Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

BERENICE

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Seu sonho era casar-se como Lady Di, Gracie Kelly ou Jaqueline Onassis.
O pai vendeu o que pode, a mãe fez salgadinho pra fora, a costureira do bairro copiou com perfeição o modelo da revista importada.
As madrinhas de chapéu, os padrinhos de fraque, a igreja mais chique da cidade. Castiçais, canto coral, Jesus alegria dos homens. Depois, orquestra e camarão a noite inteira.
No dia do casamento, ela passou a tarde no cabeleireiro. Um véu imenso caindo feito cachoeira da grinalda de pérolas. Camadas e camadas de tule cintilante. A maquiagem era suave, as princesas costumam ser discretas. Um primo de um tio avô emprestou a Mercedes que a levaria à igreja.
Às seis da tarde o trânsito da cidade é infernal. Sentada no banco de trás, Berenice parecia um bibelô. O motorista ligou o rádio para distraí-la. O noticiário anunciava um congestionamento monstro tomando a cidade inteira. A testa de Berenice salpicou-se de suor, as mãos ficaram geladas, os pezinhos de cetim balançavam-se aflitos. Ela atrasaria mais de meia hora. Que o motorista entrasse numa rua qualquer, tentasse outro caminho. Pela marginal o trânsito costuma ser melhor. Ao ver tudo parado, a noiva deu os primeiros sinais de desespero. Talvez devessem pegar a direção contrária. Desabotoou o vestido pra poder respirar, mas nem assim. Uma hora de atraso é muito tempo. As princesas não costumam se atrasar tanto. Basta uma chuvinha à toa e pára tudo, ela dizia com a voz embargada, o jeito é cortar caminho pela favela.
Uns meninos que brincavam na rua foram chamar o borracheiro que jogava dominó no bar em frente. Vê se isso é hora de furar pneu. Sozinha no carro, Berenice se lembrou da Lady Di, da Gracie Kelly, da Jaqueline Onassis. Todas morreram tragicamente. Lady Di dentro de um túnel, Gracie Kelly nas curvas da estrada de Santos, Jaqueline Onassis baleada no Texas. Trágico destino o das noivas famosas. Quando o borracheiro chegou, desatou a rir.
– Sinto muito dona, mas a senhora vai ter que descer do carro. Meu macaco não é muito potente.
Difícil achar posição em banquinho tão pequeno, ainda por cima com as pernas bambas. Berenice se acomodou como pode. O banquinho sumiu debaixo de tanto pano. A barra do vestido foi ficando negra, os sapatos irreconhecíveis. A peladona do mês pendurada na parede parecia gozar da sua cara.
– E aí, princesa, tudo bem com você?
O borracheiro pouco entendia de carro importado, na confusão acabou arrebentando o encaixe do macaco. O motorista ajoelhava-se na lama para ajudá-lo.
Na porta da garagem, a molecada se juntava às pencas. Os menores chamavam os maiores. Vem ver a noiva! As mulheres queriam pegar no vestido, nunca viram coisa tão linda. Lindalva ofereceu a casa pra que Berenice descansasse um pouco. Pelo jeito, a coisa vai demorar. Berenice foi a pé, com a criançada atrás segurando a cauda do vestido. Os pés afundavam no barro até o tornozelo. A grinalda ela deixou na borracharia, em cima do banquinho.
Na frente do barraco, duas tábuas pra não cair no córrego. Segurando nas mãos de um e outro, Berenice atravessou a salvo. O filho mais novo que estava no berço, arregalou os olhinhos miúdos. A chupeta caiu-lhe da boca de tanto susto, mas ele não emitiu um som. Berenice sentou-se no sofá rasgado a espera do café. A novela já tinha terminado.
Aos poucos os vizinhos foram chegando, a sala ficou lotada. Um falatório, uma gritaria. Esse café sai ou não sai? Berenice pediu um cigarro. Uma turma via televisão, outra jogava baralho, outra escutava as histórias que a noiva contava. Conta mais, conta mais. As vizinhas trouxeram canja de galinha, pão quentinho, cerveja. Uma mais gentil que a outra.
Quando o motorista veio avisar que podiam partir, encontrou Berenice de combinação, muito à vontade, gargalhando com a mulherada. O véu ela deu de presente pro menino, nunca mais ele seria picado pelos pernilongos.
Na volta, o trânsito estava que era uma beleza. O vestido, o motorista entregou como pacote extraviado que se perde do destino. Berenice nunca mais.

(Conto publicado no meu livro Falo de Mulher, 2002)

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

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