Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

BARTLEBY E COMPANHIA

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O segundo livro que leio este ano, na verdade, é uma releitura sempre sempre encantadora. Nem sei se é a terceira ou quarta vez que leio essa joia rara desse não menos raro escritor, Enrique Vila-Matas. Corria o ano de 2004, quando o Alê, Alexandre Barbosa, que então trabalhava na Cosac Naif, me convidou para ir ver uma palestra de um autor muito bom etc etc. Vila-Matas estava no Brasil e ia conversar com leitores na livraria Cultura do Shopping Vila-Lobos. Devo ter achado engraçada a coincidência dos hífens: Vila-Matas no Vila-Lobos. Se não achei, acho agora. Comprei o livro (na verdade ele estava lançando Viagem Vertical, que eu comprei também), ouvi a palestra e voltei pra casa louca pra ler o tal autor genial. Oh, céus, que decepção. O cara falava sobre autores que não escreviam ou que deixaram de escrever ou que nunca escreveram um livro na vida. E que romance mais esquisito! Desde quando aquilo era romance??? Um caderno de notas sobre autores que foram acometidos pela síndrome de Bartleby. Abandonei no meio e fui ler escritores que gostavam de escrever e que estavam produzindo a mil (como eu, na época). O tempo passa e eu retomo o livro já com algum interesse mas não muito. O tempo passa mais um pouco e eu chego a Vila-Matas por outras vias, me apaixono por Paris não tem fim e volto ao Bartleby. E aí entra o exagero típico de Ivaninha: é o melhor livro que eu já li na vida (moderem isso, por favor) – a minha Bíblia nesses tempos de secura total em que estou jurando nunca mais escrever uma linha sequer. Além da delícia de gênero que ele utiliza (o romance “desconstruído”, para sermos sintéticos e moderninhos), o tema é um primor. Não sei se tem algum interesse ao leitor “comum”, aquele que não tem vínculo oficial com a literatura, mas aos escritores o livro é de extrema valia. Ele vai atrás de escritores (reais e fictícios) tomados pela “pulsão negativa”, aquela que faz o camarada colocar o ponto final definitivo na sua obra (tenha ela existido ou não). Transcrevo aqui algumas frases grifadas ao acaso e o autógrafo do mestre pra te fazer inveja.

“Quando lhe perguntavam por que não escrevia mais, Rulfo costumava responder: “É que morreu meu tio Celerino, que era quem me contava as histórias”. (Vila-Matas diz que todo autor tem um tio Celerino e que quando ele morre…)

“um amigo me dizia que hoje em dia para ser escritor é preciso ter mais força física que imaginação. São a seu modo de ver, excessivas entrevistas, congressos, conferências e apresentações diante da imprensa”.

“Bergson definia o humor como uma espera decepcionada”

“escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos”.

“minha melhor obra é o arrependimento por minha obra”

pra terminar, o caso do poeta que escrevia seus poemas num papel e depois enrolava e fumava o poema responde ao ser questionado: “o importante é escrevê-lo”.

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

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