Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

PALAVRA DE MULHER

5 comentários

Hoje eu trago à baila uma discussão sempre presente nas rodas de pessoas ligadas à literatura, mas que pode perfeitamente ser estendida a outros campos.
Literatura feminina. Existe? Não existe?
Geralmente as escritoras ficam possessas com esse adjetivo. Literatura é literatura, independente do sexo – dizem elas. Eu concordo, mas com ressalvas. Vou tentar me explicar. Homens e mulheres são diferentes. Até aqui, tudo bem? Temos histórias diferentes, visões de mundo diferentes, emoções diferentes. O que quer que a gente faça, leva a nossa digital. É impossível passar ao largo das diferenças, nem que seja para contradizê-las frontalmente.
O escritor fala de sentimentos humanos, independente do sexo. Mas se o texto foi escrito por uma mulher isso há de estar lá dentro. Se a condição feminina impregna nossas ações, pensamentos e emoções como ela não estaria presente na obra que produzimos?
O que não quer dizer que lendo um conto ou um romance pode-se acertar o sexo do autor. Homens escrevem como mulheres e vice-versa. A nossa marca não está no texto em si, mas na maneira como ele é produzido.
Agora, o que também me deixa brava são os preconceitos que o termo esconde. E é aí que a coisa se amplia: 1. todas as mulheres escrevem igual. É muito fácil passar por cima das diferenças e nos ver como uma coisa só; 2. literatura feminina é sempre melada, anêmica, cor-de-rosa. Como se toda mulher fosse mulherzinha; 3. Mulheres só escrevem sobre mulheres. Como se não tivéssemos capacidade (ou autoridade) para falarmos de nada que fosse além do nosso umbigo, do nosso mundinho de faz de conta.. No caso da literatura, basta uma rápida olhada pela produção literária das mulheres de hoje em dia para ver que essas hipóteses não se verificam.
Mesmo assim eu acho mais instigante o desafio de provar que a literatura feminina pode ser de altíssima qualidade, do que tentar a extinção do termo.
Por isso, quando me perguntam, eu respondo com o maior orgulho: literatura feminina existe sim, e daí? Vai encarar? Senta aqui e vem ver o que uma mulherzinha é capaz de fazer com a sua cabeça.

(crônica publicada na Revista da Folha em 2004)

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

5 thoughts on “PALAVRA DE MULHER

  1. Bravíssimo!!!!

  2. Concordo também com você Ivana e acho que a mulher ainda tem pouco espaço editorial, por exemplo (Não acho vocês nas livrarias com faclidade. Os vendedores não conhecem. Sério! É muito difícil, fico pê da vida!). Por isso, demarcar terrítório ainda é necessário. A relação de gêneros é um processo histórico e cultural conhecido de todos. Você escreve maravilhosamente bem, retrata, sacode e critica, com seu humor, ora satírico ora ferino, sobre isso e muito mais. Fala da condição humana e isso é Literatura das boas.
    A coletânea da qual participou do Ruffato veio bem pra isso: pra dar mais visibilidade às escritoras… e deu. Eu te conheci ali e também a partir de “Os Cem menores contos”, organizado pelo Marcelino Freire. Querendo ou não, não há como negar que ainda, infelizmente, existem mais espaços para homens e o machismo ainda impera em muitos lugares do Brasil (A Lívia Garcia-Roza fala bem sobre isso em seus textos). Não será um adjetivo “feminino” que irá nos diminuir ou à literatura escrita por mulheres. A Literatura de Patrícia Melo também é feminina porque é escrita por mulher. E é preciso entender isso. Nós mesmas, mulheres, precisamos desfazer esse estigma que pesa de forma pejorativa sobre o vocábulo “feminino”. Vamos nos assumir, sabendo bem o que isso significa como você disse. A-do-rei! Desculpe a extensão do comentário… Bjs, Cintia (RJ)

  3. Eu concordo total com você…
    não adianta a gente dizer que não tenha um peso de mulher na mão da literatura que mulher faz. Bobagem.
    Mas mais bobagem ainda é pensar que essa mão só fale de feminices. Tem muita mulher produzindo literatura tão universal quanto qualquer homem faria.
    O problema, penso eu, tá na preposição: é literatura feita por mulheres, e não para mulheres.
    Como a sua: coisa doida de boa.
    Um beijO, querida!

  4. Oi Ivana! Delícia ler vc! Literatura feminina é um rótulo pra distinguir da literatura não feminina (ou seja, masculina?), como se no mundo sempre o literário estivesse próximo do homem como autor e dono da palavra. E houve um tempo em que era assim. O feminino não é necessariamente flor, aroma, mãe, lágrimas, dias de sol ou amor à luz da lua. O feminino é bruxo, violento, erótico e perspicaz, irônico na medida, mordaz na saída, surpreendente no tom. O feminino é pura poesia e só um(a) poeta pra perceber e representar isso. BJS!

  5. E você Ivana faz uma literatura de altíssima qualidade! Às vezes concordo com essa distinção outras discordo. Mas acho que essa discussão sempre existirá. No momento concordo com você! rs

    bjos

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