Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

QUER ME VER?

6 comentários

Estava eu num domingo à tarde tomando cerveja na casa do meu amigo João Batista (lembram dele?) quando toca o celular. Eu atendo. Eu sempre atendo. “Quer me ver?”, foi a pergunta do outro lado. Voz de homem. E não era um “quer me ver” docinho. Aquilo era praticamente uma intimação policial. “Quer me ver?” Céus… reconheci a voz. O cara desapareceu há um ano e agora, às 17:30 desse domingo maravilhoso, me liga e, sem nem perguntar se eu estava bem, o que eu andava fazendo, se eu tinha compromisso para logo mais, se eu ainda me lembrava dele, dispara a pergunta: quer me ver?
Eu ainda tentei entabular um papo decente: olha, estou na casa de um amigo, me liga amanhã, tudo bem com você? Mas quem disse que ele me ouvia? Ficava repetindo a pergunta feito um papagaio: “quer me ver?”. Alto lá, as coisas não são bem assim. O cowboy abre a porta, pára no meio do saloon, mostra o revólver na cartucheira, olha pra mocinha sentada a sua frente e dispara: quer subir na minha garupa, baby? Onde estamos?
Partindo do princípio de que sujeito é quem pratica a ação, me responda: quem ligou pra quem? Quem estava querendo ver quem? Logo, o sujeito da frase não era eu, mas ele. O correto seria dizer “eu quero te ver”, concordam? Mas não, ele preferiu jogar o abacaxi nas minhas mãos. Se eu fosse encontrá-lo é porque eu queria vê-lo.
Dizem que pretensão e água benta não fazem mal a ninguém, mas a pretensão masculina, muitas vezes, beira o ridículo. Sou até capaz de ver a cena: domingo à tarde, o cara sozinho em casa, festa de encerramento das Olimpíadas, copinho de cerveja na mão, por que não? Sim, claro! Abriu a agenda e ligou. O que de melhor eu teria para fazer numa tarde linda como aquela do que ir correndo ao seu encontro?
Pois a história não terminou aí. Às 9 da noite, ele ligou de novo. “Você ainda está na rua? Quer me ver?”. Aí eu desliguei sem nem responder.
Cá entre nós, mesmo se ele tivesse dito “tô morto de saudade, quero te ver” eu não iria. Nossos encontros não foram lá grande coisa, mas pelo menos ele teria passado para a história como alguém mais razoável.

(crônica publicada na Revista da Folha, num longínquo 2004)

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

6 thoughts on “QUER ME VER?

  1. achei o assunto fantastico mais acho melhor desligar o telrfone agora

  2. O tempo passou, mas o texto continua atualíssimo. Sobram folga e ego inflado pelaí. Cabe a cada um dar o limite. O seu foi simples, num só toque de dedos.

    Por essas e outras é que adoro vir aqui. Beijão

  3. A parte do abacaxi achei demais; passar para o outro a decisão que seria minha, mas não sei porque nunca consegui usar essa tática, acho que há que se ter talento para esse jogos de sedução.
    PS. Tive a sorte de lê-lo num longinquo´2004 e nem me parece tão longinquo assim. E esse trecho já me pegou lá atrás. Pois é, continuo sem noção…

  4. Oi Ivana,

    De vez em quando passo por aqui.
    Hoje resolvi opinar: seria o caso de um Ego inflado ou estupidez mesmo? Talvez, uma hipótese não exclua a outra. Sem dúvida, não olha para fora.
    Alívio ler que o telefone foi desligado!

    Beijos.

  5. Tem gente que acha que pode utilizar a agenda telefonica como um cardápio. E o pior de tudo é que não sabe ser gentil, seduzir…
    Eu já passei por isso. E pela insistência e grosseira do cara, eu decidi ficar surda e muda para ele.

    beijos

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