Doidivana

blog da escritora Ivana Arruda Leite

QUATRO DOLORES

6 comentários

DOLORES 1

Quando as pessoas me olham na rua, são capazes de apostar: lá vai uma mãe e esposa exemplar. Engraçado isso de parecer o que não se é. Eu também diria se não soubesse quem sou. Conhecendo-me como conheço fico pensando de onde vem essa impressão. Talvez da docilidade e submissão que aparento ter. Na verdade, a docilidade nunca esteve entre as minhas virtudes. Muito menos a submissão. Perguntem a Miguel se sou esta santa que aparento e ouvirão uma gargalhada. Garanto que ele fará tantas reclamações que parecerá tratar-se de outra pessoa. Ele dirá que sou péssima dona de casa, não sei passar suas camisas, não lavo minhas calcinhas e os móveis vivem cobertos de poeira. Além de não cuidar dos nossos filhos como toda mãe deveria. Diferente de Miguel, eu diria que o que me impede de ser esposa e mãe exemplar é o meu temperamento. Tenho um gênio terrível. De manhã acordo de um jeito, na hora do almoço estou de outro e à noite pior ainda. Nenhuma mãe ou esposa exemplar pode ser tão imprevisível. Pode ser porca, relaxada, preguiçosa, péssima cozinheira, mas imprevisível não. Faço padecer os que vivem ao redor. Já pedi que me deixem sozinha, que procurem mãe e esposa melhor por aí. Mas eles preferem continuar me azucrinando. Deixem-me a sós, eu lhes peço de coração.
Outro dia fui me confessar. Não sei por que, mas, de repente, me deu uma culpa danada por querer afogar os meus filhotes no vaso sanitário, dar-lhes toddy com formicida. Quando o padre me viu chegar foi logo abrindo os braços e dizendo: que pecados pode ter você, uma mãe e esposa exemplar? Dei-lhe as costas e saí pisando duro. Meus passos ecoavam pela igreja toda. Na rua, ouvi alguém comentar: que mulher boa é a Dolores! Este inferno não tem fim. Pra falar a verdade, acho que nasci com vocação pra puta. Me vejo livre e feliz sem marido nem filhos, solta na vida e no mundo.
Pois não é que eu estava encostada no balcão do posto de gasolina, com cigarro no canto da boca, batom vermelho e radinho de pilha no ouvido quando ouvi um motorista comentar: dizem que é uma excelente mãe de família. Todo vagão descarrilha um dia, por que só eu tenho que andar na linha?

DOLORES 2

O que me aborrece nessa vida de puta é esse maldito ar de mulher séria. Onde quer que eu vá, as pessoas me olham, olham meu corpo, meu jeito de andar e comentam: lá vai uma mulher séria. Se ao menos fosse verdade, vá lá. Mas não é o caso. Nunca foi. Gosto de andar sem rumo, sentar em botecos, sem eira nem beira, ouvindo radinho de pilha. Tem garota que vira puta pra pagar remédio da mãe, cachaça do pai, droga pro namorado. Essas, pobrezinhas, não têm escolha, quando vêem já estão.
Meu caso é diferente. Sempre fui moça bonita, bem feita de corpo, lindos cabelos, olhos amendoados, cinturinha de pilão, coxas grossas, canela fina, bonita da cabeça aos pés. Fui até convidada pra ser miss na cidade onde nasci. O problema era o meu temperamento, insuportável. Essa menina acaba com meus nervos, minha mãe dizia à beira da loucura. Maldito gênio tem essa menina, dizia meu pai, vai acabar solteira, não tem homem que agüente mulher assim. Na base do grito, eu ia conseguindo tudo que queria. Menos namorado. Aí não tinha jeito. Eu via aquelas meninas feinhas, magrinhas, todas se casando e eu nada. E minha mãe me atazanando, você vai ficar pra tia, não tem homem que te agüente. Era gozação pra tudo que é lado, solteirona, solteirona, e o enxoval embolorando na prateleira. Aquilo foi me dando tanto ódio que eu resolvi ser puta.
Certa vez, no baile da primavera, depois de tomar chá de cadeira a noite inteira, eu chamei de lado o moço mais feio da cidade e lhe propus casamento. O pobre começou a rir um riso de boca torta e bater a cabeça no pilar feito um pica-pau. Seu corpo balançava sacudido por um riso ardido, fininho, mais parecendo um ataque epilético. Quando sossegou, me olhou com olhinhos vesgos e perguntou:
– Por que comigo, você nem me conhece?
– Porque fui com a sua cara, respondi. Topa ou não topa?
Só eu sabia de onde vinha a força daquela decisão. Casar com Alfeu seria subir ao Olimpo das putas e lá ser coroada a maioral. Era isso que eu queria. Alfeu ia toda noite a minha casa, ficávamos no terraço folheando revistas, aos domingos íamos à missa de braço dado. Quando os amigos perguntavam como ele me agüentava, respondia: ela é uma boa moça.
Em três meses eu estava casada. Me plantava na janela da casa que ele me dera, punha um vestido bem decotado, fincava os cotovelos no batente e passava a tarde fumando e ouvindo radinho de pilha, uma puta perfeita.
Com o pobre do Alfeu eu sempre tive paciência. Como brigar com um homem bom como aquele?
O tempo passou, Alfeu foi transferido pra São Paulo, mês que vem completamos bodas de prata. Nem no enterro da minha mãe eu voltei àquela merda de cidade. De vez em quando encosto num balcão de padaria e bebo uma cerveja. Sozinha. Nunca perdi a virgindade, mas tenho certeza que sou puta. Sei que sou.

