Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

UMA VELA PARA MAPPLETHORPE

12 comentários

Não sei se alguém, algum dia, acendeu uma vela para Mapplethorpe mas hoje às 7h15 da manhã eu acendi. Assim que terminei de ler sua biografia escrita por Patricia Morrisroe, publicada pela Record em 1996 (só encontrável em sebos. Eu ganhei do Marcelino Freire).

Eram 5h10 quando o telefone tocou. Chamada a cobrar. Meu coração foi parar na boca. Bebel sempre me liga a cobrar. Mas àquela hora? O que teria acontecido? Anos atrás eu tive um namorado que também me ligava a cobrar no meio da madrugada quando bebia, mas nem desconfio por ele anda.

Terminada a musiquinha, ouço uma voz de mulher aos prantos: “mãe, eu fui assaltada, mãe”. Diante do meu silêncio, a voz repetiu: “mãe, eu fui assaltada”. Não. Pra cima de mim, não. Bastaram 20 segundos pra eu ver que aquela não era a voz da Bebel, aquele não era o choro da Bebel, a Bebel não estaria na rua às 5 da matina nem ligaria a cobrar depois de um assalto. Enfim, só me restava bater o telefone na cara da filha da puta que me acordou no meio da noite e tentar dormir de novo. Como eu sabia que isso seria impossível, o jeito foi acender a luz e pegar a biografia do Mapplethorpe pra ler. Faltava pouco pra terminar.

Tivesse eu a metade da audácia e da coragem desse maluco e teria mandado a filha da puta que me ligou tomar no meio do rabo dela, ela e a gang dela, mas eu não tenho e por isso me contentei em bater o telefone na cara da infeliz.

Robert morreu aos 43 anos, em 1989. Ler sua biografia é ver passar na memória a história dos loucos anos 80. A Aids ceifando vidas no atacado, as drogas, o rompimento dos limites em todas as artes, o começo da fome pela fama, a luta desesperada pra se tornar celebridade e sair da caretice reinante.

Se você leu a biografia de Patricia Smith e pensa que conhece Mapplethorpe está redondamente enganado. Aquilo é uma biografia escrita sob o filtro da paixão, o que não é o caso desta outra Patrícia, a Morrisroe.

Ambos, Pat e Robert, eram muito mais loucos do ela relata. O tom edulcarado do “Só Garotos” me fez ver como somos tolinhas quando amamos alguém. Os defeitos do cara viram excentricidades, quando não virtudes! É preciso olhar sob a ótica de P. Morrisroe pra ver como o buraco era muito mais embaixo. Suas taras, suas práticas sadomasoquistas, seu desespero, suas drogas, a caça desesperada por sexo, os cigarros que ele fumava mesmo quando a comida já tinha que descer pro seu estômago por um tubo, enfim… Imagine um cara muito louco, multiplique por 10 e terá chegado perto de Robert Mapplethorpe.

“Se eu precisar mudar de vida, prefiro morrer”. Nada mais anos 80, né? Cazuza mandou lembranças.

Ele acreditava que o sexo era a tábua de salvação que o tiraria da babaquice que ele sabia existir no fundo do seu ser e da qual ele nunca se livrou. No fim da vida, já à beira da morte, seu maior medo era de que os pais soubessem que ele era gay. Ao saber, a mãe custa a crer. “Você é homossexual?”, ela pergunta estupefacta.  “Justo o meu filho preferido…”. No dia seguinte manda um padre da cidade natal pra lhe dar a extrema unção. Mapplethorpe passa horas conversando o padre sobre a infância, os amigos da infância.

Uma segunda coisa que me ocorre ao comparar as duas biografias é ver com que facilidade nos julgamos as tais, as maiorais na vida de alguém. Segundo o livro de P. Smith, para Robert era Deus no céu e ela na terra. Já no livro da outra Patricia não havia Deus algum no céu de Mapplethorpe. Havia sim o corpo de mil negões e ele querendo trepar com todos, enfiar chicote no rabo de todos e dele próprio, meter dois, três punhos no traseiro e fotografar, fotografar, fotografar.

Bem fez P. Smith que pulou do barco na hora certa. Foi pro interior com seu maridinho, teve seus filhinhos e hoje tá aí, linda e forte cantando e contando esta louca história em pleno século XXI. Ela não acreditou que aquela era a única saída e correu pra escada de incêndio. Tô com ela e não abro.

Às 7h15, já com o sol pedindo pra entrar, eu abri a janela, fui à cozinha, fiz um café e acendi uma vela (como faço toda 6ª. feira) pedindo que Deus ilumine a todos nós, os vivos e os mortos, os artistas desesperados e os nem tanto, que cuide dos meus amigos, da minha família e da Bebel que a esta hora ainda deve estar dormindo seu sono de boneca. Pedi também que Deus desse um beijo por mim em Robert, que deve estar sentado à Sua direita. Com ele era tudo ou nada.

