Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

CIBELE

5 comentários

Cinara e eu somos quase uma só, embora tenhamos cada qual sua cabeça e o seu próprio coração. Os braços são quatro, mas nenhum inteiro. Eu tenho o direito quase perfeito (falta-me o dedo mindinho) e um cotó do lado esquerdo. Cinara é o inverso, o esquerdo inteiro e um cotó à direita. Conclusão: o meu braço direito se junta com o esquerdo dela e somos capazes de quase tudo. Fazemos tricô, ajudamos mamãe na cozinha, cuidamos do jardim, varremos a casa, aplaudimos o que gostamos, fazemos gestos obscenos ao que não gostamos, tudo em dupla.
Quando nascemos, ninguém acreditava que sobreviveríamos. “Não duram até amanhã”, disse o médico ao nos extrair feito um ciso encalacrado. “Um monstro”, disse papai ao nos ver.
Mamãe reagiu diferente. Sabia que os cuidados seriam muitos, mas acreditava no poder do seu amor e sabia que, a depender dela, teríamos as mesmas chances que as meninas todas têm.
Conforme fomos crescendo, foram aparecendo as diferenças. Não só físicas, como de temperamento. Ainda bebê, eu gostava das bonecas e panelinhas, enquanto Cinara arrastava-se na direção oposta, encantavam-lhe a bola e os peões. Quando contrariada, se punha a berrar no meu ouvido. Sempre preferi ceder aos seus caprichos a ouvir a gritaria.
Na escola, embora tivéssemos cada qual os seus pertences, livros, cadernos, caneta, borracha, tudo marcado com nome próprio, ocupávamos uma carteira só.
Cinara era ótima na álgebra e na geometria. Mínimo múltiplo comum ela tirava até dos milhões, sem esquecer um. Já eu preferia as lições de português. Minhas redações eram elogiadíssimas e sempre mereceram dez com louvor. Cinara também tirava dez, mas sem louvor, pois a professora sabia que eram feitas por mim. Assim como sabia que ela me ajudava nos problemas mais difíceis. No nosso caso, evitar a cola era impossível.
Quando vieram os bailinhos, mamãe fazia uns vestidos lindos, uma saia e duas blusas, e lá íamos nós, cada uma com um penteado diferente.
Os meninos se atrapalham um pouco. Se escolhem uma pra dançar, levam a outra de contrapeso. Eu finjo que não vejo os beijinhos na ponta da orelha, as confidências, as juras de amor que fazem a Cinara. Ela faz o mesmo quando chega minha vez. Se uma tem sono, encosta no ombro da outra e dorme. Cada uma cede um pouco, de outra forma nossa vida seria insuportável.
Cinara sempre preferiu os rapazes falantes, que dançam rock and roll, bebem cerveja e fumam sem parar. Fico tonta com tanta fumaça. Ainda bem que meus pulmões não são os dela. Nem o coração. Quando Cinara bebe, fico zonza sem querer, pois sempre sobe um pouco de álcool pra minha cabeça. Ela se envenena e eu padeço junto.
Outro dia, Cinara ficou sabendo de um pai-de-santo que via o futuro nos búzios. Quis ir ao terreiro. Eu achei um absurdo, sou católica e disso não abro mão, mas não pude escapar dessa.
Quando vou à missa, Cinara xinga o padre o tempo todo, goza da cara de todo mundo, mas vai. No confessionário, ela ri dos meus pecados e fica dizendo que o padre peca tanto quanto todos nós.
Pois não é que no tal terreiro, no meio da cantoria, Cinara foi tomada de repente? Se pôs a girar e levantar a saia, que é minha também, às gargalhadas. Minha irmã estava irreconhecível. Grudada nela, saracoteei pela sala inteira feito uma maluca. Eu morria de vergonha sem ter onde me esconder.
Ao fim de tudo, o pai-de-santo explicou que Cinara, se quiser, pode fazer carreira na umbanda, virar filha-de-santo, tem mediunidade pra isso, só falta desenvolver. Mas dessa vez eu não cedi. Aqui não piso nunca mais, eu disse batendo o pé no chão, o pé que é dela também. Em troca, nunca mais Cinara foi comigo à igreja.
Mas tudo que passei até agora foi café pequeno perto do que passo agora. Cinara está namorando Benevides. Há muito sou apaixonada por ele. Quando o conhecemos ele nos encantou igualmente, a ambas, mas ela tomou a dianteira. Tanto exibiu-se, tanto fez, tanto cantou com sua voz maviosa, tanto pôs-se à janela e penteou os cabelos com sua blusa decotada que o rapaz a pediu em namoro.
“Feche os olhos”, ela me pede quando os beijos ficam mais calorosos. Meu sangue ferve por dentro, mas eu agüento calada. Bem ou mal, estou perto do Benevides, escutando sua voz, e são também minhas as pernas onde ele põe a mão.
Bem sei que Cinara só está com ele por causa de seus olhos azuis e do porte atlético. Quem o ama de verdade sou eu, e não estou disposta a sair perdendo dessa vez. Por isso escrevi uma carta ao Benevides confessando o meu amor. Sigo o conselho do pai-de-santo que me disse pra enfrentar a Pombagira e cuidar do que é meu. A ela não faltarão pretendentes. Dessa vez estou disposta a lutar até o fim.

(conto publicado no Falo de Mulher)

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

5 thoughts on “CIBELE

  1. Copiei, colei e imprimi. Valeu! Na quinta vou mostrar pra turminha e no domingo tem reunião do Carrossel das Letras nosso grupo que agora vai fazer novo livro. Visite a gente, está dispensada de recadinhos ahahah! E saiba que nossa atual presidente a Regina Ramos dos Santos é também a presidente do hospital da cidade, fato inusitado e bacana. Nós bancamos nossas coletâneas e damos parte da venda pras instituições daqui. Inclusive o hospital. Estivemos um pouco parados, mas agora estamos retomando. Obrigada! Fatima http://carrossellaguna.blogspot.com.br

  2. Ivana faz tempo não apareço e ontonti andei por aqui mas só vi reforma,
    comida e eventos. Sim comida e eventos literários são tudibom mas eu queria algo ivanamente. Agora achei. A crítica já te consagrou e sou só uma leitora (tambem escrevo umas coisinhas) mas este conto é tipicamente ivanático!!! Voce tem uma leveza, uma mágica assim de …inventar certas coisas que existem, e deixas a gente de boca aberta. Um dia quero conhecer vc só pra dizer: caraca! Vc escreve de um jeito que merece sim estar ao lado da Lygia, da Clarice… conforme disse a outra leitora. Um amigo daqui (o Carlos Schroeder) quando faz oficina com a gente fala assim: “não queiram escrever como fulano, escrevam como voces”. Então é isto: Ivana conseguiu a façanha. Coisa mais bacana ! Este conto tá com a leveza o frescor e a isenção daquela fotinhu sua na escola primária. Lindo, linda!
    Abraço da Fatima. Aqui da Laguna/SC

  3. Dá pra dividir quase tudo, menos um amor. Cibele não é boba!!

    beijos

  4. Olá Ivana
    Sou psicanalista e adoraria ler “falo de mulher”.
    Procurei nas livrarias virtuais, mas não está disponível…
    Como faço para adquirir?
    Atenciosamente
    Michaella

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