DOLORES 3

Maldita hora que minha mãe me jogou nesse orfanato. A vaca embarrigou mas não quis saber da criança. Seu negócio era botar a perna no mundo. Me deixou aqui nas mãos destas freiras que me deram casa e comida, mas me privaram do melhor. Mesmo sem conhecer, sei que o melhor está lá fora. O melhor está no que os homens trazem no meio das pernas. E eu aqui, com este vestidão enorme, preto, calorento, parecendo um urubu.
Fiz meus votos há vinte anos. O que sei do mundo, escuto num radinho de pilha que levo escondido pra onde vou. Passei a vida atrás destes muros, se é que isso é vida. Vida mesmo têm as putas, que dormem cada noite com um homem diferente, num lugar diferente, beijando boca diferente. E eu aqui, ferindo meus joelhos, passando fome, esfregando chão, cercada por essas malucas que nunca deram beijo na boca.
Se Deus me desse uma chance, uma outra vida pra eu viver, juro que pedia pra ter ido com minha mãe. Seríamos putas as duas, eu numa cama, ela na outra, eu com um homem, ela com outro. Depois a gente trocava e comparava qual dos dois foi melhor. Era isso que eu queria pra mim e Deus sabe que eu não estou mentindo.

DOLORES 4

Meu nome é Dolores e eu sou puta. Que destino infeliz o meu. Dormir cada noite com um homem, numa cama diferente, agüentar bafo de bêbado, homem banguela, fedido, mal educado, triste sina a minha. Quem dera ser dona de casa, destas bem comportadas, com maridão do lado, filho pedindo toddy, roupa pra passar, comida pra fazer, radinho de pilha pendurado na janela. Quem dera abrir as pernas prum homem só a vida inteira. Ou não abrir se não tivesse vontade. Mas Deus quis que meu destino fosse outro. Aliás, Deus, que é pai e me criou, sabe que meu sonho mesmo, de verdade, era ter sido freira. Passar a vida toda dando só pra Nosso Senhor. Mas era tanto remédio pra mãe, tanta cachaça pro pai e droga pro namorado que não teve jeito.

(conto publicado no meu livro Falo de Mulher)

Autor: Doidivana

escritora de forno e fogão

6 thoughts on “QUATRO DOLORES

  1. Olá Ivana,
    Gostei muito das Dolores, o universo de cada uma, as múltiplas visões e uma sina: ser mulher. Nós, esses bichos insatisfeitos e deliciosamente queridos por mais que às vezes sejamos incompreendidas. Add você em Favoritos com louvor. Obrigada pela contribuição literária. Bom ler você. Boa semana.

  2. Muito bom, Ivana! Adorei as Quatro Dolores…

  3. Oi, Ivana!
    adoro quando tem conto por aqui, não posso deixar de comentar! x)
    embora esse eu já conhecesse!
    muito obrigada pelas dicas dos sebos que eu te pedi! quando der uma folguinha na faculdade vou sair por aí, explorando. Passo sempre pela francisco morato de ônibus, já reparei em que lá tem alguns sebos mesmo… também quero conhecer a livraria da vila, na Lorena, certo? mas, com certeza não é isso que vai me deixar sem ler! hahaha, quero é mais e mais! xD
    Beijos mil e obrigada pelo conto! boa semana!
    🙂

  4. Adorei seu Blog, ja adicionei nos meus favoritos. Não esqueça de retribuir a visita…

  5. Dolores, Claudios, Ivanas, talvez – nunca, nunca estarão satisfeitos.

  6. Ivana,
    Ótimo conto. Eu ainda não li “Falo de mulher”, mas essa amostra atiçou a curiosidade. Vai para a minha lista do “a comprar”. rsrsrs
    Um livro seu que gostei muito foi “Ao homem que não me quis”.
    Acabo lendo vários livros ao mesmo tempo. Entre os atuais está “Eu te darei o céu e outras promessas dos anos 60”. Quando terminar, te falo.

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