Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

FRIDA CALLAS

6 comentários

Não, eu não errei o nome de Frida Kahlo nem de Maria Callas. Só juntei as duas.
Mal terminaram as férias e eu peguei uma pneumonia.
A angústia de ter que voltar ao trabalho era tão grande (só quem detesta o que faz, entende o que eu digo) que meu pulmão aderiu à epidemia que grassa na cidade e me deu este presente. Bendita pneumonia. Voltei pra casa, pra cama, pra televisão. Só que desta vez, dei uma incrementada: comprei um DVD.
Bem sei que não é de bom-tom sair falando por aí que não se é feliz no emprego que se tem. A regra n. 1 de qualquer manual de auto-ajuda é “trabalhar com prazer”. Como se isso fosse possível! São poucos os que podem se dar ao luxo, e eu nunca fiz parte desse rol de abençoados. Por sorte, sempre tive a literatura como respiro. A arte em geral foi o tubo que me garantiu a sobrevivência até aqui. E aí eu volto a Frida e Callas.
No meu repouso, assisti dois filmes que adorei: Frida e Callas forever.
Não vou falar dos filmes, mas das mulheres maravilhosas que os filmes mostram. Mulheres que só confirmam a tese que defendo cada dia com mais convicção, de que a arte é só o que resta, depois dos nove fora tudo. A arte nos faz melhores, nos transforma e transforma o mundo a nossa volta. Ela não só dá sentido à nossa vida, como lhe confere uma dignidade que dificilmente obteríamos de outra forma.
O que seria de Frida sem a pintura? De Callas sem sua voz? Duas mulheres malucas que se entregaram sem medida e estragaram suas vidas por causa de uns babacas, que nunca as mereceram nem lhes deram o justo valor. Duas dentre as muitas que conhecemos. Entretanto, a arte fez de cada uma delas um monumento, patrimônio e orgulho da humanidade para todo sempre.
Frida Kahlo e Maria Callas souberam transformar a tragédia da existência em obra prima. Para que mais viemos ao mundo?
Meu panteão de mulheres sagradas, que tem Elis no altar principal, cercada por Maysa, Marilyn Monroe, Dina Sfat, Leila Diniz e tantas outras, ganha mais duas estatuetas diante das quais me ajoelho. Nenhuma delas foi funcionária pública, mas todas sofreram como eu.

atualização ainda em tempo: essa crônica foi publicada na Revista da Folha em 2004. A pneumonia aconteceu há 6 anos!

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

6 thoughts on “FRIDA CALLAS

  1. Adorei e concordo plenamente com tudo o que vc diz… Sofrimento no trabalho burocrático e de direção duvidosa que nos consome… Que bom te conhecer e saber que esse sentimento é compartilhado… Também busco obter prazer na arte: livro, cinema, teatro, exposições… Isso sim “lava” a alma! Abraço.

  2. Eu entendo perfeitamente quando você diz que só a arte salva… e nela eu tenho tentado livrar minha cabeça da forca de todos os dias, do meu trabalho (público) burocrático e da minha vidinha suburbana. Adorei o blog. Um abraço!

  3. Ufa! Há 6 anos!? Menos male!!! Já passou. Beijos

  4. Nossa, pneumonia!? Melhoras, Ivana! Você já é uma das minhas musas!!! Se cuide!!! Olha a friagem…
    Falta muito pra você se aposentar no serviço público? Tomara que não pra você ficar “só” escrevendo porque é bom demais pra todos, pra você e pros seus leitores, né!?
    Beijão

  5. tb não gosto do que faço. tb tenho musas que sofreram assim como sofro, frida está no topo da minha lista. pior que vc, sou funcionária de uma multinacional, há 10 anos. tenho 28. os 29 estão chegando e me pergunto o que fiz. o que farei, se é que farei algo pra se ter orgulho. tenho planos, que não morram comigo, espero. os planos, além da arte, me alimentam e sigo. beijo.

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