Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

AS RENAS QUE NOS ATROPELAM

4 comentários

De uns tempos pra cá, tem sido cada vez mais freqüente ouvirmos pessoas dizendo: “não suporto Natal. Não vejo a hora de acabar dezembro. Natal bom é Natal de infância”. De fato, o tempo passa e mudamos todos: o Natal, nós e tudo ao redor. Ficou lá atrás o perfume do peru no forno, o blim-blom dos sininhos na porta, a vontade de saber o que são aqueles presentes embaixo do pinheiro de plástico no meio da sala. Quando vemos, estamos caídos na sarjeta, atropelados pelas renas do papai Noel.
Se você teve a sorte de formar uma família que deu certo, ótimo. Talvez sua noite de Natal continue sendo com crianças correndo ao redor da mesa com toalha vermelha. O problema é que cada vez menos gente se encaixa nesse padrão e, com isso, aumenta o número daqueles que sentem o pescoço apertado pelo imenso laço que embrulha o mundo inteiro pra presente nessa época.
O Natal virou propriedade das famílias felizes. De preferência, católicas. Parece que a turma do shopping seqüestrou o Natal e não deixa ninguém mais entrar na brincadeira. Péra, aí. Eu também quero uma lasquinha desse panetone.
Começo aqui um movimento pela democratização do Natal – o M.D.N. Vamos escancarar. Natal é de todo mundo: dos casados, dos solteiros, dos viúvos, das santas, das prostitutas, dos moços, dos velhos, dos católicos, dos protestantes. Pode até ser dos judeus, se eles quiserem. Quem quiser, que se sirva à vontade. Que todo mundo comemore o nascimento do menino a quem chamamos Deus.
Vamos tirar o Natal da sala de visitas e levá-lo para as ruas, praças e lanchonetes. Natal também pode ser comemorado com cachorro-quente, cerveja e batata frita, com média e pão na chapa, por que não? E olhe que eu não estou falando de “um Natal brasileiro”, não! Estou sim falando de solidão e do direito dos solitários terem a sua festa.
Viva o Natal da criança feliz, mas viva também o Natal da criança infeliz, da criança sozinha, triste, da criança doidona. Fim ao Natal de novela. Invente uma noite que seja a sua cara. Nem que seja para chegar à conclusão de que o Natal é mesmo uma festa um pouco triste.

(crônica publicada na Revista da Folha no Natal de 2004, a penúltima).

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

4 thoughts on “AS RENAS QUE NOS ATROPELAM

  1. Ai que bacana! Estou encenando um espetáculo chamado Jingobel que é bem esse texto. Uma mulher solitária, desesperada e armada, sequestra outras duas moças igualmente solitárias pq não quer passar o natal sozinha.

  2. Penúltima crônica!!

    Ih, acho que você vai ter que escrever mais algumas para nós…

    Bjs!

  3. Acho que o que eu mais curto na sua literatura é uma coisa que vc produz com as palavras: oxigênio para a alma da gente! Abraço. Fatima/SC

  4. Desde pequeno, sempre odiei aquelas luzinhas piscando infinitamente, me dão uma aflição insuportável! E a avalanche de propagandas e músiquinhas enojantes… Afe! Dá vontade de tacar fogo em tudo!

    O natal pra mim tem outro nome: MATAL, porque nos sufocam com tantas propagandas, e o diabo a 4!

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