Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

JULIO CORTAZAR, MEU ETERNO AMOR

4 comentários

Sempre que me perguntam “quais os autores que mais te influenciaram” a resposta vem pronta: Cortazar, Machado de Assis, Monteiro Lobato. Minha lista básica é essa. De tanto repetir, os mestres vão virando meros nomes descarnados. Mas como eles são mestres e grandes de verdade, volta e meia eles me pegam numa curva e me fazem cair de boca no chão. Outra vez.
Minha recente ida a Buenos Aires serviu, entre tantas outras coisas, pra reacender minha paixão por esse gigantesco (em todos os sentidos) escritor portenho. Comprei vários livros dele lá, entre os quais, um que eu nunca tinha lido: Los cosmonautas de la autopista que, soube agora, foi traduzido nos anos 80 pela Brasiliense. Acabei de comprá-lo por uma fortuna na Estante Virtual. Já li em espanhol mas quero ler de novo sem engasgar nenhuma vez.
Fiquei completamente estarrecida com esse livro. É o diário de bordo de uma viagem que Julio e sua amada Carol Dunlop fizeram de Paris a Marselha (800km) com “propósitos científicos e expedicionários” a bordo do dragão vermelho, Fafner, uma kombi adapatada onde eles tinham uma cama que se abria, geladeira, fogãozinho, cadeiras pra tomar sol, livros, fitas cassetes e máquina de escrever. A regra era não sair da autopista até chegar ao destino, parando em todos os estacionamentos da beira da estrada (mais de 60). Almoçariam no primeiro e dormiriam no segundo. Nos estacionamentos onde houvesse motel, poderiam usufruir do conforto de uma noite melhor, mas fora isso, não poderiam sair da estrada por nada do mundo. E olhe que foram tentados! A viagem durou trinta e poucos dias, entre maio e junho de 82. Eles levaram comida, bebidas (bebiam muito) e contaram com a visita (previamente programada) de amigos que foram ao encontro deles por duas vezes. Está tudo anotado numa prosa “científica” muitíssimo bem-humorada e, principalmente, apaixonada. A maioria dos textos é do Lobo (eles se chamavam de Lobo e Ursinha) mas tem alguns também da Ursinha. Você acompanha esses dois moleques malucos apaixonados até a última página sem saber o que te espera.
No última página Júlio nos conta que voltando a Paris partiram para Nicarágua (ele estava muito envolvido com a luta do povo nicaragüense) e logo depois descobriram que Carol estava doente. A princípio pensaram que se tratava de um mal estar sem importância mas a verdade é que em dois meses ela estava morta. O céu desabou sobre a minha cabeça. Carol morta? Aquela mulher maravilhosa, que escreveu coisas lindíssimas e apaixonadas pro Lobo, aquela mulher sobre quem o Lobo se derramou revelando intimidades absolutamente umidificantes morreu? E a gente termina o livro assim, no ar. Sem saber o que pensar nem o que sentir.
No youtube tem a voz do autor lendo este trecho do livro. De morrer.
E como tudo é meio sincrônico nessa vida, hoje saiu um ótimo artigo do escritor argentino Damián Tabarovsky na Ilustríssima onde ele diz que Cortazar “é o nosso tio legal e meio maluco” onde ele ressalta a impressionante jovialidade de Cortazar.
Foi quando eu tomei a segunda porrada ao me dar conta que o Cortazar nasceu em 1914! Ele é muito velho. Se fosse vivo, seria 11 anos mais velho que meu pai. Nas minhas contas ele era um pouco mais velho que eu. Ele era da minha vanguarda, dos anos 50. Não! Ele foi da vanguarda dos anos 20, 30. Quando eu nasci ele já estava em Paris, exilado, e tinha acabado de publicar O Bestiário.
Essa juventude dele permanece pra sempre. Lendo os Autonautas você pensa que ele é um dos beatnicks. Os últimos livros dele, por exemplo, eu nem gosto muito de tão experimentais que são. Que mistério essa juventude de Cortazar. Um dos segredos dela, com certeza, é o seu humor. Na vida e na literatura.
Viva Julio Cortazar, o maior autor da América Latina. Um dos maiores do mundo.

E.T. Ontem eu vi o Cortazar lendo o trecho onde ele fala da doença da morte de Carol no youtube. Juro que vi. Hoje, cansei de procurar e nada. O Lobo deve estar de broma comigo. Se você encontrar, por favor, me manda.

Atualização: Julio Cortazar nasceu em 26 de agosto de 1914 e não 1924 como escrevi anteriormente.

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

4 thoughts on “JULIO CORTAZAR, MEU ETERNO AMOR

  1. que lindo Ivana, lindo texto me deu vontade de ler algo do Lobo. Acho que tenho em casa esse livro do Cosmonauta. Será que na Estante fazem entrega no exterior?
    Obrigada pelas dicas incríveis.
    bjk

  2. é Ursinha, não Oncinha. Do resto assino embaixo feliz.

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