Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

O AMOR SEMEIA FRUTOS QUE NÃO COLHE

4 comentários

Dioclécia, a caçula, era criança quando saí de casa. Éramos seis, como no livro. O Delson morreu o ano passado, dos outros nunca mais tive notícias. Se estiverem vivos, sei que a mão do pai ainda pesa sobre a cabeça de cada um.
A vida inteira, minha mãe aos pés de Nossa Senhora pedindo pros filhos terem amor no coração – o único bem que se leva dessa vida.
E pensar que amaldiçoávamos tanto o ventre que nos pariu, o peito que nos alimentou. Tamanha era a miséria.
– Que castigo nascer nessa merda de família. O que adianta o pai ficar rezando o dia inteiro, se nem comida a gente tem?
Criança é bicho que não presta. A gente queria carrinho, boneca, roupa bonita, mas só o que vinha era brinquedo velho e roupa rasgada que os ricos mandavam no natal. Dava vontade de tacar tudo no lixo. Meu pai ainda fazia agradecer.
– Agradece o moço, minha filha.
Só faltava fazer beijar a mão.
Toda noite, os seis filhos em fila esperando a vez do pai fazer a oração com a mão sobre a cabeça de cada um.
Ver aquela meia dúzia de pirralhos desmilingüidos, de cabeça baixa enquanto o pai rezava, era insuportável. Dava vontade de dizer: por que não reza logo pro diabo levar a gente pro inferno?
Tomar sopa rala com pão amanhecido e ouvir a barriga gritando: quero chocolate, quero coca-cola, quero bombom sonho de valsa.
– Agradece a Deus o pão nosso de cada dia.
E pão amanhecido carece tanto agradecimento?
– Que este filho ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a um irmão. Que ele tenha amor no coração porque bem maior não existe não. O próximo – meu pai chamava.
Ele não podia prever a sina.
Bela engravidou aos quinze anos. Fez aborto sozinha. Quando apareceu sem barriga e sem criança, a mãe e o pai choraram muito e pediram perdão a Deus.
O Delson, ainda pequeno, era trazido pra casa pelas mãos da polícia.
– Esse moleque foi pego arrombando carro de novo. Da próxima vez vai pra corregedoria.
O pai agradecia aos guardas o cuidado que tinham com o filho.
O Cildo, muito cedo virou avião. Quando os traficantes vinham chamá-lo no portão, o pai dizia que filho dele só levava a palavra de Deus.
Osmar, depois que matou um homem, sumiu sem dar notícia, até que soubemos que morreu matado em Minas Gerais.
A mãe, sempre de avental molhado, pedia que Nossa Senhora acompanhasse nossos passos, nos fizesse gente de bem. Mas a mãe também não sabia os filhos que tinha.
Todos com vontade de botar a perna no mundo, perninha torta de criança, e conquistar tudo que o pai não pode dar.
– Que este filho tenha amor no coração porque bem maior não existe não, dizia meu pai já bem velho, com voz grave e catarrenta.
Essa reza cavou em mim um buraco tão fundo que acabei virando a palavra do pai.
Somos dez nesta cela, mas já fomos vinte e duas. Somadas nossas penas, dá pena pra uma vida inteira.
Toda noite, antes de dormir, eu chamo as moças e rezo com elas a oração que meu pai me ensinou.
Ponho a mão sobre a cabeça delas e peço a Deus para que tenham amor no coração porque bem maior não existe não.
As pobrezinhas ficam em fila, em silêncio, aguardando a vez.
Da Dioclécia, minha irmã caçula, eu não tinha notícia, até que um dia ela chegou pra cumprir pena por assassinato. Desde pequena era ciumenta como o cão. Acabou matando o marido com sete facadas.
Quando as meninas souberam que ela era minha irmã, foram logo perguntando:
– Você também é santa?
– Santa, eu?
– Sua irmã é santa, você não sabe não?
– Que história é essa de você ser santa? – ela me perguntou assustada.
– É que eu rezo com elas toda noite e elas acham bonito. Dizem que faz bem. Por isso me chamam de santa. É bobagem dessas meninas.
– É a reza do pai?
– É.
– Você pede pra que elas tenham amor no coração que bem maior não existe não?
– Peço.
– Sabe que eu nunca dormi uma noite sem lembrar dessa oração? Chego a sentir a mão do pai na minha cabeça.
– Que bom, filhinha, eu disse apertando-a contra o peito.
Choramos feito duas santinhas.

(conto publicado na antologia Ficções Fraternas, org. Livia Garcia-Roza, ed. Record)

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

4 thoughts on “O AMOR SEMEIA FRUTOS QUE NÃO COLHE

  1. Acho que é isso o carma de vidas passadas…A reza vai servir pra próxima, nesta é só pagamento da anterior…muita dor.

  2. Li e arrepiei.

  3. Oi Ivana/Doidivana:

    vc ainda não me conhece eu trabalho na livraria da IO na Casa das Rosas e sempre ouço falar de vc !!Sinto me sua amiga ja que “fucei” – será que é assim que se escreve já não sei mais nada, depois da tal reforma – tanto seu blog..Li seu livro Al. Santos eu adorei e na medida do possível vou continuar “lendo voce”…um grande beijo que ja a considera uma amiga
    Ah…sobre o post acima, meu Deus!! lembrou muito coisas do meu pai que ja se foi. Sem querer ser piegas, mas chorei…
    Mazé

  4. Querida escritora,

    Ao ler este conto me veio a imagem de uma mulher aprisionada numa cela que fica dentro dela. É escritora. Sem papel, sem pena e sem dó escreve com a ponta de uma faca, cortando a própria carne, tentando libertar a si mesma, pois dizem que sangue é vida. Mas quem sangra somos nós, seus leitores. Hemorragia interna. Beijo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s