Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

SAVANA

3 comentários

Um dia ele me ligou me convidando para ir ao cinema: Eu estranhei. A gente era amigo, batíamos longos papos na concentração, dormíamos no mesmo quarto, mas fora de lá a gente quase não se encontrava. A parada dele era outra. Outra turma, outras baladas. Pagode, mulheres. Sempre fui mais sossegado.
– Passo na tua casa às sete e meia pra te pegar.
Quando entrei no carro e vi ele na maior estica, uma beca no capricho, um perfume da hora, até brinquei:
– Cê tem certeza que é comigo que você quer sair?
Ele ligou a Mercedes e saiu cantando pneu. Antes de entrar no cinema, metemos um boné na cabeça, pusemos óculos escuros e fomos correndo, olhando pro chão. Se a galera descobre que é a gente é uma aporrinhação, autógrafos, fotografia e adeus cinema. Por isso que eu quase não saio de casa.
Nem lembro o nome direito do filme, só sei que contava a história de dois cowboys que se apaixonaram um pelo outro. De vez em quando eles se encontravam numa montanha e namoravam. Mas na maior parte do tempo, cada um tinha sua vida, eram casados, tinham filhos, sogra, tudo normal.
Quando percebi a temática, fiquei tão nervoso que não deu nem pra entender a história direito. Só sei que no final um deles morre e outro fica sozinho, com a camisa do que morreu.
O tempo todo eu ficava me perguntando: cacete, por que será que ele me trouxe pra ver justo essa porra de filme? Será que ele percebeu alguma coisa? Impossível. Eu nunca dei a menor bandeira, a menor pinta, nunca fiz uma insinuação, uma brincadeira, nada. Machão como ele é, eu sabia que era fazer uma gracinha e levar uma bifa na cara. Eu já vi ele fazendo isso com uma bicha que se engraçou pro lado dele. E o que eu tinha mais medo na vida era de perder a amizade dele. Se nem amigo a gente fosse, aí é que eu tava fodido de verdade. Saí do cinema na minha.
– E aí, gostou do filme? – ele perguntou com um sorrisão na cara.
O filho da puta tá querendo tirar uma – eu pensei.
Aí, em vez de me deixar em casa, ele entrou no maior restaurante chique, desses de ricaço mesmo e pediu champagne. Eu não tava entendendo nada. Se a gente nunca saiu junto, por que isso tudo agora? Que parada mais estranha. E quanto mais ele conversava e ria e ficava à vontade, mais eu me afastava e ficava puto. Esse cara tá gozando da minha cara.
Mal terminamos o café, eu pedi pra ir embora.
– Já? É cedo ainda. Que tal se a gente entrasse aqui? – ele disse parando na porta de um motel na marginal.
Aí meu sangue subiu e eu agarrei ele pelo colarinho.
– Qual é, cara?! Que palhaçada é essa?
Foi então que ele pegou no meu pau e me disse olhando no olho:
– Seu trouxa. Eu também sempre te quis, só que eu não tava preparado. Aliás, acho que a gente já perdeu tempo demais – e entrou no motel de língua e tudo.
Logo depois a gente embarcou pra Alemanha e faturamos o hexa. Nós dois fomos as estrelas da copa. No mundo inteiro, só dava nóis. Nunca se viu dupla tão afinada.
O professor já falou que estamos escalados pra copa da África do Sul. Vamos arrebentar de novo, sete é o meu número de sorte. Depois da Copa, já combinamos de fazer um safári pra comemorar os quatro anos que a gente tá junto.
Na seleção, todo mundo sabe do nosso caso. A gente não tá nem aí. A moçada até respeita. Mas se algum jornalista insinua alguma coisa, a gente mete um processo, senão vira esculhambação.

(conto publicado na antologia Bêbada pela falecida ed. Ciência do Acidente. Org. Joca Reiners Terron não sei onde nem quando, preciso pesquisar. Achei: foi em 2006, numa Revista da Mercearia onde se publicou contos sobre Copa do Mundo)

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

3 thoughts on “SAVANA

  1. O post acima, do jantar japonês entre amigas deu água na boca, mas os sentidos foram saciados com esse texto bacanudo sobre a hipocrisia. Abração

  2. Muito bom, guria! Muito bom!!!
    O rango com enguias ficou chique hein?
    As fotos idem. Abraço daqui de Laguna/SC.
    Fatima.

  3. Excelente. Me lembra Ibrahimovic e Piqué. http://nikitoblog.files.wordpress.com/2010/05/ibrahimovic-e-pique2.jpg O processo sobre a mídia é só pra não “virar esculhambação”, embora, claro, eu não fizesse questão de processar caso fosse algum deles. Pelo contrário.

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