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

12 thoughts on “UMA VELA PARA MAPPLETHORPE

  1. Estou escrevendo sobre Robert, estou garimpando informações. A vida esse artista é muito louca.

  2. é engracado como sempre julgamos os outros ou situacoes atraves do nosso proprio julgamento do que julgamos certo ou errado. Sempre pensamos em ganhar, tirar aquela vantagem. Tentar aplicar o golpe no desprevinido? Como essas babacas que te acordaram no meio do teu sono.

    Mas que vantagem e’ essa? Que ganho e’ esse? Please…

    Quem pode garantir que viver 100 anos numa vida cinza, sem cor, seja melhor que viver 43 bem vividos, experimentados, mastigados, digeridos… Viver 100 anos sem produzir nada, sem estar liberto das amarras da sociedade e de gente hipocrita que so’ sabe criticar. Ele se liberou. Foi melhor? Pior? Nao sei… nem acho que isso exista, essa coisa de melhor, de loser… da saida de emergencia… da escada de incendio. Isso e’ apenas um olhar cheio de julgamentos falando, relatando o fato. Na realidade, foram escolhas que levaram a diferentes experiencias… Afinal, isso que e’ a vida, nao? Um amontoado de experiencias, sensacoes… Ele as teve todas em 43 anos e outros nem em 100 as poderao viver… Como resultado dessa vida, ele nos deu arte, fotos que relatam mais que a propria foto… Patti Smith foi capaz de ver, de enxergar alem das imagens, do preconceito… e o que viu ela relatou no seu livro. O viu com os olhos do amor. E existe maneira melhor e mais verdadeira de olhar para o outro?

    Todos nos vivemos atras de algo. Ele correu atras do prazer carnal e da sua arte, e dai? Muita gente faz atrocidades por dinheiro, fama, glamur, amizades… Sao esses melhores que aquele? Duvido.

  3. Ei… era tanta coisa que esqueci de comentar: Já fui vítima várias vezes do tal golpe do telefone que vc conta. E na primeira vez eu, que nem filho tenho, fiquei apavorado e sem conseguir pegar no sono. Depois vieram vários outros telefonemas, às vezes até gravados na secretária eletrônica. E na última vez, lembro que dei uma gargalhada tão grande que a figura do outro lado da linha deve ter pensado que tinha ligado pra um maluco.

    • esse foi o segundo telefonema que eu recebi. No primeiro eu briguei e xinguei tanto o fdp que ele bateu o telefone na minha cara. Dessa vez, não tive ânimo.

  4. Ivana,
    Que post mais lindo. Eu adoro a bio do Mapplethorpe. Já li umas três vezes e sempre tenho vontade de voltar a ela. Também adoro o Só Garotos e concordo com você: pra continuar sobrevivendo, o humano tem o bom costume de só lembrar as coisas boas. O livro da Patti Smith é uma carta de amor ao Robert, a ela, a geração deles, e isso me tocou.
    A bio do Mapplethorphe é praticamente desesperadora e me lembra outra biografia maravilhosa, a do Reinaldo Arenas, Antes que Anoiteça. Ambas com a aids e a devastação que ela causou como pano de fundo. E agora lembrei de outro livro, que não é bio, mas tem a ver: O Risco de Vida, do Alberto Guzik. E de repente bateu saudade dele. Melhor parar aqui. gracias pelo lindo texto. Besos. y bolotas Patti, Robert, Reinaldo, Guzik….

  5. Caramba Ivana, eu não tinha pensado nessa pulada do barco que a Pat Smith deu na relação deles, depois que terminei a bio dela achei que foi coisa do acaso essa separação. Ótimo texto. E esses trotes enchem o saco não? rs
    bj

  6. gostei muito de seu texto. acabei de ler o livro de patti smith, e agora vou tentar achar esse outro livro. vi fotos do mapplethorpe no mam há muitos anos, e nunca as esqueci. arte.

  7. Adoro ler seus textos de “manha” 10:58, Querida me inclui nas orações das sextas feira!!! quem sabe passo a ser uma artista afortunada!!!! beijos e agradeço por esse carinho e confiança que me inspira a ter todas as manhas!!!!! Salve!

  8. eu li a biografia do mapplethrope em 96 ou 97. é realmente muito boa e quase não fala da patti smith, ou fala só o necessário. agora estou lendo a autobiografia dela. tô gostando. mas logo depois que li a do mapplethorpe vi uma grande mostra de fotos dele na fundació miró, em barcelona. arrebatadora! logo depois ela aterrissou em sp, mas estava pela metade…

  9. Belíssimo texto.
    Curiosa para saber mais sobre Mappletorphe.

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