continuar morando lá, acordando o prédio inteiro, pondo tudo em perigo. Me pagou o que devia e me aconselhou a procurar tratamento.
No hospital público me fizeram um monte de exames e me mandaram para um outro, psiquiátrico, onde fiquei muito, muito tempo, até que Cristóvão, que na época era motorista do hospital, me conheceu e quis casar comigo. Por mim, eu não pensava em sair de lá. Confesso até que gostava. O pessoal dava comida, remédio, banho, tudo na hora certa. Quando foi falar com os médicos, eles disseram que problema grave eu não tinha. Na verdade, eles nem sabiam mais por que eu estava lá.
Cristóvão morava numa casa simples, mas muito arrumadinha. Ele dizia que sua maior alegria era chegar do serviço e me ver de banho tomado, toda cheirosa e arrumadinha, como a casa. Eu parecia outra pessoa. Nunca entendi como um homem tão bom como ele pode gostar de mim, me tirar do hospital, casar comigo. Quando fiquei grávida, foi a felicidade suprema. O menino nasceu forte que era uma beleza, nasceu criado. Eu pegava o menino no colo e custava a crer que fosse meu. Aliás, nada ali parecia meu.
Cristóvão trabalhou duro e progrediu muito na vida. Hoje tem uma frota de caminhões que atravessa o país de ponta a ponta. Transportadora Santa Izildinha em minha homenagem. Os filhos também são muitos, nenhum deu trabalho.
Moramos numa casa muito linda, com piscina, despensa lotada e empregado pra todo lado. Mas nada parece meu. As crises se foram de vez, mas ficou essa sensação esquisita de não se ter os pés no chão, não se sentir dona do lugar, essa névoa nos olhos. Quando converso sobre essas coisas com Cristóvão, ele diz para eu não me preocupar que ele cuida de tudo.
O hospital onde Cristóvão me conheceu é aqui perto. Se as crises voltarem quero que ele me leve de volta ao lugar onde me encontrou e me deixe lá, sentada no mesmo banco de jardim. E eu pensarei que foi tudo um sonho. Porque foi mesmo.

(conto publicado no livro Falo de Mulher, de 2002, que será relançado no 2o. semestre deste ano)

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

12 thoughts on “IZILDINHA

  1. comecei a suspirar e não parei mais.

  2. É uma emoção física, a gente vai lendo e vai sentindo junto com a personagem.

    Parabéns,
    Abraços e sucesso.

  3. Nossa, incrível! Linha após linha fui lendo e esperando algo terrível, kafkiano, uma tensão que chegou mesmo a me pressionar as ideias.

    Texto fascinante! Parabéns, querida.

    Um abraço.

  4. Sonhei um sonho tão longo e lindo com você essa noite.
    Lembrei dele não era nem oito da manhã.
    Fiquei com as imagens na cabeça…
    …está bem?

    bjos!

  5. Fiquei arrepiada ao ler esse conto!
    Será ue Freud explica isso?

  6. Belo conto Ivana! Infelizmente mostra que só nos sonhos algumas pessoas são felizes. Mas será que isso não basta também?

    abraços

  7. Poxa, Ivana, que conto magnífico.

    É uma narrativa tão inocente, tão ‘believer’ que nos deixamos levar tão fácil. E o final é o tipo de final que eu adoro nesses contos curtos, uma reviravolta, uma revelação.

    Muito bom mesmo!

  8. Maravilhoso! Lindo.
    No segundo semestre, que notícia boa, estou doida por um.

  9. Ivana,
    teu conto tocou profundamente meu coração.
    adorei.

  10. Que lindo! Maravilhoso, Ivana. Forte e elegante, como de costume. Um beijo!

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